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!! DAMN !! Zine !! DAMN !! Zine
P o r m i l d e m ô n i o s !
#018 - São Paulo,
19 de maio de 2002.
Para os que moram dentro de poemas
Tiragem: 149 exemplares
Ao toque da campainha, não entre e nem saia do trem.
www.damnzine.hpg.com.br
O remédio é cantares cantigas loucas
e sem fim...
Há pouco leite no país,é preciso entregá-lo cedo.Há muita sede no país,é preciso entregá-lo cedo.Há no país uma legendaque ladrão se mata com tiro.Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que é impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda
e resmunga e torna a dormir.Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? Se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve para furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro,
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.Da garrafa estilhaçada
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
:: JAMAIS
::
por Mario
Quintana
Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não
olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem
fim.
Sem fim e sem sentido...
Dessas que a gente inventava para enganar a solidão dos caminhos sem lua.
:: GÊNESIS ::
por Antonio Prata
No início Deus criou a banca de jornal. E Deus viu que era bom. Então Deus reparou que ficava um povo ali em volta, jogando conversa fora, e pôs um isopor com côco gelado, e viu Deus que era bom. E disse Deus: do jornal lereis, do côco comereis e da água que dá no côco bebereis. E todos viram que era bom. Então Deus permutou com a Kaiser um pequeno freezer vertical e passou a vender as mais diversas bebidas: refrigerantes, cervejas, Gatorades. E vendo Deus que era bom também, arranjou umas mesas e cadeiras de plástico e fez da banca um pequeno bar. E viu Deus, pra variar, que era bom. Isso tudo em apenas seis dias. No sétimo, não sabe se descanse ou abre uma churrascaria rodízio.
:: QUEM
::
por Mario
Quintana
Quem entra num poema não morre nunca.
:: SOUND AND FURY ::
por e. e. Simpsons.
Abriu a janela (pois estava fechada) e encarou a atmosfera parda que rodeava seu mundo. As árvores, os cães, os quintais: o ar pesava como um livro de James Joyce - e tinha letras miúdas, páginas faltando e colônias de traças, já sindicalizadas. Alguma coisa imperceptível tocava no rádio, para a contemplação desinteressada de uma extensa fila de formigas apreciadoras de violino. Peças de roupas se espalhavam pelo quarto (trata-se de uma cena bastante clichê, para todos os efeitos), livros de capas esquisitas jaziam abertos em alguma página, na casa ao lado alguém não parava de digitar. Quando o tec tec tec tec pausava, entre uma cochilada e outra, não havia silêncio -- apenas um modorrento som ambiente, algo como um ventilador ligado, a circulação sangüínea saltinolando, um monge murmurando, um computador velho com seu interminável monocórdico ruído verde. Ouvia o sangue espirrando nas artérias, mais precisamente. Se tivesse um ventilador de teto (ah! se tivesse um ventilador de teto), ele ficaria girando impassível e circunspecto, como nos filmes de suspense em que se focaliza um nariz, uma pá, uma begônia, as mãos de uma estátua de cera vestida de turaniana egípcia no Museu Contemporâneo de Nova York. Mais precisamente, claro.
Ainda olhava pra fora da janela, e podia até enxergar aquele ar parado, apático, cheio de reclamações por causa do calor. Um bloco de oxigênio que já tinha almoçado demais, obrigado. Só faltava palitar os dentes, mas ela nem chegou a pensar nisso, porque subitamente encheu-se e tomou em suas mãos um enorme volume de Dostoeivski, capa-dura, autografado pelo próprio Karamazov. O míssel literário, numa trajetória retilínia uniforme, fez aqueles barulhos de pessoas ágeis jogando tênis (zzzzuuuuupt) e acertou a testa do satisfeitíssimo rádio. Estima-se que 53 peças fundamentais tenham partido em dois, na ocasião, isso sem contar os cadáveres inseticídeos que tombaram durante o covarde ataque. Mas o ar continuava ranzinza, a empurrar seus ombros pra baixo, então resolveu rasgar os lençóis, arrombar a janela, chutar violentamente os móveis, derrubar a estante, bater a cabeça na parede, gritar, queimar, desfiar, sangrar -- enfiar-se dentro do armário. Enfiar-se dentro do armário. A mesma modorrice, o mesmo ar, as mesmas traças dividindo serviço com os cupins (boa tarde, o que vai querer hoje senhora?). Saiu de lá e tudo estava tão metodicamente besta, com exceção do pequeno pandemônio espacial que acabara de criar, que um só suspiro não foi o bastante.
Estirou-se em algum lugar vago (entre uma sola de qualquer coisa e um transístor colorido) e odiou muita coisa. No dia seguinte voltava a escovar os dentes e escrever e-mails (pois é assim que as coisas sempre terminam).
:: ORION ::
por Drummond
A primeira namorada, tão
alta
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo
a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.
Luzia na janela do sobradão.
:: FRAGILE
::
por Antonio Prata, de
novo
Uns crêem em Deus, outros lêem Marx, e há até aqueles que vêem na tonificação dos músculos abdominais o sentido da vida.
:: PARA UMA MENINA COM UMA FLOR
::
por Vinicius de Moraes,
que trabalha no Zine só porque é da família.
Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque que você acorda tarde e gosta de brigadeiro: quero dizer o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque quando você sonha que eu estou passando você p/ trás, transfere a sua ddc para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo p/ cima, como uma santa moderna e anda lento e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pagem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz; e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim pra ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente sozinha e perdida no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seu lhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E pôr que você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que eu estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim pôr ela, a mão no queixo, a perna cruzada triste, e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita p/ você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, se por acaso você não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando aquele pedaço em que digo que você "tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois."
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonhas - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão presciente de Guinard; e o meu coração põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que já tive, e você é filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinalda; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
:: PRÓXIMAS MATÉRIAS NO DAMNZINE
::
a Reader´s
Digest dá o tom, nós completamos as matérias. Não
percam!
Eu sou a garganta de João
Rolf, o Cão Que Acha Coisas
Argúcia dos Animais
O que Nosso Fígado Faz Por Nós
Acordada Durante Uma Operação no Cérebro
Importa-se que Lhe Passe Um Câncer?
Mary, a rainha dos cartões
Tecnicamente Falando... Não Sei
Alguém Ronca Nesta Casa?
Da Primavera e do Ovo
Como Irritar um Mosquito
Dagmar, a mãe dos iguanas
Eu ataquei um gorila
O cavalo dos sonhos e a mesa de jantar
Consiga o que quer sem resmungar
A lua nos deixa loucos?
A Milagrosa Mesa em Forma de U
O Ano da Foca
Assim Aprendi a Não Me Preocupar e a Gostar do Cão
Sem pernas, mas com asas
Gebel-Willians, o Rei dos Elefantes
Quem me Dera Ser Homem!
"Sem pernas, sem Piadas, sem Chance"
O Extraordinário Ovelheiro Escocês
Oi Pancho
Como estah a criação de mariscos? As carpas passam bem ou já viraram ex-carpas? E os trocadilhos, como andam? Sempre firme no curso de aqüicultura?
A propósito, vc sabe alguma coisa sobre educação artística na Espanha? Se souber, ligue pra mim - mas não diga alô. Diga "Por tutatis! O que são akelas minhocas azuis descendo pelo encanamento?", e imite barulhos de estômago digerindo desinfetante (colorido) e nós atenderemos.
Ei, aí. Eh estranho. Não estou conseguindo concluir meus pensamentos. A vida parece um email dentro de um email dentro de um filme oriental. Mudo. Escuta, vc sabe fazer lasanha d queijo? Vc devia ser uma espécie de informações gerais. Tipo uma avó, ou um curandeiro. Eu mandava uma pergunta, e plim, vinham várias respostas. Esqueci o que eu ia dizer realmente, era algo com relação à destruição da China por uma grande massa de maionese, acho q tive uma idéia sobre o ataque mas ela me escapuliu.
Mas idéias virão, assim como a dor de barriga.
Eu.
ps: "Pare de fumar fumando". Método revolucionário. Dos mesmos criadores de "Emagreça comendo" e "Mamãe vamos varrer a sala antes que cheguem as visitas". Ao se inscrever no nosso Projeto Anti-Tabagismo, vc ainda ganha: 2 cachimbos, 1 flanela auto-limpante, 3 palmilhas de água, 1 pote de alcaparras ao molho madeira, 1 caspa e um exclusivo cinzeiro com a inscrição: "Papai não fume porque nós te amamos". Ligue já.
Questionamentos sadios de
uma sociedade doente.
??? Uma pessoa que sofre de vertigem não tem medo de cair, mas de pular. Por quê?
>>>>
Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!)
estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou
então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos
entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você
e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande
um e-mail para vmbarbara@yahoo.com
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!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
Mande suas contribuições!! Envie
seus textos!
vmbarbara@yahoo.com
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