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!! DAMN !! Zine !! DAMN !! Zine

 

P o r   m i l   d e m ô n i o s !
#014 - São Paulo, 14 de abril de 2002.
Para nós, os pouco felizes

Tiragem: 142 exemplares
Classificação: estritamente proibido para psicopatas apáticos
www.damnzine.cjb.net
Esta edição é dedicada ao Bruno
(onde quer que vc esteja, devolva minha morsa!)

 
 
 
"Harry passa seus dias dizendo coisas incríveis e suas noites fazendo coisas inverossímeis"
(O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde)
 
 
:: EDITORIAL ::
Vanessa Barbara - vmbarbara@brfree.com.br
 
Noite chuvosa (por que não?). Dois cavalheiros segurando seus guarda-chuvas, esperando distraídamente o cabriolé.
 
Silva -- Odeio pepinos. Estava preparando a salada lá pela terça-feira quando...
Mascarenhas -- Pepinos? Pois minha prima Tiffany tinha uma mercearia em Parada de Taipas mas...
Silva -- a faca escorregou de minha mão e atravessou o pepino, e ainda perdi as unhas, vai imaginar!
Mascarenhas -- ela não sabia nada de mercearias e eu nunca, nunca achei que ela fosse insistir. Acredite!
Silva -- Eu sei, meu caro, a gente se surpreende, não é? Aposto que minhas unhas nunca mais vão crescer e...
Mascarenhas -- Logo ela, que sempre foi tão burrinha...
Silva -- vou ter que pedir outro par emprestado, ou implantar unhas postiças, ah, se ao menos eu pudesse...
Mascarenhas -- É um absurdo, uma menina destas cuidando da vendinha, ah, esses tempos...
Silva -- Pois é, camarada, na minha época as pessoas não se machucavam com facas, e quem diria com pepinos...
Mascarenhas -- Lamentável, eu sei! Justo a Tiffany!
Silva -- a humanidade é carnívora, e se põe a comer verduras. E comem até legumes! Isso sem falar em...
Mascarenhas -- ... pepinos, e sem falar na Tiffany.
Silva -- Pois pense você que uma verdura não tem como se defender, ou vc já viu um alface fugindo da morte?
Mascarenhas -- Ela é filha do Alípio, o verdureiro, e ontem mesmo....
 

 

:: NADA É IMPOSSÍVEL DE MUDAR ::
por Bertold Brecht, que (como nós) adora alfinetes

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

 

:: CANÇÃO DE HOMENS E MULHERES LAMENTÁVEIS ::
por Antonio Maria

Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá.

:: NÓS, OS POUCO FELIZES ::
por Ana Miranda

Nós, seres humanos que vivemos em casas ou apartamentos, e não em acampamentos nem nos viadutos, nem nas favelas ou nos hospícios, nós que vivemos em residências de cujas janelas podemos ver a cidade em seus ofícios e vícios, ou a paisagem do campo e suas luzes, nós que sabemos cantar em prosa e verso, que podemos andar, sorrir, comer, temos a indústria e o comércio, e conta nos bancos, nós que somos brancos, universitários, que nunca fomos à guerra nem despejamos mísseis, nós que podemos ver o mar, as ilhas, as aves, as montanhas, o céu belíssimo, as nuvens pretas, as estrelas, a amplidão do mundo, que temos mapas e a astronomia, médicos e anestesia, hospitais e poesia, que podemos viajar, olhar vitrines e comprar, nós, ai, nós, que sabemos ler e lemos livros, temos fogões em nossas casas, temos camas, temos sexo e desejo, temos o beijo, nós que ouvimos música no rádio ou em discos, que temos filhos com todos os dentes, escola, agasalho e nem vivemos em Cuba, nós que não somos curdos nem turcos, nem etíopes nem angolanos, que temos florestas imensas, rios, terras, temos secas e temos chuva, temos quadros e gravuras, o luar do sertão e as araras, que choramos no cinema, que temos alma e lágrimas, mil caras, uma só, dedos sensíveis e crenças, amores secretos, jornalistas altruístas, padres guerrilheiros, músicos ardentes, escritores, sindicalistas, líderes sem-terra à vista, violeiros repentistas, loucuras, alvará de soltura, uma terra de palmeiras onde canta o sabiá, que temos carro ou sapato sem furo, temos o passado e o futuro, nós que assinamos revistas e jornais, temos casa de campo, mesmo que seja a de um amigo onde há cavalos e pirilampos, nós que jantamos à luz de velas, tomamos vinho e meio embriagados lemos poesias para os passarinhos, ou para as belas mulheres, ou para o ser que amamos, e amamos vários, nós que somos amados, que vamos à praia ou não vamos mas esperamos a praia vir a nós, que vestimos roupas e usamos um antigo anel de família que ainda não foi roubado, e que talvez nunca seja, que tomamos cerveja, que temos a confissão e o perdão, que acordamos tarde e não andamos de trem, que temos salário, ou renda fixa, emprego, família, paixão, nós que temos corpo e estamos vivos, temos amigos, temos trabalho, fazemos exercícios, somos hedonistas, artistas, poucos, nós que fazemos cinema, que sentimos o perfume e temos sonhos, que adoramos ouvir estórias contadas por qualquer estranho, que dançamos alegres com as crianças, que gostamos de lareira e frio, sorvete e calor, o limpo e o macio, que sonhamos navegar tornando o mundo pequeno, que usamos biquínis e tangas, desfilamos nossos seios nus nas escolas de samba, que não somos da ralé nem da choldra, nem da rafaméia nem do lúmpen nem da miséria, que especulamos e ganhamos mas também perdemos, nós que temos raízes, diretrizes, teatro, damas atrizes, jogadores, senadoras, ai de nós, perdoai-nos, somos os poucos felizes.

 

:: FRASE DE EFEITO - 1 ::
no muro de uma papelaria Kalunga

A Kalunga é nossa!!! (Obrigado pelos gizes)

 

:: A FRUSTRAÇÃO DA LONTRA ::
a Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as matérias. (Estaremos contratando o fazedor de títulos)
 
Se eu fosse um legume, seria uma lontra. *Blam*.
 
Estas, crianças, foram as últimas palavras do cheiroso velhinho Esopo, antes de escorregar em uma ovelha vingativa, bater a cabeça na quina de um armário e ser atingido por um sonolento pepino. Séculos depois, pesquisadores da Universidade de Perth montaram um grupo de estudos para investigar o que diabos significaria a frase mais sábia do pensador grego (segundo pesquisa do DataFolha em 312 residências da Grande Diadema). Baseados em um conto recém-descoberto de Esopo, que conta as peripécias de uma lontra cozida, os universitários montaram suas hipóteses.
 
O conto é baseado em uma lenda búlgara, "A Princesa e A Ervilha", que, convenhamos, não tem nada a ver com a história de Esopo, e muito menos com este artigo aqui. Pare de mexer nas minhas coisas, primo Timmy. Pois Esopo, sábio como sempre, inspirou-se em sua lontra Lanolina, outra das invenções de sua mente psicótica, que era filha da raposa Ácida e do aipo Mascarenhas Leonardo. Até aí, nada de novo, visto que as histórias do antigo Esopo nunca primaram lá muito pela coerência. A lontra era extremamente ambiciosa, e um dia furtou um naco do recheio de seu pai Mascarenhas, o Aipo, que enfureceu-se com a prima Matilda (esse era o nome da prima, que ainda não tinha mencionado pelo simples fato de ainda não tê-lo feito), e lançou uma maldição sobre todas as lontras. Dizia o folheto: "Eu, aipo Mascarenhas, declaro hoje que refogarei todas as lontras destes e de outros territórios", e ele nem sabia que Matilda não tinha culpa! Você está acompanhando? Pois bem, um exército de acelgas mercenárias invadiu a cidade aos borbotões, e de repente Mascarenhas (que era um aipo, para quem ainda não tinha entendido) percebeu que sua própria filha era uma lontra! Lanolina, Lanolina, perdoe seu pai! Dizia o atormentado mancebo, quando então percebeu que a filha tinha nas mãos um naco de seu próprio recheio, carne de sua própria carne! Ó cruel destino, como invocas tragédias sob nossos próprios olhos!
 
Então, de súbito, Aipo escondeu a lânguida Lanolina embaixo da cama, engoliu seu próprio naco, amarrou os sapatos e matou com suas próprias mãos a prima Matilda, que havia acabado de chegar do intercâmbio no Suriname. É neste ponto que os pesquisadores da Universidade não sabem como continuar.
 

:: FRASE DE EFEITO - 2 ::
durante manifestação em solidariedade à Palestina

O palestino é meu amigo...
Mexeu com ele, mexeu comigo!!!

 

:: DEPOIS DO FIM ::
por Rebeca Buendía, rebeca@macondo.com.ar

Muito além da pilha de entulhos, ouvia-se um acorde confuso de alguma música do século passado.

O beco era delimitado por uma fileira de pacotes antigos das Lojas Marabraz – Preço Menor Ninguém Faz –, uma parede cheia de rabiscos sem sentido e alguma coisa de madeira que servia de porta, mas que nunca se abria. A turma era formada por 2 garotas sem nome e um rapaz de olhar vazio, que tinha um nome mas não se lembrava dele. Talvez porque nunca o tivesse usado.

Há algum tempo, três crianças foram deixadas no beco e ali ficaram, diante da impossibilidade de abrir a porta (o garoto havia tentado algumas vezes, mas não tinha força) e também por causa do medo que os sons de fora inspiravam. Não falavam, não se comunicavam, comiam folhas secas e pequenos insetos, não sabiam assoviar (muito menos estalar os dedos ou dar piruetas) e viviam num constante estado de apatia, ano após ano. Mas, para o diabo, ali era tão quentinho, e, além do mais, a porta era tão longe...

Fora dali, pessoas civilizadas - que sabiam dar estupendas cambalhotas, é verdade – fingiam viver em becos particulares, moviam-se solitariamente em caixinhas móveis e construíam bolhas individuais, sem se comunicar ou dividir entre si os pequenos insetos que comiam.

Reza a lenda que, um dia, a Menina 1, a Garota 2 e o Menino-Que-Sabia-Seu-Nome-Mas-Não-Contava-Pra-Ninguém encontraram um suculento louva-a-deus e resolveram dividi-lo. Não me pergunte de onde veio a idéia, mas ela chegou de repente e, em instantes, os três estavam passando o bichinho de mão em mão, ensaiando pequenos sorrisos sinceros.

E, como uma coisa leva à outra, dali a algumas semanas estavam diante da porta. Idéia de uma das meninas, que queria porque queria ouvir a música que tocava insistentemente ao longe – "E hoje em dia..." –, e convidou os outros a forçar a entrada juntos, ao mesmo tempo.

E então abriram.

("Alguém falou no fim do mundo, o fim do mundo já passou...")

A porta. Porque tudo lá fora estava fechado: as pessoas, as ruas, o mundo. Garotas de roupas coloridas passavam, homens apressados falavam em caixinhas esquisitas, modelos dos cartazes exibiam seus dentes brilhantes cheios de sorrisos, mas ninguém olhava pra eles. Ou melhor, ninguém olhava para o lado. O Menino, que agora atendia pelo nome de "Menino", ainda tentou sorrir para uma criança redondinha e corada, mas ganhou uma cara feia e uma gargalhada maldosa. Maldito bebê sueco.  

Uma das garotas olhou para baixo, murmurou alguma coisa e voltou para o beco, vagarosamente. Os outros a seguiram, em silêncio.

E foi assim.

 
:: FORMIGAS CAÇADORAS DA ÁFRICA CONSOMEM BÚFALO DE 400 QUILOS EM 10 HORAS ::
por Jimmy Nutto, o anão maneta.
 
A Econatur, uma empresa hispano-andorrana, lançou o primeiro caixão biodegradável do mundo, que se dissolve na água em somente 24 horas ao ser enterrado.
 
 
 
:: CORRESPONDÊNCIA ::
e-mails reais, bisonhos e suspeitíssimos, interceptados por uma inocente libélula.
 

Penicos.

"Por mil penicos", diria Giordano, o inventor do assento sanitário, ao contrair a febre do Pikachu e engolir 432 chikenitos. Ao molho branco e tártaro. [nota de rodapé a ser inserida na ocasião da edição: tártaros são povos bárbaros que faziam panquecas no lombo de cavalos. Fim do aparte]

Ela vem em ondas. A morte rasteira. Eh cinza e faz gué-gum, como um oleoso sapinho. E paira sobre o computador número 8, embora o ocupante da máquina ainda não tenha percebido - tudo tem seu tempo.

Hj foi um dia mágico. Eu escutei: "Não corra. Essa tática pode levar a acidentes. Não corra. Essa tática pod". (Nesse momento alguem trombou com a cabine da SSO. E o turbilhão de mamutes passou correndo novamente.)

E nem te conto sobre ontem. Tá, eu conto. Ontem conheci o mundo maravilhoso das penas banhadas a ouro. E a coleção de canetas "True Princess", inspirada no conto de fadas "A Princesa e a Ervilha". Agora todos jah sabem oq me oferecer d aniversário. Pesquisando sobre a lenda da Princesa e a Ervilha, especialistas em folclore não quiseram comentar sobre o assunto - morreram de tifo alguns dias depois, perpassados por uma zarabatana feita com tampa de ervilhas Jurema. Sim, chefe, estamos investigando. Não, não filmamos nada. Sim, vamos destruir as pistas. Ok. Faça as vozes pararem antes q eu tenha q ser obrigada a morrer sufocada. De novo.

[Devido a uma onda de interferências solares, esta parte do email não pôde ser decifrada pelos criptógrafos maquiavélicos do FBB, digo, do FBI, digo... droga! Mas vamos continuar, Clotilde. No próximo parágrafo, a psicopata que estamos observando fala sobre uma ação iminente na sede da região, digo, na sede da Legião, digo, na sede. ]

Então é agora q devemos agir, senhor? Tenho a pasta de pepperoni em um tubo, na minha mão direita. Na esquerda, dedos. Na do meio, algo parecido com um pífano. Não, também não sei oq é.

Eu.

---> Go West, young man and grow up with the country. <--- Beep.

 
:: SOBRE PERTINÊNCIAS ABSURDAS ::
por Umberto Eco. ... "em geral"??!
 
Uma chave de fenda pode ser inserida numa cavidade e girada, e neste sentido poderia também ser usada para coçar o ouvido. Mas ela é também muito afiada e muito longa para ser manobrada com precisão milimétrica, e por isso em geral me abstenho de introduzi-la no ouvido. Um palitinho de dente com ponta de algodão funciona melhor. Isso significa que, assim como pertinências impossíveis, existem pertinências absurdas. Não posso usar uma chave de fenda como cinzeiro.
 
 
:: LINKS ::
Links dispensáveis para pessoas mesquinhas

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Participe de um jogo eletrizante e ainda ganhe uma "amazing toaster"!!!

Para saber mais sobre esta fantástica torradeira, clique em http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/stores/detail/-/kitchen/B00005V3W7/boxofficemojo-20/104-9394865-4121535. Nas cores preto ou branca! Sensacional! Sim, sou uma pessoa triste!


:: VOCÊ PERGUNTA, NÓS NÃO DAMOS A MÍNIMA ::
Questionamentos sadios de uma sociedade doente

??? Por que ninguém mais nos mandou perguntas? Por que ninguém nos manda textos? (Lanolina, Remédios-SP)

Aparentemente porque as pessoas andam deletando o Zine antes mesmo que ele entre em suas caixas postais, com um movimento absurdamente ligeiro, demonstrando que (viu só?!) nossos leitores são deveras habilidosos.

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Créditos Finais

:: EXPEDIENTE ::
 

Este Zine é impessoal. Computadores-robô meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".


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... Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.

## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@brfree.com.br, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. ##

!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.

Já rezava a lenda que: "Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".

Mande suas contribuições!! Envie seus textos!
vmbarbara@yahoo.com

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