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:: OLHOS PARADOS ::
por Manoel de Barros
"...E agora estava ali, muito perdidamente lembrando coisas bobas de sua pequena vida."
:: O PASSAGEIRO ::
por F. Kafka, em "A Contemplação"
Estou em pé na plataforma do bonde elétrico e totalmente inseguro em relação à minha posição neste mundo, nesta cidade, na minha família. Nem de passagem eu seria capaz de apontar as reivindicações que poderia fazer, com direito, na direção que fosse. Não posso de modo algum sustentar que estou nesta plataforma, que me seguro nesta alça, que me deixo transportar por esse bonde, que as pessoas se desviam dele ou andam calmamente ou param diante das vitrines. É claro que ninguém exige disso de mim, mas dá no mesmo.
O bonde se aproxima de uma parada, uma jovem se coloca perto dos degraus pronta para descer. Aparece tão nítida para mim que é como se eu a tivesse apalpado. Está vestida de preto, as pregas da saia quase não se movem, a blusa é justa e tem uma gola der renda branca fina, ela mantém a mão esquerda espalmada na parede do bonde e a sombrinha da mão direita se apóia no penúltimo degrau mais alto. Seu rosto é moreno, o nariz levemente amassado dos lados termina redondo e largo. Ela tem cabelos castanhos fartos e pelinhos esvoaçando na têmpora direita. Sua orelha pequena é bem ajustada, mas por estar próximo eu vejo toda a parte de trás da concha direita e a sombra da base.
Naquela ocasião eu me perguntei: como é que ela não está espantada consigo mesma, conserva a boca fechada e não diz coisas desse tipo?
:: PIOR DAS OPÇÕES ::
citado pelo Felipe, do Quino
¿Por qué justo a mi tenía que tocarme ser yo?
:: POÇO DE MELADO ::
por Lewis Carroll
- Um, hein? – disse o Rato do Campo indignado. Mas concordou em continuar: - E assim as três irmãzinhas... elas estavam aprendendo a extrair, compreende?
- Extrair o quê? – perguntou Alice, esquecendo-se totalmente da sua promessa.
- Melado – respondeu o Rato do Campo, desta vez sem pensar nada.
Preciso de uma xícara limpa – interrompeu o Chapeleiro. – Avancemos todos um lugar.
Gentil pastor:Na qualidade de membro da familia inglesa que há pouco tempo o visitou, com a finalidade de alugar uma propriedade para o próximo verão, tendo em vista que esquecemo-nos de um detalhe, muito lhe agradeceríamos se nos pudesse informar onde é que se encontra o W.C.
Gentil senhor:Recebi sua carta e tenho o prazer de comunicar-lhe que o local a que se referem fica a 3km da casa, o que é muito cômodo, sobretudo para quem tem o hábito de ir lá com freqüência. Nesse caso, é preferível levar comida e por lá ficar o dia todo. Alguns vão a pé, outros vão a cavalo e outros de bicicleta.Há lugar para 400 pessoas sentadas e 100 em pé. O ar é condicionado, para evitar inconvenientes de aglomeração. Os assentos são de veludo. Recomenda-se chegar cedo para arrumar um lugar sentado. As crianças sentam-se ao lado dos adultos e todos cantam em côro.Na entrada é fornecida uma folha de papel para cada pessoa, mas se alguém chegar depois da distribuição poderá usar a folha do vizinho ao lado. Tal folha deve ser devolvida na saída, para ser usada durante o mês inteiro.Existem amplificadores de som, tudo o que se recolhe é distribuído entre as crianças pobres da região. Fotógrafos habilitados tiram fotos para os jornais da cidade, de modo que todos possam ver seus semelhantes no cumprimento desse dever humano.Assinado,O Pastor.
:: FALTA ::
por Alisson Villa, bucolico@hotmail.com
Sentou-se na mesa. O bar estava fechado há dois anos; assim mesmo lhe serviram uma cerveja. Tomou um gole. Cuspiu a bebida no chão. Estava quente. Não havia garçom para reclamar, assim como não havia cerveja. Para seu alivio existia chão, mas o que cuspira era sangue. Fingiu um sorriso, pois não sabia que em suas veias já cortadas corria tal líquido. Feliz, sapateou sobre a poça vermelha. Como não calçava sapatos, teve nojo ao perceber que sujava os pés com o sangue de um rato morto. Bem desconfiava que o sangue não poderia ser seu. Pensou em fritar o animal. Não usou o fogão que atinava existir na cozinha daquele estabelecimento e serviu o rato ainda quente. Legumes acompanhavam, fazendo-o desistir do prato, tamanha era sua repugnância por cenouras. Sorte do rato, que pôde voltar a sangrar no chão.
- Devo, então, ignorar o que dizem? – perguntou ao amigo que não sentava à sua frente, o que, de certa forma, era um alívio, pois na verdade nada havia dito.
- Pelo contrário. É preciso seguir à risca todas as recomendações alheias.
A resposta do amigo o irritou consideravelmente, pois nenhum conselho pode ser seguido quando lhe faltam as duas orelhas. Achou oportuno, portanto, voltar à solidão. Condição essa, aliás, que nunca o abandonou.
Pediu outra cerveja usando a linguagem dos surdos-mudos, pois a língua, apesar de girar com certa destreza dentro da boca, não executava som algum. Nada reverberava, nem mesmo na linguagem de outros animais como os símios, aves, répteis, quanto menos na dos hominídeos. Para seu suspiroso alívio, a comunicação funcionara e uma cerveja, dessa vez gelada, foi servida em sua mesa.
No entanto, os copos estavam
todos despedaçados em pequenos cacos. Não teve dúvidas: embebeu-os de cerveja
e colocou boca adentro. Não pôde mastigá-los, pois os dentes despencaram no
último sonho que teve, o que levou seu analista colocar a mão no queixo e perguntar
em tom sombrio se ele pensava muito na morte. Pois engoliu os cacos a seco,
feliz com o dinheiro que estava economizando em tira-gos
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Se continuasse a poupar nesse ritmo, logo teria algum trocado no bolso, ao invés de pequenos papeis em branco. Papéis esses que eram utilizados para anotar poesias que sempre esquecia, pois as que lembrava não precisavam ser anotadas.
Certa vez, ao lembrar de um poema não anotado, colocou-se a rasgar rapidamente o branco papel correspondente à não anotação. O poema dizia:
Na certa não são todos
(poetas tolos)
a matar a mãe numa tarde ensolarada.
Na certa preferem, sonsos,
o lugar comum de uma manhã nublada.
Finalmente pediu a conta. A boca amargou repentinamente, como se descobrisse, em farta mordida, uma folha de boldo em meio a um pedaço de lasanha. A quantia discriminada era muito alta. Não saberia como pagar. Primeiro porque não existia conta, segundo porque não havia para quem pagar. Terceiro porque ainda não economizara o bastante comendo cacos de vidros. E quarto porque, na verdade, não consumira nada.
Decidiu, então, deixar alguns papéis em branco sobre a mesa, na esperança de que um lírico garçom lembrasse os versos e aceitasse-os como pagamento. Levantou-se da cadeira onde nunca havia sentado. Caminhou alguns passos até a porta, escutando ao fundo alguém a declamar poemas sobre vasos floridos. Não poderiam ser os seus, detestava os parnasianos.
Cruzou a porta de saída, entrando novamente no mesmo bar.
:: DICIONÁRIO DAS
IDÉIAS FEITAS ::
por Gustave Flaubert, em Bouvard e Péchuchet
Gendarmes -- Escudos da sociedade.
Glória -- Um pouco de fumaça, nada mais.
Gordo -- As pessoas gordas não precisam aprender a nadar.
Gozar -- Palavra obscena.
Hebreu -- Hebreu é tudo aquilo que não se entende.
Hipócrates -- Deve-se sempre citá-lo em latim, porque ele escrevia em grego.
Hieróglifos -- Antiga linguagem dos egípcios, inventada pelos sacerdotes para ocultar os seus segredos criminosos. -- E dizer que há pessoas que os entendem! -- No fim das contas, talvez seja uma pilhéria.
Horizontes -- Achar belos os da natureza e sombrios os da política.
Hipoteca -- Pedir a "reforma do regime hipotecário" é muito chique.
Hérnia -- Todo mundo tem sem saber.
Homero -- Nunca existiu. -- Célebre pela sua maneira de rir: um riso homérico.
:: POÇO DE MELADO -
PARTE II::
por Lewis Carroll
O Rato do Campo tinha fechado os olhos, a essa altura, e começara a cochilar; mas, ao ser beliscado pelo Chapeleiro, deu um gritinho agudo e continuou: -... tudo que começa com M, coisas como os maus-olhados, a meia-lua, a memória, a magnitude... sabe? como quando se diz "um evento de tal magnitude"... já imaginaram uma coisa como a extração da magnitude?
- Realmente, agora que você está me perguntando – disse Alice, já muito confusa – não sei bem dizer se...
Essa grosseria passava dos limites para Alice: levantou-se muito desgostosa e foi se afastando dali. O Rato do Campo adormeceu imediatamente, e nenhum dos outros dois prestou a mínima atenção à sua saída, embora ela olhasse para trás umas duas vezes, meio esperançosa de que eles a chamassem de volta: a última vez que os viu, estavam tentando enfiar o Rato do Campo dentro do bule de chá.
:: TRISTE NOTÍCIA ::
por Marina e Marcos
Nem só de notícias felizes é feito o mundo.
É com grande tristeza que lhes envio essa péssima notícia:
Nesta madrugada aconteceu uma grande tragédia: Um caminhão da Yakult capotou na BR-116, entre Caratinga e Vespasiano, e mais de 16 bilhões de lactobacilos vivos... morreram.
Vamos fazer um minuto de silêncio em memória dos pobres lactobacilos.
:: O MILAGRE DAS JARDINEIRAS
FLORIDAS ::
A Reader´s Digest dá
o tom, nós completamos as matérias.
Certo dia, numa pradaria distante, um irlandês melancólico cultivava sua jardineira.
Dividia seu ínfimo espaço de terra em diversas camadas de cores: o canto das margaridas, das rosas vermelhas, dos crisântemos e das violetas, isso sem contar no espaço do girassol enorme, que nascia sorridente na outra ponta. O irlandês não entendia bolhufas de botânica e, portanto, não sabia que tudo aquilo era impossível. Assim, continuou cultivando suas pequenas daquele jeito mesmo.
Certo dia, os vizinhos bateram-lhe à porta. A crise econômica tinha chegado à Irlanda, mesmo isto aqui sendo uma fábula e as complicações financeiras não atingirem tais mundos; todos estavam famintos e apenas o moço possuía uma faixa de terra para trabalhar. E cultivava flores. Dessa maneira, os vizinhos pediam, polidamente, para que o irlandês arrancasse suas flores e começasse a organizar uma pequena horta.
Tomado por um acesso de fúria e paternalismo desenfreado, ele ficou possesso e teve medo que suas flores ouvissem. Expulsou todos os cidadãos de sua casa e amaldiçoou os antepassados deles, dos animais de estimação deles e até de suas cômodas de cerejeira e armários de mogno. Pôs-se a olhar suas queridas flores, com a barriga vazia e o coração saltitante, dizendo-lhes palavras doces e entoando canções antigas para que fossem dormir em paz.
Então, no dia seguinte, ali mesmo, nasceram dezenas de suculentas batatas. Era um milagre.
O irlandês colheu-as todas e colocou-as numa grande cesta, para oferecer aos vizinhos e fazer as pazes. Nesse mesmo instante, contudo, veio a impiedosa neve, prendeu sua patinha e matou todas as flores. Sem pernas mas ainda vivo, apanhou a cesta de batatas, mas dentro dela havia apenas dálias. Então o irlandês (que não conhecia a oração da Formiguinha) morreu ali mesmo, para desespero do editor da revista, que terá que encontrar uma moral para esta história.
:: VOCÊ PERGUNTA, NÓS NÃO DAMOS A MÍNIMA
::
Questionamentos sadios de uma sociedade doente.
??? O que você faria se estivesse carregando um torrão de açúcar e começasse a chover? (Alisson, BH)
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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Se você está lendo isto é porque entrou num vórtex paralelo e precisa de ajuda. Se não está lendo isto, é porque você provavelmente não existe, e, por conta disso, tem coisas melhores com que se preocupar. (existir, por exemplo)