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- I -
Ninguém pode te ver no telhado. Tudo acontece ali, na sua frente, e pouca gente lembra de olhar pra cima. Aquelas pessoas andando, falando sozinhas, saindo nos quintais de pantufa de madrugada e cantando na janela. Outras saem à noite, e depois voltam, completamente bêbadas, trombando nos postes e cumprimentando as orquídeas. Passam tipos definitivamente suspeitos, olhando as casas, fazendo xixi nos muros ou se reunindo nos ermos, ou então os vizinhos de cima acendendo e apagando as luzes, tocando flauta ou espiando das janelas, com o som ligado e os guardas passando...
:: ÚLTIMA OBSERVAÇÃO ESTÚPIDA ::
do filme "Correspondente Estrangeiro",
do Hitch
É conveniente sempre haver coisas sobre as quais nós não temos controle...
:: JOGO DA AMARELINHA ::
por Julio Cortazar. Capítulo 7
Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
Ok...
:: UAU ::
Respostas prontas (tipo George Costanza)
para decorar e dizer na Região.
Peter Lorre: Você me despreza, não é?
Humphrey Bogart: Se eu pensasse
em você, provavelmente o desprezaria.
:: O AMOR ACABA
::
por Paulo Mendes Campos, surrupiado (também) do
site Pensar Enlouquece
:: UM CIENTISTA QUE CATA
PULGAS ::
A Reader´s Digest dá
o tom, nós completamos as matérias.
Por que eu cataria pulgas?, vc deve estar perguntando, e eu nunca saberia responder. Só sei que me colocaram aqui nesta estufa horrorosa, cercado de materiais químicos à minha volta, tubos de ensaio, conta-gotas, frascos de amônia, olhando fixamente para uma luz de publicitário e me pediram: "ei, Norbert, pare de esfregar o chão e venha aqui um instante." Sim, pois não, desculpe, boa noite, deseja alguma coisa? Parece que precisavam de um modelo pra colocar na capa da Readers Digest, então eu achei bonito e fui posar de cientista catador de pulgas. Enquanto isso, uma repórter chamada Jucemara, mto criativa e neurótica, inventava um certo melodrama de um biólogo que estudava pulgas e mosquitos da dengue, e acabou se tornando uma lamínula gigante, não se sabe como. Ela pediu um nome, e eu disse: Ernest Hemingway, e até soletrei pra coitadinha, pois ela achou bastante charmoso e colocou na reportagem. Sugeri também que ele não se transformasse em lamínula, mas em uma estante para tubos de ensaio - o que ela refutou prontamente, a dizer "ninguém mexe! na lamínula ninguém mexe!". Maluca. Começo a achar que ela tem algo de pessoal e não resolvido com a dita lâmina. Voltei a esfregar o chão.
:: JARDIM DOS CAMINHOS QUE SE BIFURCAM ::
por Jorge Luis Borges (lê-se Bôor-rres)
- Em todos [os caminhos]
- articulei com um certo temor - agradeço e venero sua recriação do jardim de
Ts’ui Pen.
- Não em todos - murmurou
com um sorriso - O tempo se bifurca perpetuamente para inumeráveis futuros.
Num deles sou seu inimigo.
:: SOBRE O PLÁGIO
::
declaração de Lívia Moura, exclusiva para o DamnZine
"Uma vez quando eu tava na segunda serie eu fiz
uma redaçao sobre potrinhos e a professora disse que eu tinha copiado."
(Silêncio)
:: FEITIÇO DO PORCO-ESPINHO
::
por Alisson Villa, bucolico@hotmail.com
Como toda fábula que se preza, o começo não poderia
ser diferente: Era uma vez (ouve algumas vaias, é bem verdade, mas o escritor
era surdo e continuou com ar nobre), em um reino chamado Sínfones, talvez ao
sul do País de Gales, talvez ao norte do Japão, uma linda camponesa de nome
Camponesa, pois assim a chamavam na vila dos plebeus. Camponesa tinha cabelos
negros, a dar nos ombros e olhos cor de jaca formando um sincronizado balé com
as grossas sobrancelhas. Era bela, não há quem negue, mas inocente, e há quem
inveje.
E foi justamente uma dessas invejosas, que nem tão feia era, quem contou a absurda
história bem pertinho do ouvido da inocente Camponesa: "Você não ficou sabendo?
O pobre do Príncipe (e este era seu nome, pois assim o chamavam em todo reino)
foi seqüestrado pelo dragonáceo e malvado Porco Espinho, aquele mesmo que o
feiticeiro da realeza, certa vez, deu, não se sabe se por exibicionismo ou por
vaidade, o poder de pensar como os homens. Mas o pior não é de conhecimento
publico, pois bem sabes que o poder abafa tudo, mas contam os mais informados
que o Príncipe, coitado, foi transformado em sapo".
A Camponesa, de olhos arregalados, escutava tudo como se anotasse cada detalhe
em seu cérebro. E perguntou, como quem entrega a munição ao inimigo:
-Mas o que a de se fazer para salvar o Príncipe?
E a invejosa (que nem tinha nome, pois foi acertado com o povo de Sínfones -
cidade em que os pássaros travam sinfonias ao alvorecer, daí seu nome - que
nem isso ela merecia) narrou sem delongas o desabafo do Porco Espinho (e este
era seu nome, pois elefante ele não era), momentos antes de levar para seu castelo
na floresta o raptado Príncipe-Sapo: "E não me venham com arqueiros e cavaleiros
corajosos. O Príncipe será libertado somente por uma formosa dama que, beijando-o
como manda o figurino, desarmará o encanto, voltando o anfíbio a ser homo sapiens.
E tem mais. Antes dessa desagradável
cena de amor entre espécies, a dama deverá também ter a chave para por fim a
essa angústia que me bebe a alma".
Mal findou a história da invejosa e a Camponesa marchou apressada para a floresta
onde estavam o castelo, o Porco Espinho e o Príncipe-Sapo (necessariamente nessa
ordem). Lá chegando, como sua mãe era uma influente cozinheira de bolachas de
coco, não encontrou dificuldades em subornar os guardas do portão com alguns
sacos repletos dessa guloseima. E já de frente para o Porco Espinho, declarou:
-Vim resgatar o Príncipe.
Ele então mastigou algumas bolachas (que foram educadamente oferecidas pela
Camponesa), expeliu um sorriso sarcástico e lembrou a ela sobre a necessidade
de primeiro acabar com sua angústia.
-Mas eu sei o que tanto lhe aflige!
E aproximando-se do Porco Espinho, retirou o primeiro, o segundo, o terceiro,
o quarto e todos os outros 276 espinhos que tanto cutucavam seu coração, impedia
de receber abraços e de brincar com balões. Agora ele era simplesmente um Porco
(e este agora era seu nome, pois não tinha mais aqueles ameaçadores espinhos).
Terminada a tarefa mais difícil, a Camponesa partiu para a mais nojenta: o beijo
no sapo. Deu o primeiro e esperou que uma nuvem de fumaça trouxesse um lindo
príncipe a lhe pedir em casamento. Nada aconteceu e aqueles olhos esbugalhados
do sapo a lhe observar. Deu o segundo beijo e nada. Olhou para o Porco, que
deu de ombros como se não tivesse entendendo o que estava acontecendo. Deu o
terceiro, o quarto, consultaram o manual e nada do sapo virar príncipe. Quando
já estava no décimo quinto beijo, a Camponesa desistiu e pensou que talvez tudo
não passasse de uma terrível invenção da invejosa. E antes de deixar o castelo
na companhia no novo amigo Porco, viu ainda o Príncipe-Sapo capturar com a longa
língua várias mosca distraídas.
E como em toda fábula decente existe uma moral, eu esclareço a minha: Quem perde
a majestade, acostuma-se rápido com banquetes celestes.
:: BOA NOTÍCIA ::
por Charles Bukowski
Quando já se está quase sem alma e se tem consciência disso, é porque ainda existe.
:: CORRESPONDÊNCIA ::
:: VOCÊ PERGUNTA, NÓS NÃO DAMOS A MÍNIMA
::
Questionamentos sadios de uma sociedade doente.
??? Gostaria de saber, com relação a este mundo onde vivemos, por que até os zeros, para serem algo, devem estar à direita?
>>>>
\n'; document.write(barra); } } changePage(); RONG>Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e imparcial da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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