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!! DAMN !! Zine !! DAMN !! Zine
P o r m i l d e m ô n i o s !
:: A MÁQUINA DO MUNDO ::
por Carlos Drummond de Andrade, drummond@damnzine.cjb.net
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
:: A NOVA SINTAXE ::
por Johannes Becher, 1918, jbecher@mordviertdel-zyklopenstädte.com.au
As bengálicas borboletas
adjetivas
Circundam em seu canto o
substantivo de sublimes e rígidas estruturas.
Um particípio-ponte vai vibrar,
vibrar!!
Enquanto o sagaz verbo,
sonante aeroplano, se enrosca nas alturas.
Dança de artigos mexe graciosa balançantes
perninhas.
Em ritmo de risadinhas
agita-se uma platéia.
Mas então
salta do trapézio, metálica,
Uma
estrofe pura. A cadeira
Das lamparinas de rua
despedaça-se.
Apesar daquela colorida
dama de sagrado vocativo.
Um jovem
poeta sujeitos cimenta.
Perfura o
túnel do objeto... O imperativo
Eleva-se rapidamente, varrendo fantásticas
paisagens de frases.
Sopra sete tubas
de Hidra. Caem as nuvens.
E escorre
o azul. Enérgicas montanhas avançam.
Assim desabrochamos no brilho de um sobremundo de luz de maio.
:: SILÊNCIO PASSIVO ::
por Gustavo Bühler, buhler@ieg.com.br
Noite fria, chuva fina. Lá ao longe, descendo o morro, um veículo. O som do motor e dos pneus na estrada de chão batido quebram um silêncio de horas. Do outro lado, uma poça d'água recebe despreocupadamente os pingos de chuva. Alguns pássaros noturnos pensam em ir até lá tomar um banho, mas se assustam com o ronco que rasga a estrada. É um carro que violentamente bate a roda no buraco e atira a água pra longe. O carro segue, espalhando o terror adiante, como se nada tivesse acontecido. Na poça, a água calmamente escorre de volta e se junta no buraco outra vez, onde aguardará silenciosamente pelo próximo carro.
:: READER´S DIGEST ::
a Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as
matérias.
:: QUE VENHAM AS VACAS ::
por Friedrich Nietzsche, o dos
bigodes
Mudei-me para a casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo, a minha alma assentou faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas e rachar fio de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É melhor dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.
"Existem bolachas feitas de água e
sal.
O mar é feito de água e
sal.
Logo, o mar é um grande
bolachão."
Escutei isso hoje na Sala de Redação. Pouco antes de um grande bólido em forma de Pêssego Em Calda entrar pela porta e destruir o monitor da Tarde. [aplausos]
Pausa pra cutucar o dedo do
pé.
[Mais aplausos. Euforia.
Empurra-empurra]
Hj acordei com a estranha sensação de estar
com hepatite. Alguém me aconselhou a dar uma espiada na sola do pé (a minha, não
a sua) e ver se ela está amarela. Mas não estava. Talvez porque eu estivesse de
meias.
Estou aconselhando a todos
que olhem suas respectivas solas do pé para ver se, bem, se elas ainda estão lá.
É um acontecimento terrível perder a planta do pé durante uma caminhada, ou
enquanto se está dormindo - mas acontece.
Fiquei sabendo q vc me ligou pra
combinar os planos de dominação do mundo e explosão da Disneilândia. Sim, temos
q incendiar logo o Gansolino. Ah, não, esse não era vc. Droga. Abortar operação,
rápido, rápido.
[pausa para tomar remédios]
Sei lá.
Não me olhe com essa cara.
E digo mais: os melhores e-mails são aqueles que vêm com espátulas. De madeira, pq não pega gosto de metal.
Lússia, a eslava.
:: DICAS
CULTURAIS ::
obras de
arte performáticas de Chris Burden, citadas por James Gaardner
Em Velvet Water, em 1974, "repetidamente, mergulhei a cabeça em um tanque numa tentativa de respirar água. Depois de 5 minutos comecei a tremer e desmaiei". A mais famosa das performances de Chris Burden foi SHOOT, apresentada em Santa Ana, em 1971. "Às 19:45 um amigo me deu um tiro no braço esquerdo. Era uma bala de cobre rifle longo, calibre 22. Ele estava a menos de 5 metros de distância". A bala existe até hoje como relíquia.
:: ESTAGNAÇÃO
::
por Georg Heym, poeta
expressionista alemão, gheym@zyklopenstädte.com.au
... Se pelo menos alguém iniciasse uma guerra, nem precisaria ser justa. Essa paz é tão estagnante.
O chapéu voa da cabeça do
cidadão,
Em todos os ares retumba-se
gritaria.
Caem os telhadores e se
despedaçam
E nas costas – lê-se –
sobe a maré.
A tempestade chegou, saltam à
terra
Mares selvagens que esmagam
largos diques.
A maioria das pessoas
tem coriza.
Os trens precipitam-se
das pontes.
??? Afinal, de uma vez por todas, o que é a "Corporação" de que vocês tanto falam? (Silas, Votuporanga-SP)
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Créditos Finais
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Este Zine é impessoal. Computadores-robô meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na
maldita hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que
nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@brfree.com.br, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
Mande suas contribuições!! Envie
seus textos!
vmbarbara@yahoo.com
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