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!! DAMN !! Zine !! DAMN !! Zine
[Nota: a autora (doente) refere-se ao episódio em que foi apanhar um copo para beber água, nas trevas da cozinha, quando percebeu que a caneca tinha formigas por todos os lados: estava agradavelmente fofa]
[Intervenção n.2: Granadas de fragmentação (vide ´Terra de Ninguém´) são aqueles artefatos simpáticos que os militares colocam embaixo de um cadáver inimigo, e que explodem apenas quando se retira o peso que se encontra em cima da granada - no caso, o corpo. Quando vão retirar o cadáver, aí já viu.]
:: RÁPIDA ::
por Paulo Bonfim
Ao longe, uma chuva fina
molha aquilo que não fomos.
:: POEMA QUE ACONTECEU ::
por Carlos Drummond
de Andrade, que já se mudou pra Praça Tito
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve
este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
:: O HOMEM QUE
CONFUNDIU SUA MULHER COM UM CHAPÉU ::
por Vanessa B, ou algo do gênero.
- I -
O distinto rapaz lia, bastante sério, um livro enorme em grego que nem estava ao contrário. Usava óculos, orelhas, mochila e de vez em quando olhava pra frente, pensando em Nicômano-Retórica-Eurípedes ou, vejamos, no filé de frango que esperava comer dali a pouco.
- II -
Um garoto loiro encarava gulosamente uma caixa preta no chão, próxima ao aviso "Proibido Colocar Os Pés Em Cima da Caixa". Assim mesmo, tudo em maiúsculo, pra dar ainda mais vontade. Pois o pobre menino estava quase babando.
- III -
Um senhor cabisbaixo sorria com discrição enquanto falava mansamente (tão sutil!), a mastigar uma mão na outra, tossindo entre as frases: tão precioso, igualzinho ao Woody Allen.
- IV -
A garota na bicicleta, com seu cabelo mafáldico e voz abafada, esperava os carros passarem e fazia caretas com o espirro iminente.
- V -
Bruno é um garoto que entra em qualquer fila porque não gosta de estar sozinho, e sabe que em ônibus, aglomerações, esperas, falta de luz e tragédias as pessoas costumam olhar umas pras outras esperando irem embora ou aguardando um motivo para se encontrarem.
:: TRAUMA COLORIDO ::
por Gustavo Bühler, buhler@ieg.com.br
Aquela era uma sala de aula comum,
não fosse pelos freqüentes desaparecimentos dos lápis cor verde. Alguém tinha
que fazer alguma coisa. Mas como, se todas as crianças juravam inocência?
Não restou outra alternativa à professora senão revistar todos os alunos ao
final de uma aula de desenho, onde sumiram mais três lápis cor verde. E qual
não foi a surpresa quando estes foram encontrados na mochila do mais exemplar
de todos os alunos? Logo aquele que só tirava nota boa? A diretoria da escola
se reuniu e formulou mil e uma teorias sobre o assunto. Trauma de infância
e predisposição ao crime foram mencionados. O garoto havia ficado tremendamente
envergonhado com suas atitudes. Vista por todos seu colegas de classe, a notícia
logo se espalhou pelo colégio e virou motivo de gozação. O pior ainda estava
por vir. A diretora lhe obrigou a sair pela cidade batendo de porta em porta
arrecadando fundos para indenizar os alunos roubados. A notícia já estava
por toda cidade e, nem mesmo nas casas escapava de brincadeiras sarcásticas.
Dali em diante a pobre criança nunca mais foi a mesma. Suas notas passaram
do céu ao inferno e o vermelho tomou conta de seu boletim. Sua casa, o único
lugar em toda cidade onde ele não era motivo de piada, era agora um local
de cobrança pelos maus resultados que vinha obtendo na escola. Não demorou
muito para que algo de estranho voltasse aconter naquela turma. Aos poucos,
começava-se a perceber a ausência de alguns lápis vermelhos.
:: EU SOU O FÊMUR DE JOÃO ::
a Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as
matérias. Por Stephanie Avari.
:: INTERVALO FILOSÓFICO ::
por Marcos, o Irmão
A filosofia é a ciência tal que, como tal, vê o mundo tal e qual.
:: TUTATIS ::
por Yuri Rogatschenko (yuri@budweiser.com), amigo do Alieksiei Karamazóv
Vou contar de novo: eu comprei uma estante cor-de-rosa ontem. Estava andando na rua, mastigando fiapos de lã, e aconteceu aquela velha história: garota chuta pedras para passar o tempo, acerta um velhinho que vende churros, velhinho persegue moça, ela joga calda de caramelo fervente nos olhos dele, e pimba: eles se mudam pra Wyoming e compram uma concessionária de bananas-boat. Já vi isso milhares de vezes. Não vai acontecer de novo. Está começando a se tornar enfadonho, então comprei uma estante cor-de-rosa.
Acontece que o vendedor tinha má-fé e me deu uma estante de pessoas normais, então eu ando me esforçando para torná-la colorida. Substâncias grudentes não-identificáveis são aceitas nos cantinhos, pra dar uma coloração esverdeado-fosca na fórmica da estante. Ando também colando toda espécie de fiapos que encontro por aí, já que a minha intenção é camuflar minha estante para que ninguém possa vê-la, só eu. Aí pimba: as pessoas pedem um livro e eu tiro do meio do meu arbusto natural, um animado e fofinho Germinal pronto pra ser servido com batatas. Ou, sim, é uma boa idéia, eu posso transformar a estante em um Monstro de Fiapos Transtornado Assassino-Babão, Guardião do meu quarto. Já que não tenho um pegador de sonhos da Vaca pra me proteger, já que os meus amigos não me dão o bule de duas alças que eu tanto pedi de presente. Não, não pare ainda, continue lendo.
Parei pra descascar mixiricas e pensei com os meus botões. Antigamente eu usava um abridor de latas em forma de atum para abrir as latas de molho de tomate. (Meu irmão gritou do quarto: "Extrato de Tomate!", e isso me assusta mto, mas vamos prosseguir como se nada tivesse acontecido e nenhum fruto tivesse sido evocado sem qualquer motivo, resultado da mente insana de um parente cosangüíneo bisonho). Enfim. Eu abria as latas com um abridor cheio de rococós. Hoje há uma argolinha pra puxar com o dedo e as crianças não são mais felizes. A ponta do abridor era afiada, pontiaguda e mortal, eu gostava de brincar de parar a bolinha do olho com ela. Doía bastante. Minha mãe diz que não se fazem mais abridores como antigamente - eu digo que precisamos é de uma adaga moderna, pra cutucar os olhos dos outros.
Ei. Vou te contar uma historia. Finja que não perdeu o interesse (até te faço uma pulseirinha colorida, com os fiapos da estante, se vc cruzar as pernas e escutar uma bonita historia de fadas). Sabe, eu vi um filme esses dias, na verdade não fui eu, mas preciso muito te contar isso, porque é uma história pra ser difundida, tipo aquela do garotinho que mentia que estava morrendo. Não olhe pra trás agora que há um hipopótamo cheirando a sua nuca. Sem pânico. Apenas continue ouvindo a história, e esqueça do hipopótamo. Então, era um filme comprido, e a mulher do filme falava que o namorado dela ria como um macaco, com a boca aberta ao máximo, sem fazer barulho. Aí um dia ele mergulhou, e quando subiu estava rindo desse jeito. Todo mundo riu. Ele afundou de novo, subiu, e riu. Todo mundo riu. Aí ele afundou e não voltou mais. Ele não estava rindo, ele estava engasgando. Moral: se você ri com a mesma cara que você engasga, mude seus hábitos.
Então. Estou escrevendo porque preciso de ajuda. Formalizei hj mesmo um pedido de almofadões aqui em casa, que constava de 1 (hum) carregamento de puffs bufantes e macios, de cor lilás, junto a almofadões com estampas variadas, e entreguei pras autoridades da casa. Junto a isso, tenho outro problema da plantação de mixiricas embaixo do meu colchão, que descobriram recentemente, mas não vou te dar mtos problemas pra resolver pq vc eh pekeno e atarefado. O seu problema é o do almofadão. Gostaria q vc dissesse qtos metros cúbicos de ar deve ter um puff por dentro, para ser um legítimo e bufante puff, e onde posso comprar um almofadão higienizado e comestível, já que é um hábito na minha terra mascar pedaços de almofadão enquanto se entoa modinhas alemãs nas confraternizações dominicais. Que nem o Nanook Esquimó. Visto isso, sua ajuda será de mta valia e até deixo vc preencher varios cupons de pasta de dente que eu peguei na rua pra distribuir entre os meus amigos e entes queridos, pra que todos fiquem felizes e não haja mais caras feias nem birras generalizadas.
Na verdade, já que sou uma garota que não faz rodeios desnecessários, gostaria de oficializar um pedido do meu já mencionado irmão demente, que tem um site de, sei lá, alguma coisa, que pediu pra eu pedir pra vc uma lista dos teus dez filmes preferidos. É isso. Ele quer q vc escreva num pedaço de papel e mande pro Papai Noel, q ele vai te dar um chaveirinho do Ruppert o Peixe Artista, de prêmio de consolação. Ou vc pode mandar pra mim, e eu mando pra ele (o meu irmão, não o Papai Noel), e ele coloca no site e todos ficam felizes, animados e sadios, pouco antes da Grande Explosão Glacial de agosto de 2001, q soterrará o mundo de Nhaca Fosca e Grudenta, e só os que tinham sujeira como proteção sobreviverão. Ou pessoas como eu, que adoram Nhaca e acabarão correndo pelos campos, felizes com a capa oleosa de Nojo que se instalou em torno delas. Imagine só a quantidade de bichos q ia grudar na sua Capa de Nhaca pessoal, e, ora vejam, não haveria mais frio com nossos Uniformes-Grude. Quero um da cor lilás, por favor, acompanha barbecue e pasta de amendoim.
Gostaria q vc soubesse que, caso eu não veja resquício da sua lista de filmes, não vai ficar barato e hei de mandar a minha Estante de Nhaca ir te pegar à noite. E nem adianta teus parentes virem reclamar: "mas ele era tao bonzinho, nao merecia ter sido engolido por um monstro de Lama e Pus", e eu serei má e direi: "Seja feita a profecia", e o sertão virará mar, o mar virará sertão e o Brasil será um grande Donut de framboesa.
Atenciosamente.
[Nota: o site
mencionado é www.corta.hpg.com.br, e ainda aceita colaborações - informou o Plantão da Conspiração]
:: O RAPAZ NO JARDIM ::
por René Schickele (em
1915), poeta expressionista alemão
Quero pousar
minhas mãos nuas uma sobre a outra
e deixá-las afundar pesadamente,
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Sinos de maio soam no crepúsculo
e brancos véus de odores baixam sobre nós,
que espreitamos juntos nossas flores.
Através do último brilho do dia reluzem
tulipas,
os lilases gritam dos arbustos,
uma rosa clara dilui-se no chão...
Somos bons um para o outro.
Lá fora através da noite azul
escutamos o soar abafado das horas.
??? Minha mulher costuma receber flores quase diariamente e sempre rasga o cartãozinho sem deixar eu ver de quem é e coloca as flores numa jarra com todo o carinho. O que faço? (Augusto - Magé).
Seja sensato: pior seria se ela rasgasse as flores e colocasse os cartõezinhos na jarra, com carinho.
??? Contratei um detetive pra seguir meu marido e comecei a seguir o detetive para ver se de fato ele seguia meu marido. Um dia encontrei o detetive batendo o maior papo com meu marido. Devo contratar outro detetive? (Mabel - Petrópolis)
0 mais prudente é contratar outro marido.
??? Peguei um trem e só quando cheguei em casa foi que reparei que dentro da minha capa havia um homem. (Arnalda - Engenho de Dentro)
E o que foi que você fez: botou a capa no armário, com homem e tudo, ou guardou só a capa? Esse detalhe, embora não pareça, é muito importante para ajudá-la.
??? Depois que meu marido comprou um automóvel nunca mais saiu de casa. (Raquel - Salvador)
Você devia ficar feliz com isso. Pior se ele comprasse uma casa e nunca mais saísse do automóvel.
??? Todas as manhãs, quando abro o armário, meu terno marrom sai andando e pega o elevador. (Alcinó - Espírito Santo)
Por enquanto, não há perigo. Chato vai ser quando seu terno marrom sair e voltar azul.
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal. Computadores-robô meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
Nesta edição:
Textos - Stephanie Avari, Gustavo Bühler, Bruno, Zózimo, Tito e Popular (ainda Anônimo).
Almoxarifado -- Vanessa Barbara
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
Mande suas contribuições!! Envie
seus textos!
vmbarbara@yahoo.com
::: www.damnzine.hpg.com.br :::