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!!DAMN!! Zine
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P o r m
i l d e m ô n i o s !
#026
- São Paulo, 19 de julho de 2002.
Para as tartarugas que dormem
Tiragem: nula
www.damnzine.hpg.com.br
Thank you for not hitting me.
"Ter encontrado a própria personalidade e saber afirmá-la é descobrir o prazer da autenticidade pessoal. Muitas vezes, basta bem pouco. Busquei durante longo tempo e apercebi-me de que um pequeno tom claro nos cabelos era o bastante para criar a perfeita harmonia com a cor do rosto e com os olhos. Com o dourado de Récital, de matiz muito natural, não mudei: mais do que nunca sou eu mesma" (anúncio em revista feminina, citado por Jean Baudrillard)
Ontem de manhã percebi que eu - mesmo com toda a minha elegância - não era eu mesma. Ou melhor: olhei-me no espelho e acabei concluindo que eu era pouco de mim mesma. Deve ser por causa da miopia. Enquanto procurava um aparelho de corar bochechas (exercite você também os músculos da face!), olhei para o nada e percebi outra coisa terrível: nem a Poodle, minha gata persa, tinha a personalidade que devia. Era brasileira. Entrei em pânico.
Encontrei a máquina de amaciar bochechas escondida sob a agenda de telefones – passei, então, a procurar o nome da minha psicóloga. Naturalmente não estava na letra P, muito menos na G (ela bem poderia se chamar Gislaine, Géssica, Galeana, Gertrude, como era o nome dela? Girafa. Não, ela só se parecia com uma), então desisti. Nos dez minutos subseqüentes, pensei em fazer ovos cozidos, escovar a Poodle, praticar aromaterapia e me suicidar. Não tudo ao mesmo tempo, pois o que veio primeiro foi o desejo de me jogar da janela. Com os pés no beiral, olhando para a imensidão do horizonte, não revi as melhores cenas da minha vida, mas lembrei-me que havia esquecido meus novos brincos na cômoda (ninguém deveria morrer sem bons brincos), e desci para fazer o café.
Minha consciência, então, impeliu-me a demonstrar gratidão e solidariedade aos entes queridos, de modo que requisitei pela Internet uma passagem área (sem escalas) com destino à Pérsia, na classe executiva, para mim e a Poodle. Primeiro os problemas menores, pensei, e já imaginava quanto teria que pagar para receber um visto e encaminhar o pedido de naturalização, quando descobri que a Pérsia não existia. Como a Bulgária, mas pior: nem estava no mapa. Estiquei a mão e abri a agenda de telefones, pensava que na letra P deveria constar a Professora de geografia ou o Padeiro (eu tinha fome), mas, invariavelmente, nada estava registrado por lá.
Tranquei a Poodle no armário da cozinha e tentei me concentrar. Devia haver um modo de ser, mais do que nunca, eu mesma. Penas de ganso – isso mesmo, se eu tivesse um chapéu de penas de ganso ninguém mais iria se parecer comigo. Bom, talvez um ganso. Pensei em um implante, para lançar um estilo fashion de sobrancelhas que iriam até o topo da testa, mas achei que pudesse ficar esquisito em excesso. Eu tinha que realizar algo definitivo. Mais chocante que uma tatuagem. Mais chique que um MBA em Massachussets. Mais romântico que escrever um livro de capa dura. A Poodle miava, e eu tive a idéia definitiva: dedos. Retirei o mindinho do pé esquerdo, com uma espátula de depilação, coloquei no pote de formol e levarei ao meu cirurgião plástico (letra C), que sem dúvida fará um implante na minha mão direita, e então eu terei seis dedos. Com o tempo, sete. Estou tão feliz com a minha nova personalidade.
:: MATTI E PUNTILA ::
por Bertolt Brecht. O Puntila
é patrão do Matti.
:: A NORA ::
por James Joyce
A Nora Barnacle Joyce
22 de dezembro de 1909
Rua Fontenoy, 44, Dublin.
:: DESCULPEM ::
do almoxarifado
Não nos responsabilizamos pelo texto anterior.
:: OS PATOLÓGICOS ::
por Millôr Fernandes,
colaboração do Alisson
Uma bela pata, das antigas, que acreditava na prole
e na responsabilidade familiar (1), acabando de dar à luz uma maravilhosa ninhada
de sete patinhos, e preocupadíssima com sua educação rápida - e eclética - num
mundo em que a competição é verdadeiramente patológica (2), levou-os, certa
manhã, à beira do regato para que eles iniciassem suas aulas de natação, prática
fundamental à espécie.
- Vejam só, amados filhinhos! - disse a pata, depois de verificar, com uma das
patas, se a temperatura da água estava adequada. - Reparem bem na maneira correta
e elegante de entrar na água (3).
Dizendo isso, atirou-se na correnteza, pousando levemente à flor das águas.
E ficou boiando, esperando, bobamente feliz, que os filhos a acompanhassem (4).
Mas os patinhos, em vez de acompanhar a mãe, numa natural compulsão biossociológica,
permaneceram na margem onde estavam dando risadinhas e virando a cara, numa
atitude estranha e desrespeitosa (5). A mãe, furiosa, recorreu à sua autoridade moral, e berrou para que eles a
acompanhassem. Ao que o mais atrevido dos patinhos (6), naturalmente feito porta
voz dos outros, dirigiu-se a ela da seguinte maneira:
- Mãe, você deve ser mesmo uma velha supremamente idiota supondo que nós vamos
arriscar nossas vidas tão tenras da maneira tola porque você está arriscando
a sua. Que você não tenha aprendido nada através da existência e não saiba o
risco que corre se atirando num elemento tão estranho e imprevisível, ou está
se arriscando simplesmente porque lhe resta muito pouco de vida, isso é lá com
você. Mas nós, os jovens, sabemos mais; não nos atemos nem à filosofia do absolutismo
biossocial, nem às besteiras do condicionamento total. Pois se é verdade que,
devido à lei natural desconhecida para nós - nos recusamos a testá-la sem salva-vidas,
pois pode ser coisa absolutamente individual -, você flutua confortavelmente
(apesar do seu peso, gorda como está), isso pode não acontecer conosco. Nos
atirarmos à água pode nos ser fatal. Portanto, madame, esteja certa de que só
agiremos no sentido de experiências aquáticas a partir de um conhecimento mais
profundo - o duplo sentido é involuntário - do líquido elemento. No momento,
porém, dispensamos a sua orientação e permanecemos em terra. Tchau, bela!
Terminando, o patinho líder, seguido dos irmãos, saiu correndo veloz e alegremente
em direção à granja. Mas, quando iam atravessando a estrada, os sete foram esmagados
por um caminhão.
MORAL: QUASE SEMPRE A GENTE EVITA O PERIGO ERRADO.
Notas
1 Família nuclear.
2 Perdão!
3 Não existe maneira correta de entrar na água. Não existe maneira correta
de fazer coisa nenhuma.
4 Êh!
5 Muito na dos sobrinhos do Tio Patinhas.
6 Um líder?
:: PORTOS NÃO PRESTAM
::
Joseph Conrad
Portos não prestam -- os navios apodrecem e os
homens vão para o diabo.
:: ASSIM APRENDI A NÃO
ME PREOCUPAR E A GOSTAR DO CÃO ::
A Reader´s Digest dá o tom, nós completamos as matérias.
A reunião com os acionistas transcorria tranqüilamente quando ele percebeu uma protuberância branca no pescoço. Cutucou um pouco com a tampa da caneta, pediu pro colega ver se tinha alguma coisa, zangou-se com o olhar indiferente e começou a se preocupar. Enquanto o sr. Koslovsky demonstrava o fluxo de rendimentos anuais no setor de legumes, Murphy afastou a cadeira e rumou ao banheiro, com as mãos em cima da coisinha inflamada.
Era uma bolha do tamanho de um besouro. Coçava. Mas não havia problema, era só passar uma pomada e deixar secar. Isto, claro, se a verruga não estivesse crescendo. Voltou para a mesa e desculpou-se com risadinhas tímidas: "era alarme falso, minha esposa está prestes a ter um bebê. Continue, por favor, senador Otterson".
Os investimentos em mamão papaia agregaram um aumento líquido em 33% das vendas no trimestre, o que sem dúvida fez com que os índices Perrier quintuplicassem em velocidade admirável, isso sem falar no inchaço descomunal dos itens hortifrutigranjeiros, que dilataram assustadoramente como a verruga daquele moço sentado no canto. (Cof). Que foi, Murphy? Está passando bem?
Tinha agora o tamanho de uma jaboticaba. Ele precipitou-se pela porta e chegou à rua, procurando um médico. A bolota crescia como um inhoque cozido. E machucava o colarinho terrivelmente, incomodava o queixo, era uma pelota horrível. No caminho para o hospital, ainda com as mãos no pescoço, ele se atrapalhou e tropeçou em sua própria calda. Sim, acontece: no calcanhar de Murphy havia uma tímida cauda, diminuta mas substancial, escapando de dentro do tênis. Começou a chorar. Tinha uma bola de golfe no pescoço, uma calda no calcanhar e provavelmente aquela meleca se movendo na nuca era uma futura guelra. A respiração, pelo menos, estava mais livre. O homem pôs-se de pé e foi andando, afobadamente, em direção ao pronto-socorro mais próximo. Quando chegou (teve o cuidado de esconder a cauda e a guelra, que afinal de contas eram mais esquisitas que a Verruga), encontrou sua esposa em trabalho de parto.
Calculou que seria um tremendo egoísmo, caso ele abandonasse a moça para cuidar de suas guelras, por isso ficou ao lado da cama segurando a mão da criatura a gritar. Quanto tempo demora para sair a coisinha dali de dentro? Perguntou para a enfermeira, que calculou umas 6 horas. Talvez oito. A bolha estava doendo, e um médico perguntou se ele tinha caxumba. Não se preocupe, é só uma gosma deformada, não há de ser nada contagioso. A esposa gritava. Pedia para que ele a soltasse, Murphy, você está tão pegajoso.
De súbito, aconteceu o que o homem temia: era impossível desprender a mão dali. A enfermeira veio ajudar, e também um garotinho gripado, a secretária, o segurança, até o cirurgião-chefe; então as mãos se separaram e ele descobriu que tinha ventosas. Estava transformando-se, creio, em um autêntico homem-peixe, só que os médicos nem ligaram.
Ele deixou a esposa fazendo o que era preciso, e rumou à Farmácia para comprar remédios. Estava apavorado. O atendente, sempre de bom humor (tinha dentes brancos e namoradas belíssimas), declarou que o moço era alérgico à pomada que passara na bolha – isso explicava os efeitos colaterais. Alergia a pomada e band-aid, ainda acrescentou. Prescreveu meia dúzia de calmantes, aplicou injeções de água e mandou o homem ir dormir.
Mas ele ainda estava desesperado. Dirigiu oitenta quilômetros, até a Universidade Federal, e pediu para ser analisado imediatamente. O estudioso de plantão encarou as guelras, brincou de estica-e-espicha, divertiu-se um bocado e diagnosticou a existência de um pequeno olho dentro do ouvido. Provavelmente era apenas uma pupila falsa, sem qualquer capacidade visual, mas por via das dúvidas seria necessária uma pequena intervenção cirúrgica. Vão retirar meu olho? O professor riu. Não, o que é isso: vão implantar outro desses no ouvido esquerdo, para harmonizar o seu corpo. A acupultura odiaria saber que você tem um olho sim, outro não. Precisamos alcançar o equilíbrio pleno, meu jovem.
(continua)
:: DEU NOS CLASSIFICADOS
::
por Gustavo Bühler, buhler@ieg.com.br
Paladino domador de cavalos alados procura jovem elfa que monte unicórnios para realizar um cena bucólica em uma terra distante.
:: CHARLOTTE S´EVEILLE ::
por Luis Fernando Verissimo
A escritora Colette contava que sua mãe tinha uma tartaruga chamada Charlotte que dormia durante todo o inverno. A menina Colette sabia que o inverno tinha acabado quando sua mãe anunciava: "Charlotte s'eveille, c'est le printemps." Não importava que o calendário não concordasse com a tartaruga. Podia estar nevando: se Charlotte abrisse os olhos, era primavera.
leia na íntegra: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2001/08/23/pol008.html
:: DUAS FORMIGAS ::
por Lívia Moura, livia_moura@hotmail.com
Não perca! Os outros episódios da trilogia das Duas
No princípio havia A Árvore. E A Árvore era árvore-da-fruta-doce. E a árvore tinha muitos bichinhos tipo passarinhos, besourinhos, aranhinhas, lagartinhas. E tinha formiguinhas. Um dessas formigas, das pequenininhas, pretinhas -- que eu vou chamar de Formiguinha - tinha um sonho, que era encontrar uma fruta-doce! Aih todo dia (depois de se espreguiçar) ela fazia longas caminhadas por toda a árvore, que era enorme (aliás), procurando a fruta-doce. Passava fome, frio, vivia se perdendo, mas finalmente um dia ela encontrou uma fruta doce. Era grandona e bonita e tava madura e tinha um cheiro tão bom! E ela ficou lah babando na fruta, tonta de alegria, e nem perceneu que tinha chegado outra formiga, das vermelinhas briguentas - que eu vou chamar de Formiga. Aih a Formiguinha vira pra formiga:
- Não eh maravilhosa
esta fruta doce?
- Ahãn. E aposto que é a coisa mais saborosa do mundo.
- De fato! - aih olha pra Formiga. - Hm, nós podemos dividir. Ela eh grande
o suficiente pra gente dividir entre os dois formigueiros. Mas precisamos ir
chamar as outras formigas... Deve haver um jeito de penetrar essa casca...
- A-HÃ (tipo pigarro) - e mostrou as mandíbulas.
- Que legal, eu acho que vc consegue perfurar a casca! :)
- Não sei... talvez. Mas eu consigo fazer isso.
E *nhoc* a Formiga mordeu a Formiguinha e levou pro ninho. E nunca mais voltou pra fruta-doce.
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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