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!!DAMN!! Zine
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:: SOMOS
CONTAGIOSOS ::
a arte wagneriana de retrucar em
duas palavras
Gomez: Crianças, por que vocês odeiam o bebê?
Feioso: Não odiamos o bebê. Apenas queremos brincar com ele.
Vandinha: Especialmente com a cabeça.
Semear o caos em uma sociedade como a
nossa, planejada para funcionar como um relógio, não é nada difícil. Um
simples grão de areia numa engrenagem, se não acaba com a máquina inteira,
ao menos faz com que tenham de chamar o técnico. Seja para minar os pilares
do capitalismo, seja por simples diversão, aqui vão algumas idéias de como
atrapalhar o bom andamento da ordem e do progresso.
Pichações: Embora uma parte considerável do povo brasileiro não consiga
ler mais do que o próprio nome, mensagens em muros ainda podem tocar um
ou outro coração que só precise daquele empurrãozinho para cair na real.
Infelizmente, o método tem sido desacreditado por desocupados maconheiros,
que só conseguem escrever o próprio nome (ou apelido). As mensagens mais
eficientes são as engraçadas, sarcásticas, irônicas ou cruéis.
Muros e banheiros são muito óbvios, você pode fazer melhor do que isso usando
a criatividade. Ande sempre com um pincel atômico no bolso, em caso de inspiração
repentina. Se depredar propriedade pública ou alheia faz você se sentir
mal, use giz. Isto até sugere umas questões interessantes a respeito da
efemeridade da arte. Um dos meus alvos favoritos para pichações são as notas
de 1 e 5 Reais, em que escrevo frases contra consumismo.
Não-cooperação: As pessoas têm a mania de esperar de você que coopere
no bom andamento das atividades diárias. Mas, sem infringir a lei, pode-se
criar ruído no cotidiano. Alguns funcionários sonolentos talvez até agradeçam
pela quebra na monotonia. Como na procura por locais inusitados para pichar,
aqui vale também a criatividade.
Balconistas do McDonald's são tão fáceis de constranger que quase não tem
graça. Quase. Basta pedir algo que não seja um McMenu, para vê-los como
baratas tontas. Vão ficar olhando como se você fosse um elefante cor-de-rosa,
se pedir só um McFish e um café - e o McFish sem molho! Um requinte de crueldade
seria ficar discutindo se pode trocar a Coca-Cola por um sorvete, ou as
fritas grande por dois Mcnuggets.
Quando for ao banco no horário de pico, com calças cargo e jaqueta, espalhe
objetos metálicos por todos os bolsos e coloque um por um na caixinha do
segurança. Nunca utilize os serviços automáticos. Além de colaborar para
a criação de empregos, você ainda pode engrossar a fila no caixa.
No ônibus, dê sempre a nota mais alta que tiver, ou pague a passagem com
moedas de um centavo. Enfim, deu para pegar o espírito.
Desinformação: Ressaltar a importância social da informação na aurora
do terceiro milênio é absolutamente desnecessário. Necessário é avacalhar
com ela. Modificar ou subtrair placas de trânsito gera situações divertidas.
Só cuide para não fazer algo que possa resultar em feridos. As vítimas certamente
vão se lembrar de poupar emissões de gás carbônico, da próxima vez. Setas
de direcionamento em parques e museus, avisos de "proibido...", as plaquinhas
de sexo na entrada dos banheiros, tudo isso dá caldo para um caos em pequena
escala. Forjar notificações ou memorandos da diretoria de sua universidade
ou empresa, ou ainda distribuir panfletos com os maiores absurdos ridículos
e verdade dolorosas é pura alegria. Sempre, SEMPRE dê informações erradas
para jornalistas.
Demência: Faça de conta que é um imbecil. Escreva cartas e mais cartas
para os jornais, reclamando de não importa o quê. Sentado de frente para
aquela senhora no trem, fique olhando fixamente em seus olhos, até ela começar
a chorar. Peide e arrote em público. Chame os amigos, alugue uma cadeira
de rodas e dê um passeio no Shopping, fingindo ser débil mental. Aproveite
para constranger a burguesia e, quando entrar em qualquer loja, agarre-se
a um produto e não queira largar, por mais que seus amigos argumentem não
ser seu. As vendedoras vão ficar morrendo de pena. Outras opções interessantes
são passar-se por cego, surdo ou mudo. Vá ao centro da cidade com uma bíblia
embaixo do braço e pregue o sermão mais nonsense na galera.
Sabotagem em geral: Aqui a zona já fica um pouco cinzenta entre a
rebeldia saudável e a prevaricação inconsciente. Por melhores que sejam
os objetivos, machucar pessoas ou causar danos materiais a quem não merece
deslegitima qualquer luta. O melhor jeito de sabotar é não destruir nada
irreparavelmente e dar preferência a intervenções que gerem risos ou façam
a vítima refletir sobre o quanto a vida é absurda.
Um dos melhores exemplos de sabotagem neste estilo é o dos sujeitos americanos
que roubaram um anão de jardim na Califórnia e o levaram numa viagem de
carro até Nova Iorque, sempre enviando fotos do desaparecido em pontos turísticos
para a casa de seu dono.
Estragar máquinas dispensadoras de refrigerante, além de um protesto contra
a impessoalidade da economia de mercado, deixa os ex-usuários mais saudáveis.
No supermercado, troque as etiquetas de preço dos produtos por outros mais
baratos. Na saída, esvazie os pneus daquele BMW.
Troque os fundos de tela dos computadores da sua empresa por palavras de
ordem ou fotos nojentas. Vá à locadora com um filme pornô no bolso e troque-o
por A Incrível Fábrica de Chocolate. Compre um gravador de CDs e nunca mais
encha os cofres das gravadoras. Misture ecstasy no café de seu chefe. Sei
lá, pense um pouco sozinho, só para variar.
:: PROTOCOLO VEGETAL ::
por Manoel de Barros
Palavras de Lúcio Ayres Fragoso, professor de Física em São Paulo, compadre do preso, a título de esclarecimento à Polícia.
para começar ninguém jamais garantiu que coisa era aquele bicho
o mal traçado?
o titã dorminhoco?
o irmão desaparecido de Chopin?
o homem de borracha?
conheci-o
em seu escritório
jogando bilboquê
era sempre arrastado para lugares com musgo.
por meio de ser árvore podia adivinhar se a terra era fêmea e
dava sapos
via o mundo como a pequena rã vê a manhã de dentro de uma pedra
pela delicadeza de muitos atos ter se agachado nas ruas para apanhar detritos
-- compreende o restolho
a esse tempo lê Marx
tem mil anos
tudo que vem da terra para ele sabe a lesma
é descoberto dentro de um beco
abraçado no esterco
que vão dinamitar
antes de preso fora atacado por uma depressão mui peculiar que o fizera invadir-se pela indigência: uma depressão tão grande dentro dele como a ervinha rasteira que num terreno baldio cresce por cima de canecos enferrujados pedaços de porta arcos de barril...
era de profissão encantador de palavras
ninguém o reconheceria mais
resíduos de Raskolnikov encardiam sua boca de Pierrô muito comida de tristeza
e sujo.
:: AMANHECER
EM COPACABANA ::
Antonio Maria
Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos, que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.
As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono. O banhista gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.
Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares.
:: ANTI-SALMO POR UM DESHERÓI
::
por Manoel de Barros
a boca a pedra o levara a cacto
a praça o relvava de passarinhos cantando
ele tinha o dom da árvore
ele assumia o peixe em sua solidãoSeu amor o levara a pedra
estava estropiado de árvore e sol
estropiado até a pedra
até o canto
estropiado no seu melhor azul
procurava-se na palavra rebotalho
por cima do lábio era só lenda
comia o ínfimo com farinhao chão viçava no olho
cada pássaro governava sua árvore
Deus ordenara nele a borra
o rosto e os livros com erva
andorinhas enferrujadas.
:: DICIONÁRIO DAS IDÉIAS FEITAS ::
por Gustave Flaubert, em Bouvard e Péchuchet
Jansenismo -- Não se sabe o que é, mas é chique falar a seu respeito.
Jardins ingleses -- Mais simples do que os jardins franceses.
Jujuba -- Não se sabe de que é feita.
Jóquei-Clube -- Os seus membros são todos jovens folgazões e ricos. Dizendo-se simplesmente "o Jóquei", é muito chique e faz crer que somos sócios.
:: CHUVIMÓVEL ::
continuação de Arroz
de Forno
Só não abro os olhos porque enxergo muito mais no silêncio, como uma grande janela de vidro por onde vejo passar filas de carros luminosos, impacientes e mudos, ocupados na vida que jamais terei e que nunca quis; só não acendo a luz porque a imensidão me basta, e não posso encarar a parede branca nem o teto de onde descem meus medos e aranhas. Só não vivo porque estou morto, porque estou indignado com o som que vem de fora e esta falta de chuva que me faz parado, que me faz pequeno e imóvel sempre triste e coberto, cheio de criancinhas com medo a puxar minhas entranhas. Só não grito porque ainda tenho os olhos fechados, e quando grito sempre caio e me ponho a gritar ainda mais só que nunca passa; quando escuto meu suspiro tudo se suspende durante horas enquanto o escuro durar, pois quando vem a luz da janela, ou o som de gatos tentando entrar pela fresta da parede, eu me jogo dentro de meu próprio cobertor e meu próprio suspiro, e sei que eles logo vêm; eles surgem por todas as partes e me tiram o encantamento modesto e me cobrem de meias e obrigações insuportáveis, mas que sempre suporto. Não deveria.
:: NÃO SEI NADAR ::
a sublime arte de desdenhar com apenas duas
palavras.
(Feioso treina arco-e-flecha na colônia
de férias Chipewa e mata uma sublime águia americana)
Mulher: Oh! Era uma águia americana!
Homem: Elas não estavam extintas?
Vandinha: Agora estão.
:: DORMIR A ESSE PONTO ::
Campos de Carvalho
Dormir a esse ponto, sem ao menos um olho à espreita, como se o teto ou o céu não pudesse desabar a qualquer instante e não houvesse em toda a extensão da terra uma só vítima do câncer ou da injustiça, um só faminto ou um único suicida, nenhuma fábrica de canhões ou nenhuma cadeira elétrica -- convenhamos que é ter mesmo vocação para defunto e nem ter vindo ao mundo para outra coisa, por mais que a Constituição diga o contrário, e o rádio, e a vitrola, e a bula do papa e a dos remédios -- e sobretudo cada um a si mesmo diante do espelho, vestido para o domingo.
:: DICIONÁRIO DAS IDÉIAS FEITAS
::
por Gustave Flaubert, em Bouvard e Péchuchet
Lago -- Ter uma mulher ao lado quando se passeia por ele.
Laconismo -- Língua que não se fala mais.
Latim -- Língua natural do homem. -- Estraga a caligrafia. -- Serve unicamente para ler as inscrições das fontes públicas. -- Desconfiar das citações latinas, pois ocultam sempre algo de licencioso.
Leão -- Animal generoso. -- Brinca sempre com uma bola.
Lince -- Animal célebre pelo seu olho.
Louras -- Mais ardentes do que as morenas (vide Morenas).
Morenas -- São mais ardentes do que as louras (vide Louras).
:: CORRESPONDÊNCIA ::
e-mails reais, bisonhos
e suspeitíssimos, interceptados por um inocente nenúfar.
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NÃO IREI. ::??? No caso de uma guerra nuclear, o eletromagnetismo produzido pelas bombas poderia danificar minhas fitas de vídeo? E meus disquetes? (Demência, Belo Horizonte - MG)
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Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na
maldita hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que
nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque (oinc!) estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. (Be afraid. Be VERY afraid.)##
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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Se você está lendo isto é porque entrou num vórtex paralelo e precisa de ajuda. Se não está lendo isto, é porque você provavelmente não existe, e, por conta disso, tem coisas melhores com que se preocupar. (existir, por exemplo)