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!!DAMN!! Zine
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Eu estava quieta, absolutamente imóvel, sem mesmo respirar. Cronometrava quanto tempo conseguia manter um congelamento estático. Meus pés estavam presos em alguma estrutura de ferro convenientemente disposta abaixo do banquinho do cobrador do ônibus, que me olhava com o canto dos olhos e lia Vencer É Possível ou Pérolas de Otimismo em Gotas. Segundos depois, ainda imersa em minha modorrice voluntária, aplicava um grande susto em mim mesma (experimente!) e zerava o contador do relógio. Dois minutos e trinta segundos. O ônibus praticamente não tinha saído do lugar, e nem o livro que estava no meu colo. Fui encostar a cabeça no vidro e passou uma lombada (teoria 1: dormir no ônibus causa lesões irreversíveis em partes fundamentais do cérebro). Coloco a cabeça pra trás, pra frente, pros lados, afofo a área com uma blusa de moletom, deito em cima da mochila, do joelho, do tédio. Largo as coisas no canto e esboço uma reação de revolta, quando ouço algo:
- Tá doendo, ôu.
- Ãhm?
- No meu tempo não era assim. As pessoas tratavam os outros muito bem, sim senhor.
Teoria 2: preciso parar de comer laticínios. Ignoro minha incontestável loucura, já resignada, e tento procurar quem está tagarelando. O cobrador cochila sob um montinho de passes. Ninguém à frente, atrás apenas um moço de walkman. Embaixo as rodas, acima as nuvens. O motorista brincava de Enduro.
- Quem disse isso, por diabos?
- Olha. Se você me tratar mal assim, eu saio daqui já.
- Sai, então, quero ver. – Silêncio – Nossa, a minha mochila fala, e deve recitar poesia expressionista também.
- Bolsas não falam. O que dizer então desse trapo velho. Você não faz nada direito, não dá valor a nada, aposto que deve estar bocejando.
Olho feio, mas não sei pra quem. Recomendação n. 3: nunca ser sarcástica com criaturas inanimadas (principalmente as que falam). Tomo a mochila nas mãos, abro o zíper e vejam só: o guarda-chuva está me encarando. Devia ter pensado melhor antes de comprá-lo.
- Cara – ele pragueja – me tira logo deste saco plástico. Se você fosse o Cortázar, eu estaria sentado num banco de ônibus, e você teria que evitar uma insuportável asfixia, lutando com um saco leitoso do Carrefour.
- Reclama, que te enfio num saco de lixo. Ou num pacote de mercado, então vai ter que suportar inscrições do tipo "O Senhor é meu pastor, capim não me faltará" – e nem vai ser um saco francês!
- Olha que eu me abro aqui mesmo, com todas as varetas escancaradas,
bem no seu olho.
-Experimenta!
- Droga.
- Bem que eu podia ter percebido antes de te comprar. Barato demais...
- Cala a boca e agora leia pra mim.
- Estou perdida quando chover. Como é que eu vou me virar?
- Leia!
- Era só o que me faltava.
- Abre o livro! Leia!
- Vou ter que proteger um guarda-chuva falante dentro da minha jaqueta e...
- Agora!!
-... "Eu queria um castelo sangrento", dissera o comensal gordo...
Diálogo: Batman e Robin - aquele antigo, gordo e roxo - perseguem malfeitores:
Ato 1. Malfeitores fogem.
Ato 2.
Robin, encafifado, diz:
Santa rapidez, Batman! Eles fugiram!
Batman: Sim Robin... eles têm uma vantagem sobre nós!
Robin: Santa dedução! E qual eh a vantagem, Batman?
Batman: Eles sabem onde estão...
:: CRIANÇA NÃO TRABALHA ::
por Arnaldo Antunes e Paulo Tatit.
Ótima desculpa!
Lápis, caderno, chiclete, pião
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria, tambor
Gritaria, jardim, confusão
Bola, pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar, pula-cela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia
Pirata, baleia, manteiga no pão
Giz, merthiolate, band-aid,
sabão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca, botão
Pega-pega, papel, papelão
Criança não trabalha, criança dá trabalho
Criança não trabalha...
1,2 feijão com arroz,
3, 4 feijão no prato
5, 6 tudo outra vez...
Criança não trabalha, criança dá trabalho
Criança não trabalha, criança dá trabalho
Lápis...
Banho de rio, banho de mar, pula-sela, bombom
Quebra-cabeça, boneca, peteca, botão...
"Não trabaia."
:: HUMPTY-DUMPTY ::
por Lewis Carroll
- Por que o senhor está sentado aí, tão sozinho? - indagou Alice, sem querer iniciar uma discussão.
- Ora essa, porque não tem ninguém aqui comigo! - gritou Humpty-Dumpty. - Pensou que eu não saberia responder esta, hein? Pergunte outra.
:: PARA RESPONDER
AO CHEFE, COM CARA DE PSICOPATA ::
de Clube da Luta
Chefe: O que significa este papel? Que devo fazer com um funcionário que desperdiça o tempo da empresa em seu mundinho fantástico? Se você estivesse no lugar do chefe, o que faria?
Narrador: O que eu faria é ter muito cuidado com quem se fala sobre esse documento. Pode ter sido escrito por um perigoso assassino psicótico, um esquizofrênico capaz de a qualquer momento perder a cabeça durante o expediente e entrar em sala com uma carabina semi-automática Armalite AR-180. Esse cara passou a noite limando uma cruz na ponta de cada bala. Ele aparece um dia no trabalho e descarrega sua carga no chefe rabugento, improdutivo, chorão, babaca e bunda-mole, e a bala explode e se espalha dentro dele, estourando as vísceras fedorentas ao longo da espinha. Imagine o seu chakra do umbigo explodindo em câmera lenta e trazendo tudo o que há no intestino grosso.
:: LIVRO DAS IGNORÃNÇAS
::
por Manuel de Barros
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
:: TRECHO::
de Rayuela, J. Cortázar.
Traveler ficava sozinho no escritório, e perguntava a si mesmo como deveriam ser os fins de tarde em Connecticut.
:: SABÃO
EM BARRA ::
por V.
Veio um pesquisador lá em casa perguntar se eu usava sabão em barra. Isso, sabão em barra. Ele só podia estar brincando. Fui polidamente simpática e respondi que não, meu senhor, não usava sabão em barra. Com licença, estou de saída. E por quê? Silêncio. Sim, ele perguntou por quê. Céus, era o que me faltava. Um psicopata da limpeza, arauto da lavanderia arcaica.
Eu queria explicar: olha, é muito mais fácil não fazer algo do que fazê-lo. Não utilizar coisas do que utilizá-las. Entende? Mas ele nunca entenderia. Inferno. "E por que eu usaria?", foi o que respondi, perplexa. "Há pessoas que usam", retrucou o fulano, na maior inocência possível. Eu queria picá-lo em pedacinhos retangulares, cutucando de maneira sórdida o olho e a barriga dele, com a chave do portão.
"Ótimo", ponderei. "E há as pessoas que não usam, veja! E não é que eu sou uma delas?", lancei um olhar raivoso e continuei andando. Como ele me seguisse, ainda acrescentei: "Põe aí". Cumprimentei o meu sarcasmo e saí.
O moço me olhava, tristonho. Eu teria algum tipo de pena, se depois ele não tivesse indagado, de longe: "E por que essas pessoas não usam?". Era o fim. "Por que não! Por que não! Suma daqui, criatura!", mas ele se protegia com a prancheta e ainda murmurou: "E por quê?".
Ódio. Rancor. "Você venceu. Parabéns. Eu uso, sim, sabão em barra, todos os dias da minha vida, para toda a eternidade". Satisfeito?
Ele anotava freneticamente com um toco de lápis e cobria vários espaços no formulário, feliz da vida. Parecia um sapinho bobo. Eu até fiquei satisfeita, senti que séculos de civilização passavam à minha frente e me cumprimentavam, cavalheiros franceses iam e vinham em seus fiacres e tudo era limpo e organizado. Cheguei a sorrir. Então ele levantou o rosto, com um par de olhos suaves e adoráveis, e perguntou:
- Mas de que marca?
:: DICIONÁRIO DAS IDÉIAS FEITAS ::
por Gustave Flaubert, em Bouvard e Péchuchet
Dólmen -- Diz respeito aos antigos franceses. - Pedra que servia ao sacrifício dos druidas. - Não se sabe mais nada, - Só há dólmens na Bretanha.
Elefantes -- Distinguem-se pela memória e adoram o sol.
Emigrados -- Ganham a vida dando lições de violão e fazendo saladas.
Entreato -- Sempre muito longo.
Espada -- Ter saudades do tempo em que a gente a usava.
Época (Atual) -- Revoltar-se contra ela. - Deplorar que não seja poética. - Chamá-la de época de transição, de decadência.
Ereção -- Só se diz com referência a monumentos.
Espirro -- Depois de dizer "Deus o abençoe", travar uma discussão sobre a origem desse uso.
Etrusco -- Todos os vasos antigos são etruscos.
Extirpar -- Esse verbo só se emprega quando se trata de heresias e de calos.
Enterro -- Falar a propósito
do defunto: "E dizer que jantei com ele há oito dias!".
:: DECLARAÇÃO ::
para entrar para os autos
:: CHÁ ::
por Lewis Carroll
Diante da casa, sob uma árvore, havia uma mesa posta: a Lebre de Março e o Chapeleiro tomavam chá: um Rato do Campo estava imprensado entre os dois, profundamente adormecido, e eles o usavam como se fosse uma almofada, descansando nele os cotovelos e falando por cima da sua cabeça. "Isso deve ser bem incômodo para o Rato do Campo" – pensou Alice – "mas como ele está dormindo, acho que não deve se importar muito".
A mesa era bastante espaçosa, mas os três estavam amontoados num canto. – Não tem mais lugar! Não tem mais lugar! – gritaram ao ver Alice aproximar-se. – Tem lugar demais! – disse Alice indignada, sentando-se numa grande poltrona numa das cabeceiras.
-- Aceita um pouco de vinho? – perguntou a Lebre de Março em tom muito amável.
-- E não há nenhum mesmo – disse a Lebre de Março.
-- Então não foi nada educado de sua parte me oferecer – disse Alice irritada.
-- Também não foi educado de sua parte sentar-se sem ser convidada – replicou a Lebre de Março.
-- Não sabia que a mesa era sua – disse Alice. – Está posta para muito mais do que três pessoas.
-- Você precisa cortar o cabelo – disse o Chapeleiro. Até então estivera olhando para Alice com grande curiosidade e essa era primeira vez que falava.
-- E você precisa aprender a não fazer comentários pessoais – disse Alice com severidade. – Isso é uma grosseria.
O Chapeleiro esbugalhou os olhos ao ouvir isso, mas tudo que disse foi: - Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?
:: UM CIENTISTA QUE CATA PULGAS
::
A Reader´s Digest dá
o tom, nós completamos as matérias.
Hoje também não teremos matéria porque ainda estamos procurando uma boa desculpa. Disque 8 para voltar ao menu principal.
:: O ÚLTIMO IMUNE
::
por Luis Fernando Verissimo, no Estadão de 8
de agosto. *sigh*
Sei não, mas quando nem um jabuti está seguro dentro de casa... Dirá você que o noticiário está cheio de exemplos melhores do ponto a que chegamos. Mais importante do que um jabuti vendo o seu sonho de um dia dançar no Municipal destruído para sempre por uma bala perdida é uma das duas maiores universidades federais do Brasil não conseguir pagar a sua conta de luz? Dirá você? Mas o que se pode esperar de um país cujo Exército faliu?
O Exército brasileiro faliu. Dispensou mais da metade da sua força de trabalho e dizem que o Brasil está pensando seriamente em terceirizar os seus serviços, inclusive contratando o narcotráfico - que já tem quase todas as armas de uso exclusivo das Forças Armadas, mesmo - para patrulhar as fronteiras. Você já se deu conta de que só o que impediria a Argentina de nos invadir neste exato momento para vingar a gozação depois da Copa é o fato de o Exército argentino não ter gasolina nem para dar um golpe?
Deixarem uma das duas maiores universidades federais do Brasil sem luz parece uma seqüência lógica de eventos, depois de dispensarem o Exército. Dirá você que nada representa melhor a situação do Brasil do que a CBF inaugurando um prédio novo e luxuoso enquanto os times de futebol profissional, todos, quebram, ou aquela brincadeira impensada do secretário do Tesouro americano, Paul O'Neill, checando se ainda estava com a carteira na saída do Planalto.
Eu insisto que o jabuti baleado é mais, como dizem, emblemático. O jabuti é o típico animal que está na sua, não está nem aí e não quer nem saber. Além do seu ar distante, a carapaça é um sinal de que ele não quer ser incomodado, com notícias ou qualquer outra forma de realidade. Ou seja, é o brasileiro na sua última privacidade, no seu último refúgio, tentando desesperadamente ser imune ao Brasil. E se além de viver dentro da sua concha natural vivia dentro de um apartamento, era duplamente imune e tinha todo o direito de achar que estava salvo.
Não estava. A bala perdida o encontrou. Bem-vindo à social-democracia, jabuti.
:: LINKS DISPENSÁVEIS
PARA CRIATURAS OCUPADAS ::
endereços importantes, ou nem tanto
"Ótimo, temos divertimento pela frente!" – pensou Alice, – "Acho muito bom que eles tenham começado a propor adivinhas." – Creio que posso acertar essa – disse em voz alta.
-- Quer dizer que você pensa que pode encontrar a resposta para isso? – perguntou a Lebre de Março.
-- Exatamente – respondeu Alice.
-- Então deve dizer o que pensa – continuou a Lebre de Março.
-- Eu digo o que penso – apressou-se Alice a dizer. – Ou pelo menos... pelo menos penso o que digo, o que dá no mesmo, afinal.
-- Não da no mesmo coisa nenhuma! – protestou o Chapeleiro. – Seria o mesmo que dizer que "Vejo o que como", é o mesmo que "Como o que vejo".
-- Seria o mesmo que dizer – acrescentou a Lebre de Março – que "Gosto daquilo que consigo" é o mesmo que "Consigo aquilo de que gosto".
-- Seria o mesmo que dizer – acrescentou o Rato do Campo, parecendo falar enquanto dormia – que "Respiro quando durmo" é o mesmo que "Durmo quando respiro".
-- No seu caso é a mesma coisa – disse o Chapeleiro ao Leirão. Nesse ponto a conversa parou e o grupo ficou silencioso um minuto, enquanto Alice aproveitava para se lembrar de tudo que sabia sobre corvos e escrivaninhas, o que não era lá muita coisa.
??? Por que ao procurarmos o número de uma casa em uma rua, abaixamos o volume
do rádio do carro? (B. Shiga, RJ)
Existem várias teorias para explicar tal fenômeno. Mas vamos nos deter na mais provável. Datada do ano de 1812 (não venha questionar o fato de nessa época o automóvel ainda não ter sido inventado, a pergunta aqui é outra e não vamos desvirtuar a resposta), a teoria foi proposta pelo filósofo alemão Karl Friedrich Benz. Segundo Benz, esse ato é puramente cultural. Imaginemos o seguinte: se carros vão a casa de alguém, naturalmente algum acontecimento social se dará. E onde ocorrem acontecimentos sociais, sempre existem quitutes e bebericos. Em uma atitude forçada pelo subconsciente, abaixa-se o volume do som para evitar que toda vizinhança saiba do evento, sobrando assim, mais guloseimas e bebidas para os indivíduos do carro. "O homem é um animal naturalmente egoísta", afirmou Benz que, curiosamente, no ano de 1885, inventou o automóvel junto com o amigo psiquiatra Gottlieb Wilhelm Daimler. No entanto, eles adoravam ir às festas com o som bem alto, pra mostrar superioridade! Ah! Esses pensadores alemães.(por Alisson Villa, o velho eremita)
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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