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!!DAMN!! Zine
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P
o r m i l d e m ô n i o s !
#025
- São Paulo, 9 de julho de 2002.
Para todos os mundos do sonho
Tiragem: 1 exemplar
Melhor visualizado com os olhos fechados
www.damnzine.hpg.com.br
Nesta edição: +citações
interessantes, tiradas totalmente do contexto.
Tem a história de um cara que foi condenado a setecentos anos (por aí) de prisão por ter roubado três ou quatro minhocas. Na verdade, acho que foram três caras que roubaram três minhocas, o que nem muda tanto a história. Imagino de quem seriam as bichinhas, talvez fossem de um escultor que as fez de argila e deviam valer fortunas no mercado negro de iscas gosmentas. É provável que o artista nem tenha tido tanto trabalho assim: só pegou um bolo de massinha, esfregou no meio das mãos, fez dois furinhos com um graveto para simbolizar os olhos (talvez tenha até criado listrinhas), e pronto. Três milhões de dracmas, no leilão de arte helenística. Os larápios não sabiam, acharam bonito ou estavam com muita fome.
Ou então era mesmo um criador de minhocas (ou um detetive delas, que cava buracos e tenta sugar a terra com um canudinho para tirá-las de lá) - nesse caso, o ladrão não teve trabalho nenhum de chocar um ovo, fazer a divisão da mórula em blástula em nêurula, inventar um canal estomacal e criar o vermezinho com um sopro divino, como o dono deve ter feito. Acho até que o proprietário deve gastar dinheiro com ração de terra podre, adubando as minhocas (?) para que botem logo seus ovos, se reproduzam por brotamento, sabe-se lá como nascem aquelas condenadas, de qualquer maneira ele deve cuidar das adultas com muito carinho. Malditos bandidos insensíveis.
Ou elas estavam em um pote de tempero, não para serem usadas na sopa, mas para servirem de isca pra peixe, e talvez fossem "as minhocas mais gordinhas do sul de Connecticut", quem sabe até fossem miss minhocas!, e os ladrões bandidos pegaram uma (cada um), colocaram no bolso e esperaram fazer cosquinha. Os jornais devem ter dito que os malfeitores as pegaram nas mãos e espremeram impiedosamente, só para poderem ouvir o sonhado *bloshpt* daquela massa oleosa se espatifando no contato com a pele. O mundo artístico chorava a perda das minhoquinhas, e clamava por vingança.
Talvez fossem, ainda, minhocas de circo - quem sabe trigêmeas!, e fizessem apresentações no picadeiro sob a alcunha de "Judite, Inês e Olga, as Fantásticas Minhocas Mudas", com um salário de oitocentos dólares por dia e ração de cogumelo importado. Foi apenas um caso banal de seqüestro, então.
Ou seriam minhocas sindicalistas, ou ainda minhocas matemáticas (que calculavam em três casas decimais), ou minhocas atletas, financiadas pelo governo. Nesse caso, elas apenas teriam saído com membros do comitê, da academia ou do COI, para dar conselhos ou relatar progressos. Podiam ser minhocas de cera, minhocas de colocar na porta ou minhocões geneticamente modificados, coadjuvantes de algum filme do Roger Corman.
De qualquer jeito, os caras roubaram minhocas que não
eram deles, nem da Fauna, da Mãe Natureza, da Diana ou do Discovery Channel,
mas sim de alguém divinamente inspirado que as criou e tem um grande
apreço por Suas Pequenidades. Devem ser condenados impiedosamente pois não tiveram
qualquer motivo para roubá-las: a punição deve servir de exemplo para todos
esses malfeitores que roubam, matam e adoecem sem qualquer razão (só para
aparecer, imagino), como aqueles que invadiram a fazenda do senhor grisalho,
ou o cara que matou o chefe (nota: ele era da Comissão de Prevenção a Acidentes!),
ou ainda os baderneiros que golpeiam máquinas industriais com baguetes de calabresa,
esganam a filha loira do dono da mina de carvão, tossem no meio da ópera ou
dormem encolhidos no meio da minha maldita calçada, como se não tivessem
mais o que fazer.
:: FÓRUM DE JORNALISMO ::
por Honoré de Balzac, 3o JOA
:: TODOS ::
Por Fernando Pessoa, meu vizinho da
frente
Não
sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso,
tenho em mim
todos os sonhos do mundo.
:: LAURITA ::
por Luís Fernando Verissimo, Estado, 23/6/01
:: BERÇOS AÉREOS PARA NENÊS ALADOS ::
a Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as matérias.
A cada um de acordo com sua necessidade, disse certa vez Onofre, o padeiro. Da última vez que pedi duas esfihas e cinco pãezinhos, dispostos nessa ordem dentro do saco, ele olhou feio e continuou a acumular caca de nariz. "Você já está gordinha, não precisa de pão", disse, embrulhando treze bombas de chocolate para a pequena Olívia, uma criancinha pálida em fase de crescimento que nem tinha pedido nada. Não interessa o que os outros queiram comprar: ele confia em sua própria análise nutricional para prescrever maravilhas farináceas aos clientes famintos. Quando consegui adquirir um quilo de doces no Dia de Ação de Graças, tive que levar três exames de sangue, atestado de anemia e a dona Firmina, minha avó, que vive dizendo que estou desnutridinha e coisetal.
Certo dia, o carrancudo do bairro (Hipólito Leonel, criador de emas desde 1917) teve uma vontade indomável de comprar pedaços de pizza e oferecê-los às aves, como complemento alimentar. Onofre, naturalmente, levantou os olhos e pôs-se a cutucar o canto da unha com a tampa da caneta. Era infernal. As emas, Onofre, elas estão hepáticas -- e nada. O cliente ainda pediu para as pessoas se afastarem da fila, pensou em trazer a ave Matilde e mandá-la bicar o pâncreas do padeiro, mas decidiu por algo menos jornalístico -- golpeou-o numerosas vezes com uma baguete de calabresa, até se sujar de sangue. E apanhou três caixas de pizza frita, sem antes deixar algumas moedas pelo inconveniente e os vidros quebrados.
Depois de sair do hospital das Clínicas, Onofre nomeou o sobrinho para cuidar da padaria. Pegava todos os pães que saíam do forno e os distribuía por aí. Melro, o sobrinho, ficava na loja anotando as encomendas - agora, qualquer pessoa podia pedir o que quisesse - e se entretinha ocasionalmente espremendo as espinhas do pé. No final do dia, quando todos os clientes estavam furiosos, lotando a porta da padaria e clamando por seus pães, o Melro trancava tudo e ia escovar os dentes. Ninguém, nem mesmo a Olívia, recebia um só item de seu pedido. Não se sabe o que acontecia com o dinheiro dos clientes, e também é desconhecido o motivo pelo qual as pessoas voltavam, encomendavam coisas e pagavam, mesmo sabendo que nunca iam recebê-las. Descobriu-se, em pouco tempo, que Onofre tinha participado de um teste na Mensa e o número de seu Q.I. era uma enorme dízima periódica. Ele estava arquitetando uma lentíssima vingança perfeitamente arquitetada, que continuava por gerações a fio e funcionava assim: os que recebiam pães de graça tinham se fortalecido e começaram a pedir broas de milho. Depois das broas de milho (eles querem o braço! diria um leitor), eles pediram algo de chocolate, e depois quiseram ver peças de teatro e andar de pedalinho. Certo dia receberam enormes baguetes geneticamente modificadas, de calabresa tóxica, e concluíram que precisavam de um teto (Nota: não se sabe como foi feita a associação entre baguete e apartamento, o que não influi no decorrer da história).
A golpes de trigo e calabresa, os clientes da padaria foram expulsos do porão de seus prédios (já tinham gastado o dinheiro na padaria, contraíram dívidas no mercado e não tinham mais dinheiro pra cuidar de suas emas - nem para pagar aluguel das casas), e os novos alimentados ocuparam os cômodos mais quentinhos. A padaria fechou e Junofre, neto do velho Onofre, aplicou todo o dinheiro que tinha nos fundos D.I. - levando a família à miséria. Parece que um dos novos ricos comprou a padaria e começou a aplicar as teorias do famigerado Onofre, dando continuidade a um ciclo interessante de análise da história. De século em século, grupos opostos alternam-se no poder e revisitam a frase que iniciou tudo, dizendo que suas emas precisam de farelo de trigo porque estão doentes. Paralelamente ao desenrolar dessa história humana, parece que os melros de Junofre, indignados, resolveram pedir a parte que lhes cabe e expulsaram bebês humanos de seus berços, porque aves também precisam dormir. Um deles já planeja vender as camas e pleitear ninhos confortáveis, do jeito que eles precisam, apesar dos protestos chorosos dos nenês pelados no azulejo frio, comendo cal e poeira e fazendo xixi no chão.
Acho até que são os bisnetos do Onofre.
:: PENSANDO EM NADA ::
por Rubem Fonseca, em Feliz
Ano Novo
Tereza não se lembra da nossa brincadeira de limpar a cabeça para que o último pensamento na hora da morte não seja o lixo que acumulamos.
É claro que eu me lembrava da nossa brincadeira. Tinha horror de morrer lembrando uma bobagem, como o coletivo de borboleta. Eu fechava os olhos e dizia, querida, estou morrendo, e forçava o meu pensamento a lembrar de um trecho de Mozart, um gesto do corpo.
:: SONHOS ::
Akira Kurosawa - para ler ao lado de um moinho de vento
- Bom dia. Qual o nome desse
povoado?
- Não há. Nós o chamamos de "O Povoado".
- Não há eletricidade aqui?
- Não precisamos. As pessoas acostumam-se ao conforto. Acham que o conforto
é melhor. Rejeitam o que é realmente bom.
- Mas e as luzes?
- Temos velas e óleo de linhaça.
- Mas a noite é tão escura.
- É. Assim é a noite. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não ia
querer noites claras, que não me deixassem ver estrelas.
:: E,
AINDA POR CIMA, GIGANTE! ::
por Marcelo Coelho, FSP 1/5/02
(...) Há bastante tempo não aparece um filme realmente difícil de entender. Penso naqueles de arte que passavam no Cine Bijou aí por 1970. O espectador tropeçava em símbolos. Às vezes, a história corria normalmente até aparecer um frango gigante, com quem o protagonista (era o protagonista?) começava a dançar.
:: TU NÃO TE MOVES DE TI ::
por Hilda Hilst
Pra onde vão os trens meu pai? Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti.
:: O PÚCARO BÚLGARO ::
por Campos de Carvalho
Nada tinha como nada tem o autor, evidentemente, contra nenhum búlgaro em carne e osso, desde que ele se dispusesse a exibir a sua carne e os seus ossos a quem os quisesse ver, como terá que fatalmente exibi-los no Dia do Juízo. Nada tem igualmente contra os púcaros na sua simples condição de púcaros, uma vez que não se metam a búlgaros e saiam para a praça pública a gritar – SOU UM PÚCARO BÚLGARO, SOU UM PÚCARO BÚLGARO – sem que se possa examiná-los de perto e mesmo tocá-los com os dedos, como acontece nos museus. Nos dicionários eles lá estão, um e outro, com os seus verbetes – mas isso é fácil, Deus também lá está: queria é vê-los o autor aqui fora, resplandecentes de luz solar e não de luz elétrica ou gás neón, e sem os canhões de Tio Sam para lhes garantir a pucaricidade ou a bulgaricidade.
O autor tentou honestamente imaginar-se um púcaro ou um búlgaro e não conseguiu, e ainda menos um púcaro búlgaro ou um búlgaro com púcaros na mão, na cabeça ou debaixo das axilas. Imaginou-se sem dificuldade um cavalo ou um guarda-chuva, e até mesmo um cavalo com um guarda-chuva – chegando ao extremo de imaginar-se um dia o próprio Museu Histórico e Geográfico de Filadélfia, mas sem púcaro búlgaro dentro. Essa experiência, também ela, lhe foi decisiva.
[[ Leiam o resto de "O Púcaro Búlgaro"!! --> baixem em http://www10.brinkster.com/payres/bau.htm]]
:: SABEDORIA ::
por Luis Fernando Verissimo, Estado,
18out2001
Como protesto ao que está acontecendo no mundo, portanto, renuncio ao sentido.
Canta, canta penerente fartolúbio a tua franboenta sífidica.
Tens a goralice dos právados que em restefantos sumblam e a purbélica arrocisão dos marabais.
(sugiro que leiam a crônica inteira. Senão não vai fazer sentido, mesmo)
:: CORRESPONDÊNCIA ::
e-mails reais, bisonhos
e suspeitíssimos, interceptados por uma inocente birmânia.
...Não agüenta mais receber correntes por e-mail? Esgotou toda a sua capacidade de inventar grandes dramas e não consegue mais incomodar ninguém? Seus problemas acabaram!
Chegou o PERSONAL EMAIL CORRENTE CREATOR HIGH-PRO DAMNZINE 4.2 !!! (é um plágio descarado. Mas quem se importa?!). Com milhares de opções diferentes, o PERSONAL EMAIL CORRENTE CREATOR é capaz de fornecer combinações infinitas (6x5x4x3, pg=5) de bobagens insólitas ou verossímeis, seja qual for o grau de sensibilidade do destinatário! Nunca mais você vai parar de pertubar os outros!!
Com o PERSONAL EMAIL CORRENTE CREATOR HORTALIÇA e o PERSONAL APRESENTATION POWERPOINT BUILDER seus dias de trabalho serão incrivelmente produtivos -- e vc ainda poderá contribuir para a total desmoralização da Internet como ferramenta útil para qualquer propósito! Veja o produto:
"Por favor, agora
é sério!!!
é uma pobre menina que mora em
. Ela tem
, uma doença
, que ainda não tem cura. Eu sou
do
dela. Infelizmente nós não temos dinheiro para o seu tratamento, pois
.
Mas um amigo nosso, , garantiu que a empresa em que ele trabalha, a doará para cada que encaminhar esse e-mail para .
??? Você já me fez chorar? sim??? Se sim, por quê? Porque bati em você com um pedaço de mármore??? Meus pais ainda estão juntos? sim, mas mês que vem vão fazer uma cirurgia para se descolarem.??? Você sabe uma das coisas mais loucas que eu já fiz? você era um louva-deus e fez operação pra mudar de sexo.??? Você já pensou em me matar? não, eu apenas uso essa faca pra me proteger contra um possível ataque de ursos polares??? Mas por que os egípcios raspavam as sobrancelhas? Os antigos tiravam as sobrancelhas, em sinal de luto, quando seus gatos morriam.
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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If you're reading this, you've been sucked into the aether vortex of hell. The only way out is to completely relinquish your free will to the DamnZine Ltd. Of course we all know that you can't do this because free will is a myth propagated by the faceless suits who control us all. (www.disinfo.com)