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!!DAMN!! Zine
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"Há povos de travesseiro e povos sem travesseiro" (Marcel
Mauss)
Tinha uma criancinha de cócoras, parada no ponto de ônibus desde a semana passada
(e aquilo já não surpreendia ninguém). Ela não sabia cuspir. Estava acocorada
na calçada, triste como uma escrivaninha de mogno, quieta porque a garganta
doía e ela não sabia cuspir. O antropólogo postulou: "cuspa", e ela erguia-lhe
um par de olhos enormes, de órfão paraguaio descalço, e mantinha-se carrancuda,
cheia de pensamentos bobos.
Na aldeia da garota, quando estavam no lamaçal ou sob calçadas sujas, todos
sentavam-se sob seus calcanhares e punham-se a descansar. Acocoram-se normalmente
- mas não cospem, de maneira nenhuma, sob quaisquer circunstâncias.
O antropólogo afastou os óculos, anotou alguma coisa em latim e descreveu, em
minúcias, "de como é preciso puxar a saliva e preparar um grande cuspe gordo
e molengo". A garotinha não estava muito interessada. Esperava uma linha de
ônibus que só passava às quartas-feiras, e ainda era sábado.
O cientista achava essencial ensiná-la a sutil e milenar arte de produzir perdigotos.
A menina suspirava e remexia um monte de graminhas no chão, papéis de bala,
tocos de cigarro e pedras, sempre do alto de suas indiferentes cócoras. O antropólogo,
já meio desesperado, conseguiu apoiar-se sob os calcanhares por um instante
e tentou convencer a menina a cuspir. Ela tinha a garganta infeccionada, cheia
de gominha de catarro, mas o assunto não a apetecia. Tenso, ele acabou sentando
na calçada molhada, pois não conseguia ficar naquela posição de índio. Precisava
de um transplante de cócoras, talvez. Crianças fazem isso naturalmente, pensou,
então ele dividiu as sociedades e as meninas em dois grandes grupos: os que
acocoram-se e os que têm cadeiras, os que descansam naturalmente e os que usam
pufe. Há ainda os cubanos, que não têm assento de privada; as mulheres, que
pairam como beija-flores pra fazer xixi; e os campistas e chineses, ou campistas
chineses, que fazem suas coisas em cima de grandes buracos. Depois jogam tudo
nas plantações de eucalipto.
Após estas observações, percebeu que a criancinha ainda estava ali, e dizia
algo como "eu quero o meu macaco". O meu macaco, eu quero o meu macaco, ela
não parava de repetir. Descobriu que a menina tinha perdido seu pequeno primata
de pelúcia, e precisava de outro. Queria, também, comprar uma bicicleta.
O meu macaco. Num acesso de genialidade, o antropólogo ofereceu-lhe vinte centavos
por cusparada. Descontados os impostos. A garota levantou, finalmente, os olhos
gigantes, ameaçou um sorriso e exclamou: "eu quero o meu macaco".
Foi a primeira da aldeia a saber cuspir.
:: ADENDOS ::
Devolvam o meu macaco.
Esta edição está lamentável (pelo menos agora temos desculpa) devido a uma circunstância trágica: no último 18 de agosto, após uma série de atos hediondos e moralmente intoleráveis, roubaram o meu macaco. Desde então, alimento-me apenas aos sábados, passo noites cultivando minha flunfa umbilical e abandonei, de forma definitiva, a arte sublime da piscicultura. Gostaria, se possível, que devolvessem o meu macaco. Mui agradecida.
:: COUVE-FLOR
::
por Manoel de Barros
Prego é uma coisa indiscutível.
:: OS QUE PASSAM POR NÓS CORRENDO
::
por F. Kafka, em "A Contemplação"
Quando se vai passear à noite por uma rua e um homem já visível de longe – pois a rua sobe à nossa frente e faz lua cheia – corre em nossa direção, nós não vamos agarrá-lo mesmo que ele seja fraco e esfarrapado, mesmo que alguém corra atrás dele gritando, mas vamos deixar que ele continue correndo.
Pois é noite e não podemos fazer nada se a rua se eleva à nossa frente na lua cheia e além disso talvez esses dois tenham organizado a perseguição para se divertirem, talvez ambos persigam um terceiro, talvez o primeiro seja perseguido inocentemente, talvez o segundo queira matar e nós nos tornássemos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada um só corra por conta própria para sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E finalmente – não temos o direito de estar cansados, não bebemos tanto vinho? Estamos contentes por não ver mais nem o segundo homem.
:: HISTÓRIA DO RATO DO CAMPO ::
por Lewis Carroll
- Sim, por favor! – implorou Alice.
- E seja rápido – acrescentou o Chapeleiro -, senão você dorme de novo antes de acabar.
- E de que viviam? – perguntou Alice, que estava sempre interessada em questões de comer e beber.
- Viviam de melado – respondeu o Rato do Campo, depois de alguns minutos de reflexão.
- Não pode ser – observou Alice com gentileza. – Teriam ficado doentes, entende?
- E ficaram – disse o Leirão. - Muito doentes.
Alice tentou imaginar esse extraordinário modo de vida, mas ficou bastante confusa. Continuou, pois, a perguntar: - Mas por que viviam no fundo de um poço?
- Aceita um pouco mais de chá – disse a Lebre de Março com ar muito compenetrado.
- Não tomei nenhuma ainda – replicou Alice com ar ofendido. – Então como é que posso tomar mais?
- Você quer dizer que não pode tomar menos – observou o Chapeleiro. – É bem mais fácil tomar mais do que tomar nada.
- Ninguém pediu sua opinião – disse Alice.
- E agora, quem é que está fazendo comentários pessoais? - perguntou o Chapeleiro com ar de triunfo.
----- Original Message -----
> > From: "Ouvidoria do Metrô" <ouvidoria@metrosp.com.br>
> > To: vanessa
> > Sent: Monday, August 26, 2002 1:15 PM
> > Senhora Vanessa,
> > Agradecemos sua comunicação e estamos alertando nossos operadores
de trens para tomarem cuidado com relação à
> > concordância verbal em nossos avisos sonoros.
:: NOTURNO ::
por Marcelo Coelho
É com essa sensação, portanto, que cada um se afasta do quarto coletivo e encontra solidariedade no alívio covarde de todos os que, deixando o hospital, recuperam suas crianças, reencontram nelas a simplicidade canina da vida, que gritam e que riem, e atacam-se na convivência com o resto e consigo mesmas; reencontro geral. Deixam-se os moribundos entregues à tarefa extrema de serem eles mesmos, de manter um mínimo de passado na desgraça, no egoísmo compartilhado de um quarto de hospital do Inamps, quarto onde todos, pouco a pouco, morrem do lado porque se trata, imagem de um destino, de hospital do Inamps que coletiviza a morte e que, indiferente, morrendo ele próprio, como nunca é demais dizer, entrega-nos a uma mesma miséria e a um mesmo medo.
Assim o seu esforço, de moribundos, é o de não se igualarem nunca. Mantêm, quando tudo já está perdido, a fisionomia, o amor-próprio, os direitos, a honra, o seu estilo de estar no mundo, um último sinal longínquo deles mesmos, como uma luz que dissesse, de tempos em tempos, estou aqui, e você, fique mais um pouco, tudo vai bem, a ordem a que me acostumo não é má neste hospital, a gente se habitua, os dias passam enquanto eu vivo, não vá, não vá, os olhos pedem mutuamente, mas sempre se diz adeus.
:: SOBRE O
NADA ::
por Manoel de Barros
Apenas de mês em mês aparecia uma
carreta de mascate, puxada por 4 juntas de bois no fim daquele lugar. Levava
caramelos, bolachinhas, pentes, argolas para laço, extrato Micravel, peças
de algodoin para fazer saia branca, filó de mosqueteiro, vidros de arnica
para curar machucaduras, brincos de peschibeque, - essas coisinhas sem santidade...
Nossa mãe comprava arnica e bolachinhas.
Dona Maria, mulher do Lara, comprava brincos
e extrato Micravel.
Meu avô abastecia o abandono.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento
longínquo de coisa esquecida na terra –
Como um lápis numa península.
:: DICIONÁRIO DAS
IDÉIAS FEITAS ::
por Gustave Flaubert, em Bouvard e Péchuchet
Frontispício -- Lugar excelente para os grandes homens.
Funcionário -- Inspira respeito, qualquer que seja a função que exerça.
Fatura -- Sempre muito alta.
Faisão -- Muito chique num jantar.
Feudalismo -- Não ter a respeito nenhuma idéia precisa, mas indignar-se contra.
Febre -- Prova de sangue forte. -- É causada pelas ameixas.
Fundamento -- Todas as notícias não têm fundamento.
Fronte -- Larga e calva é sinal de talento.
Frisar -- Em se tratando de cabelos, não convém ao homem.
Fulminar -- Belo verbo.
Fulminações do Vaticano -- Rir-se delas.
:: RASCUNHO ::
por Rodrigo Savazoni, publicado em http://emcrise.blogspot.com
São Paulo. O céu submerso em
prédios. Homens e mulheres, quais coelhos de Alice, correndo pelas ruas com
rumo e horário certos.
A pobreza se dissipa em São Paulo. Tão burguesa! E
a sensação que tenho é a de que estou mergulhado numa cidade infinita.
São Paulo e seus segredos,
...Seu vestido de néon
...Seu tailleur parisiense
...Seu modelito de Faoze Haten
Seu vestido de chita, seu pé descalço;
Inflamado;
Putrefato;
Vivo na Avenida Paulista. Limiar da decadência.
De um lado, prostitutas, velhas
bichas, botequins nordestinos, carcamanos, arcaicas cantinas, teatros em reforma
perene, sarjetas, Dom Orione, Brigadeiro rumo ao centro, Praça Roosevelt.
Era por ali, ao lado da escadaria, pertinho do Ruth Escobar, que me disseram,
o pessoal ia beber no Garufas. O Geraldinho da Jerupinga, o Amigo Gianotti.
O desejo de pobreza do que restou de esquerda; o desejo de riqueza dos que
vivem nos cortiços. O Bixiga é um cortiço. São Paulo é uma gambiarra.
Do outro lado, o jardim. Ou,
ainda: os jardins! Onde vive a prefeita. Apartamentos de mil metros quadrados
com maçanetas douradas, provavelmente banhadas em ouro. Quadros de Portinari,
chãos e escadarias em mármore.
Restaurantes requintados;
Refinados;
Concorridos;
Caros e empertigados.
Michês, artistas, boêmios (esses transitam pelos dois lados) povoam a ala nobre da Paulista. Figueira Rubayat, Ritz, Supremo, Balcão, Roane, Casa do padeiro, gays, lésbicas e simpatizantes. Na Consolação, os meninos e as meninas recitam Verlaine. Vomitam trechos de Dorian Gray. Ouvem música pop inglesa produzida por computadores. E dançam, em ecstasy.
São Paulo. Meu São Paulo. São Paulo ainda me surpreende quando garoa. São Paulo, gigante e morta, que rasteja pululante rumo à modernidade.
Em São Paulo, me sinto perdido a três quarteirões de minha casa.
:: UM CIENTISTA QUE CATA PULGAS
::
A Reader´s Digest dá
o tom, nós completamos as matérias.
A seção da Reader´s Digest está suspensa até decisão em contrário, ou até que alguém compre este monte de revistas inúteis por 3 coxinhas e 1 passe.
:: SUGESTÕES PARA
ATRAVESSAR AGOSTO ::
por Caio Fernando Abreu, em 6 de agosto de 1985 no Estado
e em http://caio.itgo.com/fram_ind.htm
Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro -- e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros angúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções- úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor
seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu
- sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon
Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o
seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites
de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto
do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros,
juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E
beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques -tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire , a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdo e o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.
:: LINKS DISPENSÁVEIS PARA CRIATURAS OCUPADAS ::
endereços importantes, ou nem tanto
??? Por que as nossas cabeças são feitas de chocolate?
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
!!DAMN!! Zine - o zine das coisas que foram, das coisas que são o que são, das que não são o que não são e das que poderiam vir a ser o que não foram. Perfeito para forrar o chão de barracas fajutas e para embrulhar mortadela. Parceiro do tablóide norte-americano "O Sol da Meia Noite", mas não olhe pra trás porque tem um fauno fritando ervilhas nas suas omoplatas.
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
::: www.damnzine.hpg.com.br :::
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