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!!DAMN!! Zine
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A câmera se aproxima de uma loja de eletrodomésticos, onde televisões ligadas se confundem desordenadamente, em imagens intermináveis e piscantes. Em um dos aparelhos, mostra-se uma casa, dentro da casa uma sala, e, dentro dela, uma mulher a assistir TV. Ela encara, de maneira amorfa e patética, a imagem de uma senhora, de vestido branco e bochechas gordas, também a assistir TV. Vê, obviamente, a imagem de uma outra moça, que encara outra, e mais outra, e assim sucessivamente, até o infinito da sala, da loja de eletrodomésticos ou deste parágrafo.
Nascemos, por obra e bênção de alguém sarcástico, e já fazemos parte de um mundo pronto, sem que precisemos moldá-lo em barro, montar as peças ou esperar 3 minutos com a fervura. Sem preocupações, rugas ou raízes brancas.
Nosso único dever é abrir os olhos e arranjar um controle remoto. Do sofá, cumprimentamos as coisas, que reverenciam a si mesmas e continuam sempre iguais, piscando de vez em quando por causa das interferências externas, e captando um canal pré-determinado, insuportavelmente repetitivo e enfadonho.
A vida que temos é semelhante a um curta-metragem animado, em que certa mulher entra na sala e começa a amassar farinha para fazer pizza. Fazendo sempre o mesmo movimento. Em seguida, uma bola de futebol entra pela janela e um garoto vem buscá-la. Sai. A bola surge novamente, o menino entra, todas as vezes do mesmo jeito. Em seguida, é a vez de um moço aparecer na porta, apanhar uma mochila e sair. Entra, pega a mochila de novo e sai. Enquanto isso, o garoto e a mulher executam seus devidos movimentos, repetitivamente. Um trapezista surge, do canto da tela, com um monociclo, e passeia em círculos. O garoto pega a bola, a moça faz sua pizza, o homem abre a porta, pega a mochila e sai. Nenhum interfere no movimento do outro, e as coisas se repetem até que a sala esteja tomada de criaturas executando ações bizarras e automáticas, sempre igual, sempre igual, sempre.
Vivemos dentro de nossos ovos, protegendo-nos de trombadas com os outros e de ações diferentes e discrepantes da orquestração à nossa volta. Herman Hesse dizia que é preciso destruir a casca que nos envolve, para podermos nascer e voar, afofando nossos narizes nas nuvens e (invariavelmente) depenando-nos nas turbinas dos aviões. Seria preciso desafiar o mundo, sair da caixa de ovos onde fomos criados, libertar-se dos outros e de nós mesmos, para fazer sozinhos o que eles não têm coragem de realizar, juntos. Assim nascemos: quando olhamos para as coisas com estranheza e percebemos – diabos – que não somos daqui. Nossos movimentos, então, serão incomuns, insólitos e despropositais, o sorriso não será mera contração de músculos e a mulher lançará sua massa de farinha bem na testa do trapezista bobo, causando pânico, euforia e uma sessão adicional de psicanálise entre os presentes.
Julio Cortázar nos conta a história de um aquário, onde os peixes já não batiam seus narizes no vidro, pois sabiam que seria inútil e doloroso. Certo dia, sob circunstâncias que fogem ao nosso propósito, alguém retirou a parede do aquário e deixou os peixes nadarem pra longe. De qualquer modo, todos permaneceram naquele diminuto espaço, satisfeitos com o cubículo habitual e com o gosto da ração de queijo. As pessoas já não querem mais se arriscar ou estourar suas bolhas, com medo de ficarem sozinhas ou estatelar o nariz em coisas desagradáveis. Continuam alheias como peixes, a fazer movimentos repetitivos com a boca e a brincar com as ervinhas do aquário, sempre iguais, olhando apaticamente através da água turva o que existe além do vidro e de seus próprios narizes.
:: PROTOCOLO VEGETAL ::
por Manoel de Barros
1. Trata do episódio que veio a possibilitar a descoberta de um caderno de poemas.
Prenderam na rua um homem que entrara na prática do limo.
Lista dos objetos apreendidos no armário gavetas buracos de parede, pela ordem: 3 bobinas enferrujadas 1 rolo de barbante 8 armações de guarda-chuva 1 boi de pau 1 lavadeira renga de zinco (escultura inacabada) 1 rosto de boneca - metade carbonizado - onde se achava pregado em caracol com a sua semente viva 3 correntes de latão 1 caixa de papelão contendo pregos ruelas zíperes e diversas cascas de cigarras estouradas no verão 1 caneco de beber água 1 boneco de pano de 50 centímetros de altura com inscrição nas costas "O FANTASMA DE OLHOS COSTURADOS" 2 senhoras da zona (esculturas em mangue) 29 folhas de caderno com escritos variados sob os títulos abaixo:
a) 29 escritos para conhecimento do chão através de S. Francisco
de Assis
b) protocolo vegetal
c) retrato do artista quando coisa
d) a criatura sem o criador
e) você é um homem ou um abridor de lata?
mais os seguintes pertences de uso pessoa:
o pneu o pente
o chapéu a muleta
o relógio de pulso
a caneta o suspensório
o capote a bicicleta
o garfo a corda de enforcar
o livro maldito a máquina
o amuleto o bilboquê
o abridor de lata o escapulário
o anel o travesseiro
o sapo seco a bengala
o sabugo o botão
o menino tocador de urubu
o retrato da esposa na janela
e a tela.
:: P.S. DO
NOME DA ROSA ::
por Umberto Eco
Escrevi um romance porque me deu vontade. Creio que seja uma razão suficiente para alguém pôr-se a narrar. O homem é um animal fabulador por natureza. Comecei a escrever em março de 1978, movido por uma idéia seminal: eu tinha vontade de envenenar um monge.
:: O ÚLTIMO
BRAGANÇA E O PRIMEIRO SILVA ::
por Luis Fernando Verissimo,
30 janeiro 2002, O Estado de S. Paulo
O governo Éfe Agá acabou com a Era Vargas, na sua própria avaliação.
ps do Damn: sobre o mesmo assunto, ler entrevista com Antonio Candido em http://www.lula.org.br/noticias/not_int.asp?not_cod=179&sis_cod=38
:: INSTRUÇÕES ::
contidas na embalagem do cartucho de tinta Epson
Atenção: Mantenha fora do alcance de crianças e não beba.
:: GÊNESE ::
para quem não se lembra, o zine começou com esta simplória notinha.
Quando a NASA iniciou o lançamento de astronautas, descobriram que as canetas não funcionariam com gravidade zero. Para resolver este problema, contrataram a Andersen Consulting (hoje Accenture). Empregaram uma década e 12 milhões de dólares desenvolvendo uma caneta que escrevesse com gravidade zero, ao contrário e de ponta cabeça, debaixo d'água, em praticamente qualquer superfície, incluindo cristal e em variacões de temperatura desde abaixo de 0 até mais de 300 Celsius...
Os russos utilizaram um lápis.
:: RECEITA DE MULHER ::
Millôr Fernandes
Os olhos sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto
A da terra. (Vinícius de Moraes)
O seu semblante, redondo
Sobrancelhas arqueadas
Negros e finos cabelos
Carnes de neve formadas. (Thomaz Antônio Gonzaga)
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos.
(Gonçalves Dias)
Verde carne, tranças verdes. (Garcia Lorca)
Lábios rubros de encanto
Somente para o beijo. (Junqueira Freire)
A sua língua, pétala de chama. (Cândido Guerreiro)
Nos lobos das orelhas
Pingentes de prata. (Gonçalves Crespo)
Mão branca, mão macia, suave e cetinosa
Com unhas cor de aurora e luz do meio
dia
Nas hastes cor-de-rosa. (Luiz
Delfino)
Os braços frouxos, palpitante o seio. (Casimiro de Abreu)
O dorso aveludado, elétrico, felino
Porejando um vapor aromático e
fino. (Castro Alves)
Seu corpo tenha a embriaguez dos vícios.
(Cruz e Souza)
Com mil fragrâncias sutis
Fervendo em suas veias
Derramando no ar uma preguiça morna. (Teófilo Dias)
Nádegas é importantíssimo
Gravíssimo porém é o problema das saboneteiras
Uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. (Vinícius
de Moraes)
As curvas juvenis
Frescas de ondulações de forma florescente
Imprimindo nas roupas um contorno
eloqüente. (Álvares de Azevedo)
Qualquer coisa que venha de ânsias ainda incertas
Como uma ave que acorda e, inda mal
acordada,
Move, numa tonteira, as asas entreabertas.
(Amadeu Amaral)
De longe, como Mondrians
Em reproduções de revistas
Ela só mostre a indiferente
Perfeição da geometria. (João Cabral de M.
Neto)
Que no verão seja assaltada por uma
Remota vontade de miar. (Rubem
Braga)
A graça da raça espanhola
A chispa do Touro Miura
Tudo que um homem namora
Tudo que um homem procura. (Paulo Gomide)
E todo o conjunto deve exprimir a inquietação e espera. Espera, eu disse? Então vou indo, que senão, me atraso!
* Vinícius que me perdoe plagiá-lo. Mas beleza é fundamental. (M.F.)
Beijo pouco, falo menos
ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura
mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o
verbo
teadorar.
Intransitivo:
Te adoro, Teodora.
:: INCENTIVO À PESQUISA ::
no Pasquim de agosto de 1978
Os brasileiros foram os primeiros a doar, em massa, com vida e sem o saberem, seus corpos às ciências políticas, econômica e social.
:: DICIONÁRIO DAS IDÉIAS FEITAS ::
por Gustave Flaubert, em Bouvard e Péchuchet
Ideal -- Inteiramente inútil.
Imperialistas -- Todos gente honesta, pacífica, polida, distinta.
Ímpio -- Combatê-lo.
Importação -- Verme que rói o comércio.
Imaginação -- Sempre vivaz. -- Desconfiar dela. -- Depreciá-la nos outros.
Indolência -- Resultado dos países quentes.
Indústria -- (Vide Comércio).
Infinitesimal -- Não se sabe o que é, mas relaciona-se com a homeopatia.
Inatas (Idéias) -- Troçar delas.
Inovação -- Sempre perigosa.
Inscrição -- Toda inscrição é cuneiforme.
Introdução -- Palavra obscena.
Italianos -- Todos músicos e traidores.
Ingleses -- Todos ricos.
Inglesas -- Espantar-se de que tenham filhos lindos.
:: METAFÍSICA DO MACACO ::
por V., coitadinha
O gênero humano pode ser explicado através
de um único ângulo: os adultos são crianças a quem lhes foi tirado o macaco.
Sem metáforas evolucionistas. O que você faria se alguém olhasse pra você,
te sentasse numa cadeirinha alta (com os pés balançando) e tirasse o seu macaco?
São adultos os que ficam apenas olhando, placidamente, sem abrir o berreiro,
dar pontapés no próximo ou babar na mesa. São adultos os que crescem, alcançam
o chão e pedem, de maneira socialmente polida, por obséquio, poderia devolver-me
o macaco?
Não? Tudo bem. Eu compreendo.
São adultos os que nem ligam mais pro macaco, pelo simples fato de serem adultos.
Claro que nessa categoria não se incluem as meninas miúdas ou os macacos
- estes últimos são definidos apenas por serem das crianças, os coitados.
Como os seres que a gente sempre define apenas como não-coisas: meninas nada
mais são do que não-adultos, não-panquecas, não-aftas, não-parágrafos.
Os macacos, nem isso.
Coitados.
:: O MILAGRE DAS JARDINEIRAS FLORIDAS ::
A Reader´s Digest dá
o tom, nós completamos as matérias.
A preguiça corrói as minhas entranhas.
Desculpem.
:: TEORIA ::
Coletado pelo Marcos, num livro teórico
sobre Natação
O melhor método de propulsão é nadar pra frente.
:: CORRESPONDÊNCIA ::
e-mails reais, bisonhos e suspeitíssimos,
interceptados por um inocente nenúfar.
??? É verdade que nossas cabeças são feitas de chocolate?
(Qualquer resposta possível deve terminar com uma sonora dentada, seguida por um "...estúpida."). Fim da piada interna.
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita
hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada
faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. ##
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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Se você está lendo isto é porque entrou num vórtex paralelo e precisa de ajuda. Se não está lendo isto, é porque você provavelmente não existe, e, por conta disso, tem coisas melhores com que se preocupar. (existir, por exemplo)