DamnZine - #020
Home :: Arquivo :: Contato

!!DAMN!! Zine
==============================

P o r   m i l   d e m ô n i o s !
#020 - São Paulo, 1 de junho de 2002.
Para os que riscam fósforos repetidamente...
Tiragem: 204 exemplares
Não ultrapasse a faixa amarela.
www.damnzine.hpg.com.br
Edição especial confeccionada por avestruzes.
 
 
 
"Se teu olho te irrita, arranca-o!"
(Lutero)
 
 
 
 
:: EDITORIAL ::
Vanessa Barbara, vmbarbara@yahoo.com
 

- Bebe.
- Não bebo.
- Engole.
- Não engulo!
- Vai, se você me ama!

Isso se repetia todos os sábados. Na mesa 7, uma moça lindíssima trazia o namorado da semana e o colocava à prova, sob olhares assustados dos garçons do bar.

- Se você beber meu olho de vidro, caso com você - dizia.

O moço em questão - Conrado, Cassiano ou Ademílson - mirava o copo de suco de laranja, com aquele olho azul boiando no líquido turvo. Levantava os olhos (dele, não os do suco) e vislumbrava a donzela, loiríssima e provocante, mas depois encarava o recipiente com uma expressão de nojo.

- Eles sempre desistem – suspirava a dama, após mais uma decepção.
- Ora, apenas não são homens o bastante. Não pra você.
- Ah é?? E você beberia um olho de vidro?
Silêncio.

--------------

A família Diniz Pereira mastigava um beirute de frango no boteco, depois de um alegre passeio ao zoológico, quando a filha mais nova viu. Todos se voltaram à mesa 7, e também viram. O garçom bebia um olho de vidro.

Desmaios, gritos e histeria explícita. O bar é fechado pela polícia.

Dois anos depois, os Diniz Pereira ainda fazem terapia de grupo. A filha mais nova não sai do armário da cozinha desde o dia em que viu a cena, e o primo Thomas nunca mais abriu os olhos na frente do espelho. O bebê Manuel desenha crianças sem olho. O avô entrou para um consórcio de Fuscas usados - embora isso não tenha a ver com o episódio - e Matilde Diniz Pereira, a matriarca, fugiu com o terapeuta para algum bairro humilde em Pirapora do Bom Jesus. O garçom e a caolha Hilde se casaram e vivem felizes em um casebre amarelo na Vila das Mercês.

 

 
:: CARVÃO PARA MIKE ::
 por Bertolt Brecht
 
 >>> Leia aqui as 369 páginas que o FBI escreveu sobre o rústico e mal-intencionado Brecht
 >>> Assista "Mãe Coragem E Seus Filhos", no Teatro do Sesc
 >>> Na compra de 3 charutos você ainda ganha uma flanela de pelúcia com alguns poemas

 
1
Soube que em Ohio
No início deste século
Uma mulher vivia em Bidwell
Mary McCoy, viúva de um ferroviário
De nome Mike McCoy, na pobreza.

2

Toda noite, porém, os guarda-freios lançavam
Dos trovejantes vagões da Wheeling Railroad
Por sobre a cerca, um saco de carvão no canteiro de batatas
Gritando apressados, com voz royca:
Para Mike!

3

E toda noite, quando o saco de carvão para Mike
Batia na parede traseira do casebre
A velha levantava-se, cobria-se
Bêbada de sono, com o vestido, e escondia o saco de carvão
Presente dos guarda-freios a Mike, que estava morto
Mas não esquecido.

4

E ela levantava-se tão antes da aurora e escondia
O presente da vista do mundo, para que
Os guarda-freios não tivessem problemas
Com a Wheeling Railroad.

5

Este poema é dedicado aos camaradas
Do guarda-freios Mike McCoy
(Que morreu de fraqueza dos pulmões
Nos trens de carvão de Ohio)
Pela camaradagem.

 

:: NÃO DESERDAMOS NOSSO POSTO. VIU?! ::
por Érico Veríssimo.

 

Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não deserdamos nosso posto.
 
 

:: HORRÍVEL ::
do Laerte, sugerido pelo sr. Eak. Ele duvidou, nós publicamos.

... O cara chega e diz:
- O Ringo Star?
- Não.
- Você pede pra ele Paul Mcartney no correio pra mim?
- Claro.
- Mas não deixa o John Lennon.
 
:: HUM? ::
por Kurt Tucholsky. (porque acusavam o Brecht de plágio)
 

Quem escreveu essa peça?
Foi Bertolt Brecht.
Sim, mas quem escreveu essa peça?

 

:: NOTAS E ESBOÇOS PARA UM CONTO QUE...  ::
por "Hugo" (hugolt@hotmail.com), que não ganhou o nobel mas foi publicado.
 

Rapaz ambicioso que almeja a glória, pretende escrever um conto que possa consagrá-lo, dar-lhe o Nobel de literatura e, quem sabe, ser publicado pelo !! Damn !! Zine.

Desesperado pela falta de idéias e pela pressão para terminar o texto, ele decide criar um conto que mostre a história de um rapaz ambicioso que almeja a glória, pretende escrever um conto que possa consagrá-lo, dar-lhe o Nobel de literatura e, quem sabe, ser publicado pelo !! Damn !! Zine.

Esse conto mostrará todo o drama por ele enfrentado, bem como as idéias descartadas e o desespero crescente com o prazo auto-imposto que se esvai, até que, na última hora, já consumido pela ambição que cobra-lhe produtos manufaturados para satisfazer o seu desejo de consumo e clama pelo texto (que, por sinal, ainda não existe) que proporcionará tudo isso; o personagem, em um lance suicida, impensado, baixo, desprovido de qualquer pudor ou auto-crítica e totalmente inconseqüente, decide criar um conto que mostre a história de um rapaz ambicioso que almeja a glória, pretende escrever um conto que possa consagrá-lo, dar-lhe o Nobel de literatura e, quem sabe, ser publicado pelo !! Damn !! Zine.

Com isso, inocentemente ele pretende conquistar a simpatia e compreensão dos bons velhinhos que se reúnem em Estocolmo, de todos os leitores que ainda acreditam em duendes, em Papai Noel e na honestidade do Maluf e, quem sabe, da própria Vanessa Barbara, intrépida, inteligente, gostosa, sexy e audaz editora do prestigioso, polêmico, inovador, supimpa e fofo !! Damn !! Zine.

Conseguirá ele concluir a contento está tarefa impossível?

 ------------------------------------------------

Observação para posterior avaliação: Pode ser usado nesse conto o recurso da metalinguagem, fazendo com que cada personagem criador de um personagem criador saiba que nada mais é, do que um personagem criado por um criador que só quer se livrar de uma tarefa que não consegue cumprir.

Desse modo, podem ser criadas situações em que criador e criatura dialogam, um jogando a responsabilidade para o outro, ad infinnitum. Ou até a criatura ter a idéia de se tornar um criador, criando um personagem que o livre da tarefa.
 
 

 :: IT´S ENDING ONE MINUTE... ::
 por Luis Fernando Verissimo. *suspiros*

 Você sabe que cada soco que um homem não dá encurta sua vida em 17 dias? E cada vez que um homem pensa em sair dançando um bolero e se controla, seu fígado aumenta? E cada...

 

:: SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS ::
por Bertolt Brecht

O senhor Keuner explica à filha de sua hospedeira o que aconteceria - nos mares construiriam caixas enormes para os pequenos peixes, cuidariam para que as caixas tivessem sempre água fresca e todas as medidas sanitárias, não permitiriam que os peixinhos morressem antes da hora, qualquer ferimento seria imediatamente curado; organizariam festas para que os peixinhos não se sentissem melancólicos e tb escola para que aprendessem como se entra na goela dos tubarões; receberiam tb sólida formação moral, sobretudo alegremente ter fé e confiança cega nos tubarões; aprenderiam a obediência, precavendo-os contra os materialistas e os marxistas; os peixinhos aprenderiam a denunciar os que tivessem más tendências; os tubarões fariam tb guerra para conquistar os peixinhos estrangeiros; os peixinhos teriam tb uma cultura e uma arte – belos quadros onde os dentes dos tubarões seriam representados em cores deliciosas, e teatros, onde se mostraria como os heróicos peixinhos entrariam com entusiasmo na boca dos tubarões; teriam tb uma religião que ensinaria que os peixinhos começam realmente a viver no ventre dos tubarões; e haveria tb uma hierarquia entre os peixinhos, os maiores entre eles ocupariam postos importantes, vigiariam para que reinasse a ordem entre os peixinhos menores, se tornariam professores, oficiais, engenheiros em construção de caixas etc - em resumo haveria enfim uma cultura no mar, se os tubarões fossem homens.

 

:: METADE ::
por Alisson Villa, www.narizonline.hpg.com.br

Tenho meia alma, meio sonho, meio chão;
tenho quase tudo, tenho um pouco de esbarrão;
tenho meia reza libertando meio inferno;
tenho meio amor que me deixa quase terno;
tenho carta maldizendo meia história;
tenho meia luta de uma guerra irrisória;
tenho meio gozo de uma transa ideal;
tenho o preto e branco de um
quadro surreal
tenho meio riso que é um pouco de verdade;
tenho amor inteiro que me deixou pela metade;
sou meio concreto, meia pedra e fachada;
sou um quase tudo que juntando é todo o nada.

 

:: SERMÃO DA MODERNIDADE ::
por Vanessa B. (com o apoio do padre Vieira)

Vós, diria o Padre Vieira, tendo em mãos o evangelho, sois a luz do mundo. Brilhe vossa luz diante dos homens, para que sejam iluminados pela bondade e possam ver as vossas boas obras. Sabeis disso e acendeis vossas velas para irradiar o brilho do Ano do Voluntariado, mas o mundo continua envolto em uma enorme escuridão – qual será a causa que mantém esses caminhos imersos nas trevas?

Ou é porque a luz é coberta por um vaso ou colocada debaixo da cama, e não sobre o candeeiro, ou porque os oprimidos cerram os olhos para o brilho que lhes é dado. Ou é porque os homens usam a bondade em proveito próprio, para aliviar as consciências atormentadas pela injustiça (não para libertar as vítimas); ou porque os necessitados não aceitam esmolas e preferem viver independentes, mesmo à margem da sociedade. Ou é porque a luz não clareia e somente aquece – silenciando os miseráveis com migalhas de dádiva; ou porque basta à população ter apenas um fogo reconfortante, um aquecedor razoável e luz elétrica para assistir as novelas. Ou é porque a claridade convém aos comerciantes, que usam suas lâmpadas para indicar melhor o caminho às lojas (ver a parábola dos fabricantes de computador, em que estes, bondosamente, oferecem cursos de inclusão digital na oprimida periferia); ou porque é mais cômodo usar as tochas para cozinhar seu próprio frango que para iluminar uma trilha coletiva.

Ou é porque os homens preferem doar um fósforo a correr o risco de terem que compartilhar as Luas individuais (embora elas pertençam originalmente a todos), talvez porque prefiram "doar a melhor parte" de si mesmos a apoiar levantes libertários que realmente partilhariam boa porção do que possuem. Ou é porque os agraciados com o feixe de luz das elites aspirem à dominação, e assim acabem guardando a chama dentro do armário ou costurem a benevolência dentro de meias e de colchões.

Há luzes, lembra o estudioso Emilio Gennari, que servem para criar sombras capazes de ocultar o verdadeiro sentido dos objetos, forjadas justamente para esconder realidades incômodas; e há sombras que, ao protegerem os olhos da luz, nos permitem criar condições de enxergar melhor. Se é tudo isto verdade, talvez seja melhor seguir os ensinamentos de Bertolt Brecht (sempre ele) e lutar para que seja criado um estado de coisas que torne a bondade supérflua – em que o Sol possa aquecer a todos de maneira igual e em que a Lua brilhe incessantemente por toda a parte, libertando o homem da silenciosa e opressora escuridão.

 

:: POESIA ::
por Walt Whitman.

Sermões e lógicas jamais convencem, o peso da noite cala bem mais fundo em minha alma.

:: ROLF, O CÃO QUE ACHA COISAS ::
a Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as matérias. 

Em homenagem à pobre alminha de Rolf, o Cão Que Acha Coisas e sua eterna amiga Luft, a Minhoca Que Faz Contas, vamos suspender essa coluna só por esta edição, para que ele possa ter uma maior liberdade de achar as coisas que quiser. "Não gostaria que as coisas que escrevo poupassem as outras pessoas de pensar", diria Wittgenstein a Rolf, "ao contrário, se possível, gostaria de estimulá-las a pensar pensamentos que fossem delas mesmas". Arf.

 
:: CORRESPONDÊNCIA ::
e-mails reais, bisonhos e suspeitíssimos, interceptados por uma inocente persiana.
 

"Pombas!", exclamou o ornitólogo, ao diagnosticar um tipo raro de febre hispânica em um de seus animaizinhos. E era mesmo o Tifo, aquele das brotoejas azuis.

E desde aquele dia - maldito clima tropical, morram muriçocas do inferno - o renomado Cientista nunca mais saiu de sua pseudo-estufa de chuchus. Nem pra ver o eclipse, diriam as beatas da região.

E a Pomba, no último dia, deu um sorriso gengival e viu que era bom.

Mas ora-ora (inclua na sua lista o tal do ora-ora e a viscosa expressão "em se tratando..."), vejo q me desviei do assunto de novo. Ah, sim, meu nome é Símbolo, mas pode me chamar de Prince ou de Olegário de Matos, não importa. Só lembre que tenho seu endereço, não pense agora que pode circular de cuecas em paz. Mesmo porque não fica bem, não em frente à padaria, onde as bisnagas de creme assam em sincronia, tão rechonchudas e inocentes. Pois bem, estaremos mandando as tropas tão-logo o sol se ponha pela 19a vez, após o signo de Libra ter passado de bermudas e alpargatas, sorrindo para os fotógrafos com aquele brilho nos molares que vc conhece tão bem. Deixaremos uma mensagem cifrada às 12:12, em frente à banca do Romero Augusto, dentro de um matéria entitulada "Corvos – Quase Gente!", assim mesmo, com exclamação e tudo, e a tal da ilustração do urubu escovando os dentes. Não se esqueça. Conte ateh 3.918, multiplique por 15 que nós chegaremos.Espere sentado, com ambas as pernas cruzadas. E leve suas galochas.

Animosamente,
Bah.

ps: não entendi. Quem é vc, mesmo? E o que faz na minha Caixa de Entrada?

 


:: VOCÊ PERGUNTA, NÓS NÃO DAMOS A MÍNIMA ::
Questionamentos sadios de uma sociedade doente.

??? Deus pode fazer tudo, certo? (Marcos, SP)
É.
??? Ele pode criar uma pedra tão grande que ele não possa carregar?
...
 

>>>>
Créditos Finais

:: EXPEDIENTE ::
 

Este Zine é impessoal. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".


======================================================================

... Para ser lido na maldita hora da noite em que tu

do é engraçado (que vem logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.

## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##

!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.

"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".

atenção: as figuras desta edição fartamente ilustrada são vistas apenas se seu email estiver configurado para receber em html. Tome vergonha!

Mande suas contribuições!! Envie seus textos!
vmbarbara@yahoo.com

::: www.damnzine.hpg.com.br :::