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!!DAMN!! Zine
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:: EDITORIAL ou LENTES DE CONTATO ::
Vanessa Barbara, vmbarbara@brfree.com.br
Gostava de usar óculos: contemplava o mundo amorfo dentro de uma apática e geométrica moldura. Tinha o que os jornalistas chamam de distanciamento crítico, obtido através de 4 anos de terapia universitária, um aro escuro quadrado, lentes grossas e certa dose de muxoxo. Quando acontecia algo nas redondezas, digamos, um senhor grisalho punha-se a disputar a posse do último pacote de goiabinhas com uma criança ruiva, e entupia-lhe as vias respiratórias com sua indiscutível boina - bom, o Orestes ia lá espiar. Sentava-se no meio fio, com as calças curtas deixando entrever as meias sociais, e ficava piscando euforicamente ambos os olhos (ao mesmo tempo, observe), entretido com a cena vista pelos aros pretos. Alguns populares sempre tentavam intervir na cena, doentiamente dando cabeçadas na testa do senhor grisalho ou entupindo seu nariz de estopa, mas as coisas nunca davam lá muito certo e geralmente a garota acabaria por gastar uma fortuna com conjuntinhos pretos de veludo, sete anos depois. Ou viraria psicóloga, ou faria abdominais, ou moraria com um publicitário - ainda poderia tentar a política, a meditação ou os sapatos de salto agulha e sola de plástico.
Orestes, no entanto, era a personificação meg-ryaniana do contentamento. Pacato, mastigava suas goiabinhas e piscava lentamente de quando em quando, para lubrificar o mundo de sal e água. Dentro de pouco tempo a balbúrdia acabaria, com a chegada da ambulância ou do xerife, quando uma trilha sonora tomaria a cena e finalmente Orestes compraria seu costumeiro pão de batata e iria embora. Na esquina da Eulália com a Bonifácio ele tiraria delicadamente os óculos para poli-los em seu pulôver e depois recolocá-los com empáfia e disposição. Orestes gostaria que os créditos e o The End subissem naquele momento, concluindo o delirante filme de sua rotina, mas o diretor daquela produção pestífera também usava óculos de aros escuros e não concordava com isso, não senhor.
Limpava as lentes na gola rolê de sua malha felpuda, Orestes, mas não chegou a recolocá-las. (o garoto sonolento se apruma na poltrona - êpa!) ...Uma descomunal e enferrujada placa de cobre despenca, esbugalhadamente, em cima do tornozelo de Orestes, fazendo voar seus óculos e pares de batatas. Desesperado, não consegue olhar para cima sem a ajuda limitante da moldura ocular da Ray Ban Executive, e tenta pedir socorro com os olhos fechados. Mas odiava aquela escuridão infinita, as partículas de sujeira boiando dentro da pupila, as bolhas prateadas dançando - diabos, ali dentro era muito imenso. Abriu os olhos, e agradeceu aos céus por não ter uma visão panorâmica de pássaro.
Mesmo assim enxergava, e o que via era dezenas de executivos do Stand Center em hora de almoço, mascando pedaços de carne mal passada, e mais acima de sua visão enorme estava a garotinha ruiva no alto de um muro, contente por ter empurrado um andaime de cobre ladeira abaixo e tornozelo acima de Orestes. Que soterrava-se cada vez mais embaixo da maldita placa, engolidora de calcanhares, canelas, joelhos, cartões de visita, conjuntinhos pretos e passados longínquos. Os garotos do Stand Center mastigavam, e um deles (o diretor adora aparecer) usava óculos de aros pretos. Estavam satisfeitos.
A placa de cobre foi removida apenas dezesseis minutos e treze segundos depois, por um cão salsichinha que adorava pães de batata. Negociaram, e Orestes pôde apalpar os pés à procura de fraturas insuportáveis, mas no lugar de seus dedos havia apenas uma pata de bode. Bem. O diretor arranjou outro emprego no Stand Center para o interessante roteirista, e Orestes recuperou seu par de pés para não ter problemas com a censura. Voltou para casa sem os óculos, sem o pão de batatas mas com um cachorro apressadinho, com quem tocou a passear todos os dias pela alameda Bonifácio, de moletom e tênis. O compridinho amigo libertou Orestes de seus óculos, honrando assim suas aptidões invejáveis de cão-guia - fora cicerone em uma empresa de turismo, e mostrava aos míopes as coisas interessantes ao redor das janelas do mundo. Ensinava os cegos a olharem para os lados, diria seu assessor de imprensa. Orestes tingiu o cabelo de ruivo e distribuiu goiabinhas Piraquê para associações não-governamentais; ria como uma Meg Ryan e sapateava - ah, como sapateava. Nos fins de semana, adentrava o edificante mundo das baladas, onde revirava os olhos e pulava como um sapinho bobo.
O cão salsicha achou tudo aquilo terrível e arranjou uma infecção na nuca para não sair mais com o Orestes. Alojou-se, enfermo, em sua casinha de lajotas azuis, e olhava os bueiros da rua pela moldura estática da maldita janela. Tão jornalístico. Optou pelo suicídio, lento e demorado: quando Orestes saiu para dançar, num ensolarado domingo, o Compridinho cãozinho olhou pela janela tragicamente, piscou algumas vezes e, desconsolado, colocou no rosto os malditos óculos.
:: VERSINHOS::
por Antonio Maria, antonio@catalupos.cjb.net
Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De Baudelaire.
:: AGONIA ::
por Vinícius de Moraes (é da família!
é parente!)
No teu grande corpo branco depois
eu fiquei.
Tinhas os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti - eras como
um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem
noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem
calma
Que me havias dado tanto tempo
Mas tudo era estéril e monstruoso e
sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo
vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça
para os meus dedos
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía
como a voragem.
Depois foi o sono, o escuro, a morte.
Quando despertei era claro e eu
tinha brotado novamente
Vinha cheio de pavor de tuas entranhas.
:: ITÁLICO ::
por Alisson Villa, bucolico@hotmail.com
As palavras em itálico são inclinadas por reverência, tristeza ou desvio na coluna?
:: JANELAS ::
por João Cabral de Melo Neto, neto@emcrise.com.br
Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.
:: CTRL C + CTRL V ::
por Sérgio Augusto, na revista
Bravo, citado por Alexandre Inagaki, no SpamZine. Uff!
Mamihlapinatapei = vocábulo genial que pertence a um idioma indígena da Terra do Fogo. E que quer dizer, simplesmente, o "ato de olhar nos olhos do outro, na esperança de que o outro inicie o que ambos desejam mas nenhum tem coragem de começar".
:: O DIA DO ERRO ::
por Gustavo Bühler (buhler@ieg.com.br)
Num telefonema misterioso uma voz rouca e irreconhecível denuncia o ataque de um psicopata contra inocentes num shopping center da cidade. A telefonista passa o recado imediatamente para uma autoridade competente que designa um certo agente especialista em encotrar maníacos em multidões para a missão. Com uma arma e um licença para matar, tal profissional chega ao shopping pouco antes do horário determinado para o ataque e começa a examinar os rostos das pessoas.
Todas as fisionomias parecem normais. Aquele não se apresentava ser um dia fácil para o agente discretamente vestido e infiltrado numa fila de escada rolante. O pipoqueiro, a vendedora, o executivo. Talvez aquele gordo comendo sanduíche... não. Seu tempo começava a esgotar, a hora do ataque se aproximava e ninguém lhe chamava a atenção. Sempre foi difícil de encontrar um psicopata, porém hoje estava ainda pior. Ele já deveria estar por alí, observando suas possíveis vítimas, armando seu terrível plano. Talvez fosse aquele de camisa verde... a madame com sacolas de compras... não. Não são eles.
Parece que desta vez o experiente profissional falhará. O tempo começava a se esgotar e ele ainda não tinha nem suspeitos. Uma gota de suor atravessa seu rosto, que antes nunca tinha representado uma só expressão. Seu coração que ha séculos batia no mesmo ritmo, agora bate mais rápido. Uma possível falha sua nunca havia sido cogitada nas reuniões da agência. Ele nunca errou. Começa a sentir medo do gosto da derrota. Quanto mais imagina a possibilidade de estar errando, menos consegue procurar pelo psicopata.
Tempo esgotado. Alguém irá atacar. Com o canto do olho, o agente vê o pipoqueiro apontar alguma coisa para uma criança e sem pensar ele atira. Acerta a criança. Então ele atira novamente e acerta o pipoqueiro. Um homem pula encima do agente, tentando detê-lo. O agente atira novamente e acerta uma mulher, que tentava fugir da confusão. Agarrado pelo homem, ele atira novamente acertando pessoas, vitrines, paredes e até o extintor de incêndio. Só pára quando o homem exclama de dor. Havia levado um tiro também.
Gritos
e correria. O agente se levanta e olha ao seu redor. Destruição e mortes. Não
pode entender o que havia feito. Ele era o psicopata. Todo esse tempo estava
procurando por ele próprio. Nunca nestes anos todos havia falhado uma só vez.
Sempre conseguiu salvar as vidas que corriam perigo, e hoje matou vários inocentes.
De pé, olhando para uma senhora morta agarrada com seu cachorrinho, ele chora.
Levanta a arma e dispara contra sua própria cabeça.
:: A FORMIGA DESPENCOU ::
por Alisson Villa, bucolico@hotmail.com
A formiga despencou
Não foi um furacão
Não foi uma enchente
nem mesmo um raio
Não tinha fome
Não tinha sono
Não tinha cansaço
Não tinha sede
Na verdade, o que entristece fininho
é saber que a queda foi devido à ausência da parede...
:: DOIS ESTUDOS ::
por João Cabral de Melo Neto
I
Tu és a antecipação
do último filme que assistirei.
Fazes calar os astros,
os rádios e as multidões na praça pública.
Eu te assisto imóvel e indiferente.
A cada momento tu te voltas
e lanças no meu encalço
máquinas monstruosas que envenenam
reservatórios
sobre os quais ganhaste um domínio
de morte.
Trazes encerradas entre os dedos
reservas formidáveis de dinamite
e de fatos diversos.
2
Tu não representas as 24 horas de um dia,
os fatos diversos,
o livro e o jornal
que leio neste momento.
Tu os completas e os transcendes.
Tu és absolutamente revolucionária
e criminosa,
porque sob teu manto
e sob os pássaros de teu chapéu
desconheço a minha rua,
o meu amigo e o meu cavalo de sela.
:: SE MEU GUARDA-CHUVA FALASSE ::
Da Redação (que gostaria de ser banhada a ouro, por
este feito).
Eu estava quieta, absolutamente imóvel, sem mesmo respirar - me punha a cronometrar quanto tempo conseguia ficar estaticamente arregalada. Os meus pés estavam presos em alguma estrutura de ferro convenientemente disposta abaixo do banquinho do cobrador do ônibus, que me olhava com o canto dos olhos e lia Vencer É Possível ou Segredos das Famílias Felizes Americanas. Segundos depois, ainda imersa em minha modorrice voluntária, eu dava um grande susto em mim mesma (já tentou?) e zerava o contador do relógio. Dois minutos e trinta segundos. O ônibus praticamente não tinha saído do lugar, e nem o livro que estava no meu colo. Fui encostar a cabeça no vidro e passou uma lombada (teoria 1: dormir no ônibus causa lesões irreversíveis em partes fundamentais do cérebro). Coloco a cabeça pra trás, pra frente, pros lados, afofo a área com uma blusa de moletom, deito em cima da mochila, do joelho, do tédio. Largo as coisas no canto e esboço uma reação de revolta, quando ouço algo:
:: LINKS DISPENSÁVEIS ::
para pessoas perturbadas
>>> www.livrosdomal.org >>> "A literatura não é inocente, e, culpada, ela enfim deveria se confessar como tal". Editora simpática com um nome fantástico, que preza aqueles atendentes de sebo de nome Eustáquio que sempre dizem: "Cortázar? Fraco. Você tem que ler a nova obra do Jabberwocky Thompson, aquele belga albino radicado em Paris, que...". Enfim, visitem os garotos, eles são esquisitos mas são limpinhos. (Gostaria de um desconto nos livros, pelo elogio lírico e arrebatador)
:: QUE ESTÁ ACONTECENDO NA TURQUIA? ::
a Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as matérias.
Deve ser do caramba o carnaval na Turquia. Duas grandes caixas acústicas gritam marchinhas horríveis, do topo dos Enclaves Rupestres da Capadócia, para desespero dos coitados do lado esquerdo (Tuvalu) ou do lado direito (Turcomênia). Aposto que eles têm cornetas, os turcos. Aposto que lá é carnaval o ano todo.
- E os gritos, moço? Que são esses berros de dor? - São
escandalosos, esses muçulmanos: não sabem dançar discretos.
:: CORRESPONDÊNCIA ::
e-mails reais, bisonhos
e suspeitíssimos, interceptados por uma inocente lupa.
Olifante,
Josias,
egrégia banca,
garotas do cha-cha-cha.
O caso é o seguinte. O Conde esteve sexta feira na estrebaria e constatou que o fogo havia cessado. Tive que vestir meu melhor suéter e ir até Townsville socorrer o Popão, vc sabe, ele é muito sensível e tem uma marca de nascença na nuca. Mas o capim não estava mais lá, e as correias dos eqüinos tinham ido parar no Mirante, de modo que acabei entrando em depressão e fui polir meus sapatos de verniz italiano. F. De alguma maneira essa história toda faz sentido, e pretende justificar a minha ausência na reunião de cúpula do jornal. Me diga, esse trecho que vc encomendou (sim! eu sei que não é seu! e percebi tb as manchas de sangue no seu colarinho, Dimas!), é pro Jornal Guardanapo? (Imagine só. A gente podia diminuir tanto o jornal toalha que ele poderia caber no guardanapo, e as pessoas ficariam tentando ler durante horas, e enquanto isso a gente podia fugir com todo o dinheiro e abrir uma marcenaria em Long Island!!!! N
Não é sensacional??? O
R Hm...
Não tenho idéias. Minha vida é uma caixinha de pastéis sem recheio. D. Fiquei pensando mas a única coisa q consegui foi uma solução para o problema dos espelhos, e devo ganhar uma camiseta da revista semana que vem. Vc precisa dizer algo. Tipo, "escreva um obituário". Ou "desenhe a condição psíquica dos cisnes depois da desova". Só precisa de, sei lá. Uma ordem, talvez. Ou um par de meias novas, que não sejam aquelas de renda.
Condolências,
Eu.
ps: Há uma mensagem espalhada pelo
email. Na verdade sempre houve, vc q nunca percebeu. Pq vc acha que costuma
reverenciar o Grande Sapo compulsivamente, toda vez que passa pelo portão?
ps2: Congestionamento nas principais avenidas. Coca-cola 2
litros a 90 centavos no Barateiro. Sim, eu sei.
??? Como posso entrar em contato com a Corporação? (Paul Mito, SP)
>>>>
Créditos Finais
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Este Zine é impessoal. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
atenção: as figuras desta edição fartamente ilustrada são vistas apenas se seu email estiver configurado para receber em html. Tome vergonha!
Mande suas contribuições!! Envie
seus textos!
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