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!! DAMN !! Zine !! DAMN !! Zine
:: ELEGIA 1938 ::
por Carlos Drummond de Andrade
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não
encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta
de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a
virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem
guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras
bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que,
dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova
a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de
indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e
negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de
amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro
século, a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a
injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de
Manhattan.
:: OS RUSSOS UTILIZARAM UM LÁPIS
::
por Walter Lippman,
que não tenho idéia de quem seja.
Quando todos pensam igual é porque ninguém está pensando.
:: O PALHAÇO DA ASA ::
Clássico da literatura realista, por Stephanie Avari (tebis.b2@ig.com.br)
:: REPUGNÂNCIA::
por André Deak, o fatigado
Eu os vejo por todas as partes. Não diretamente, porque quando olho eles desaparecem. Mas sei que eles estão ali. Vejo um vulto. Atrás de um papel, sob o teclado, chegando perto dos meus pés descalços agora, enquanto eu escrevo. Mas se eu olhar eles desaparecem. Às vezes eu consigo ver algum, na parede ou voando perto da lâmpada do quarto. Mas é difícil pegá-los, eles são tão pequenos. Vejo algumas dezenas dentro de um copo que esqueci de levar à cozinha. Minúsculos. Caminhando sobre algumas peças empoeiradas na mesa. Esses eu mato com as mãos e não tiro seus corpos dali, imaginando que servirão de exemplo aos outros. Não adianta. Os corpos apenas se acumulam e juntam mais poeira. E os outros vêm do mesmo jeito que vinham antes. Eu sei o que eles querem: querem encostar em mim. Não sei porquê. Acho que é por causa do calor do meu corpo. Às vezes eu sinto uma coceira na perna ou no braço e então mexo rápido ou passo as mãos nas costas para ver se tem alguma coisa. Não acho nada. Mas sei que eles estavam lá. Ou podiam estar. Melhor prevenir. Antes era só ruim, agora está ficando pior. Agora alguns deles passam doenças terríveis. Só aqui no bairro onde moro houve seis casos de contaminação. Por eles. Antes eu chegava no quarto e acendia as luzes logo para procurar no chão e nas paredes para ver se algum deles estava lá, rastejando. Normalmente não encontrava, mas ficava com a impressão de que eles estavam se escondendo, que eu não havia sido rápido o suficiente ou que tinha olhado na direção errada durante o tempo exato para que eles corressem debaixo de algum móvel antigo e pesado. Não podia vê-los mas sentia que estavam se movendo, nas sombras, esperando. Esperando as luzes se apagarem para se aproximarem de mim e rastejarem pelo meu corpo. Coloquei armadilhas para eles por toda a parte e já encontrei vários deles mortos ao chegar, ao acender as luzes. Mas todas elas têm um prazo de validade, o veneno não dura para sempre. E não sei quando o prazo termina. Mas isso nem sempre funciona também – e nem sei se funcionou alguma vez. Talvez tenham morrido por outras causas. Por causa do calor. Não. Quando está calor eles ficam mais alvoroçados. Saem a luz do dia. Ficam mais fortes, correm mais rápido, voam na minha cara. Eles querem entrar e eu não tenho como evitar. Toda noite é a mesma coisa: eu aqui e eles se arrastando nas sombras. Eu sei. Às vezes, depois de apagar as luzes, eu posso escutar eles se movendo. Verdade. Duas ou três vezes já levantei e encontrei um deles, que estava escondido, ali, no chão, como se estivesse sentindo minha presença. Saboreando. Por duas ou três vezes passei a noite em claro tentando matá-los, arrastando móveis, procurando venenos, jogando a mobília para um lado e para o outro na esperança de isolar aquela peste. Matá-los não é tão difícil quanto encontrá-los. É apenas repugnante. Mas depois é que vêm o pior sentimento: saber que existem mais e mais, que se multiplicam aos milhões e que eu jamais poderei matar todos. E que talvez alguns deles estejam aqui. Escondidos. Rastejando. Tentando encostar em mim.
Querido Damião,
Olá, amigo, olá camaradas, olá banca examinadora. Olá sapo babão (eu sei que vc continua aí).
Estou rodeada por um séquito de mixiricas fofinhas (sim! acabo de pegar um gomo sem caroço, e vou orar pela alma dos catalupos agora), e pensei "eh, bem, por que não escrever uma longa e emocionante epístola cheirosa ao Papa, que tantas alegrias nos dá ao dançar nas colinas verdejantes e assoviar canções insulares, batendo uns calcanhares conforme o ritmo?". Ah, não, esse eh o Fricazóide. Sabe. A partir de hoje nunca mais verei coisas chatas na televisão, como As Baleias de Agosto (filme meu e da eskila, a propósito), mas sim programações culturais e estimulantes. Como os saudosos desenhos que não deram certo e passam na Cartoon de sol a sol, principalmente 'Ruppert o Peixe Artista'. Mas não era disso que vim falar. Na verdade estou aqui porque preciso continuar aqui. Participo de uma experiencia científica, proposta por mim, de verificar quanto tempo um ser humano pode agüentar sem fazer xixi. Na verdade estou sem fazer xixi desde outubro de 1986, mas isso é uma mentira que não pode ser sustentada por muito tempo. Então vou mudar de estratégia porque já fui descoberta.
Eu tenho 8 gomos de mixirica. Certo? Você está me acompanhando?
Pois então, acabo de comer 3. Sobraram 5. Desses 5, 1 eu separei pra Eskila, que tem fome no momento e manda um abraço a todas as criaturas inanimadas da mente perturbada do mundo. Isso porque ela não conhece a mente duplamente perturbada do sistema vc-e-seus-amigos-imagináros, que pode vir a explodir a qualquer momento e transformar o mundo em um grande conglomerado de pasta de amendoim.
Mas então. Sobraram alguns gomos de mixirica. Está acompanhando? Acho bom. 4 gomos restantes, dos 8 iniciais. E um desses gomos tinha coloração esverdeada - guarde esse dado porque lhe servirá em algum momento da narrativa. Então. Estou pensando se devo ou não devo plantar os gomos restantes embaixo do meu colchao para que nasça um pé de mixis. E gostaria da opinião de alguém especializado no assunto, como você, ou como o sapo babão (hein? saia daí. Pare de incomodar meu amigo. Sim, ele é nosso amigo. Não me interrompa enquanto eu estiver falando, e arrume essa postura mocinho). Se vc puder me ajudar, seria muito grata. A ciência agradeceria sua iniciativa e sapiência. Sabe. Eu vi um filme, na verdade não fui eu, mas a mulher do filme falava que o namorado dela ria como um macaco, com a boca aberta ao máximo, sem fazer barulho. Aí um dia ele mergulhou, e quando subiu estava rindo desse jeito. Todo mundo riu. Ele afundou de novo, subiu, e riu. Todo mundo riu. Aí ele afundou e não voltou mais. Ele não estava rindo, ele estava engasgando. Moral: se você ri com a mesma cara que você engasga, mude seus hábitos.
Eu vou embora, agora.
Gostaria de fazer xixi, se meu irmão não tivesse interditado o recinto com seu exército de sais de banho e bolinhas perfumadas de fazer espuma. Se eu tivesse um Besouro-Suco aqui (Besouro-Suco! Besouro-Suco! Besouro-Suco!) eu invadiria o banheiro e declararia território neutro da casa. Eu chamei três vezes e o Besouro-Suco não venho. Não sabia q coleópteros entravam de férias. Agora eu vou embora. É a velha história: garota pinta o braço com caracteres chineses, encontra marceneiro na rua que se ofende com as incrições, eles começam uma discussão, ela enche a boca dele de estopa e pimba: se mudam pra Manhattan e constroem um lindo chalé de alvenaria. Já vi isso milhares de vezes. Não vai se repetir. Não comigo.
Muito obrigada pela atenção, colegas acadêmicos, o mocinho vestido de Batman ali do canto e o casal sorridente, vestidos de Pikachu e Clefairy, mastigando bananas carameladas no ritmo de cha-cha-cha.
Nada mais havendo a tratar,
Atenciosamente,
Eu.
:: VOCÊ PERGUNTA, NÓS NÃO DAMOS A MÍNIMA ::
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??? Na França, quando alguém quer pão francês, pede pão francês ou apenas pão? (Dadá, o Breve)
Pede cuquinha. Os franceses odeiam pão francês pois é feito da banha dos monarcas franceses à época da Revolução, e assim comercializado até hj. Há freezers pra isso. Na verdade há uma indústria de congeladores pra isso. Há potinhos herméticos da Tupperware para abrigar a banha real. Assim, os franceses preferem desgustar a popular e tão desejada cuquinha e brioches de leite condensado.
??? Qual é o sinônimo de "sinônimo"? (idem)
Sicofanta.
??? Por que não há comida para gatos com sabor de rato? (ibidem)
Porque ainda não descobriram o aromatizante rato, e os técnicos discutem em simpósios qual seria o corante que mais se identificaria com um apetitoso rato. Ou ainda: os cientistas andam provando a ração de rato e acabam se demitindo do laboratório, a lamber os bigodes.
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal. Computadores-robô meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada faz
sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
Já rezava a lenda que: "Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
Mande suas contribuições!!
vmbarbara@yahoo.com
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