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!!DAMN!! ZineNão sei se algum de vocês já acordou, um dia, morrendo de vontade de ser brotoeja.
Não que isto já tenha ocorrido comigo, claro que não, mas vocês hão de convir que pode acontecer com qualquer um - principalmente os canhotos, por algum motivo que me escapa no momento.
Pois digamos que eu tenha acordado hoje pela manhã, querendo ser brotoeja. Redijo, então, um pequeno manual prático de como lidar com o fato de ser uma delas (das gordinhas), para essas emergências que a gente não pode prever.
Capítulo Único
Ser brotoeja requer elegância, e uma certa dose de auto-controle, para não expelir nenhum líquido que não nos seja solicitado. Ser brotoeja é adquirir formas estimulantes, todas bem geométricas, que causem prurido ao serem fervidas ou tocadas. Para ser brotoeja é preciso ter muita humildade, além de aderência e aspecto amarelado, pois uma brotoeja autêntica nunca se preocupa com o que se é, mas com o que se tem por dentro.
Ser brotoeja é nunca tossir em público, porque pega mal. É estar sempre pronta para negociar com as pomadas, oferecendo em troca um tequinho de nhaca e pus, se é que as pomadas realmente apreciam essas coisas. Ser brotoeja é aprender a pulsar, esbranquiçada, principalmente se se estiver bem no centro da testa; é sorrir para as visitas, encarando-as para que nunca tirem os olhos da gente e envergonhem o anfitrião. É ficar pequena quando se tem um pouco de medo, e crescer de maneira abrupta quando ninguém está olhando. Uma brotoeja que se preza nunca sara, nunca some, nunca dorme em serviço. É aquela que subsiste até sem ter onde morar, como um sorriso sem gato, suspensa no éter em meio às borbulhas e as não-coisas, orgulhosa de ser ela mesma - uma senhora brotoeja, a pulsar no nada como se fosse uma estrela, como se nada mais houvesse no mundo senão ser uma brotoeja, sempre inútil, cheia de massa amarela e uma dorzinha incômoda, a existir satisfeita em meio às coisas deste mundo.
Por veredas de sueño y habitaciones sordas
tus rendidos veranos me acechan con sus cantos
Una cifra vigilante y sigilosa
va por los arrabales llamándome y llamándome
pero qué falta, dime, en la tarjeta diminuta
Dónde están tu nombre y tu calle y tu desvelo
si la cifra se mezcla con las letras del sueño
si solamente estás donde ya no te busco
:: INFORMAÇÕES FALSAS ::
por Bárbara Lopes, alguém particularmente doente
Todo mundo viu aquela história de que o governo americano ia plantar notícias no mundo todo pra melhorar a imagem dele e tal. Agora os caras disseram que não vão mais fazer isso. E se for mentira? Aliás, e se a história de plantar notícias tiver sido mentira? Parece aqueles problemas de lógica: Tem uma superpotência que só fala mentiras, mas é a única que tem. Você tem que descobrir com três perguntas quantos agentes da CIA estão infiltrados na Arábia Saudita.
:: QUE BATIAM FEITO LOUCOS ::E posto que se trata de sonhos, quando os tártaros se entregam a sonhos coletivos, matéria paralela à da cidade mas cuidadosamente deslindada porque não ocorreria a ninguém misturar a cidade com os sonhos, o que equivaleria a dizer a vida com a brincadeira, tornam-se de uma puerilidade que repugnaria às pessoas sérias.
Quase sempre quem começa é Polanco: Olha, sonhei que estava numa praça e que achava um coração no chão. Apanhei-o e ele batia, era um coração humano e batia, então eu o levei até uma fonte, lavei-o o melhor possível porque estava cheio de folhas e de poeira, e o entreguei no distrito da rua Abbaye. É absolutamente falso, diz Marrast. Você o lavou mas depois o embrulhou desrespeitosamente num jornal velho e o botou no bolso do paletó. Como é que vai botá-lo no bolso do paletó se estava em mangas de camisa, diz Juan. Eu estava corretamente vestido, diz Polanco, e levei o coração para o distrito e eles me deram um recibo, isso é que foi o mais extraordinário do sonho. Você não o levou, diz Tell, nós vimos quando você entrava em casa e escondia o coração num armário, desses que têm um cadeado de ouro. Imagia só Polanco com um cadeado de ouro, ri grosseiramente Calac. Eu levei o coração para o distrito, diz Polanco. Bem, concorda Nicole, talvez esse fosse o segundo, porque todos nós sabemos que você achou pelo menos dois. Bisbis bisbis, diz Feuille Morte. Pensando bem, diz Polanco, achei uns vinte. Deus de Israel, tinha esquecido a segunda parte do sonho. Você os achou na place Maubert debaixo de um monte de lixo, diz meu paredro, eu vi tudo no café Les Matelots. E todos eles batiam, diz Polanco entusiasmado. Achei vinte corações, vinte e um contando o que eu levei para o distrito, e todos batiam feito loucos. Você não o levou para o distrito, diz Tell, eu vi quando você o escondia no armário. Em todo caso batia, concorda meu paredro. Pode ser, diz Tell, pouco estou me incomodando com o bater. Não há como as mulheres, diz Marrast, que um coração esteja batendo ou não, a única coisa que vêem é um cadeado de ouro. Não vira misógino, diz meu paredro. Toda cidade está coberta de corações, diz Polanco, me lembro muito bem, era estranhíssimo. E pensar que no começo eu só me lembrava de um coração. Por alguma coisa é preciso começar, diz Juan. E todos batiam, diz Polanco. De que lhes podia adiantar, diz Tell.
:: ESMOLA
::
por Alisson Villa
Deu rima a um poeta mendigo,
mas o vagabundo
gastou tudo em textos
teóricos
:: EU E VOCÊ, JUNTOS EM PEDERNEIRAS ::
por Válter Ego, grande pessoa.
Pois te conto uma coisa: eu queria cometer um crime, dos mais absurdos, e ir pra prisão de Pederneiras. E não estou brincando. Dizem que as celas de Pederneiras são maiores que o meu quarto, têm grandes pufes, parede estofada, aquecimento central e computador conectado à Internet (banda larga, por Deus). Na cadeia de Pederneiras, os ovos mexidos têm sabor de hortelã, há uma variedade de oito sucos e vitaminas, presuntos e pães de mel, e nos fins de semana você pode encomendar uma pizza por conta da casa.
Na prisão de Pederneiras há luminárias coloridas e bibelôs de elefantinho. Há um quadro de fotos e um espelho de corpo inteiro, banheiros individuais com tapete felpudo e sabonetinhos minúsculos. A pia é de mármore e os vizinhos de cela emprestam todo tipo de creme e perfumes que você solicitar.
Durante os feriados, os detentos de Pederneiras oferecem bailes belíssimos, prestigiados por toda a sociedade local, quando as garotas vestem cor de rosa e os moços dão-lhes ramalhetes frescos e cestas com frutas e fitas de cetim, para que voltem sempre. Nas festas da Detenção, há sempre os arruaceiros que tentam cometer infrações para poder entrar na cadeia de Pederneiras. Mas o processo de seleção é rigoroso, e a maioria logo desiste.
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Fidípedes é o mais antigo inquilino de Pederneiras. Na rua todos o chamam de Barão e as mocinhas pedem-lhe a benção. Ele organiza as partidas de pôquer das quintas à noite e periodicamente cava túneis enormes com o final na sala do delegado, para que nunca alcance a liberdade por boa conduta e ainda consiga prisão perpétua ou algo assim.
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Quanto à mim, mandei um currículo para Pederneiras há mais de um mês. Eles me disseram que eu precisaria matar alguém a faca antes de comparecer à entrevista, de modo que ando ocupada, cuidando das questões legais. Parece que só posso assassinar um pederneirense, o que me deixa muito triste porque eles são boas pessoas (embora um tanto cabeçudos). Conversei com meu advogado e juntos conseguimos arquitetar um plano suculento, por fim: duelaria com o carteiro, ambos sairíamos feridos, hospitalizados e, com um pouco de sorte, iríamos juntos para a cadeia.
Escolhi um punhal tão bonito que vc tem que ver. O carteiro armou-se de seu estilete de abrir envelopes, como era mesmo de se esperar. Em pouco tempo, eu tinha perdido uma porção de dedos e arrancara a orelha esquerda do cidadão, pedindo-lhe, entretanto, sinceras desculpas e prometendo mantê-la no formol para posteriormente podermos discutir o assunto.
Em Pederneiras, no entanto, as pessoas levam tudo a sério. Inclusive as desculpas. De modo que, infelizmente, fui absolvida (pelo próprio carteiro, tremenda criatura sarcástica), condecorada, querida; ganhei a chave da cidade e logo estava no trem, de volta para São Paulo, sem antes maldizer todos os meus antepassados pela polidez maldita com que me criaram.
:: COMUNICAÇÃO ::
por Bárbara Lopes, em http://b-lo.blogspot.com
Todo mundo pensa em Romeu e Julieta como uma grande tragédia de amor. Eu sempre vi como uma grande tragédia das comunicações. Um terrível mal-entendido. E amar não seria justamente nunca precisa se explicar? Nunca precisar dizer "Não, benzinho, eu não queria me matar. Só estava fingindo para que possamos ser felizes para sempre"? Não que isso costume acontecer com muitas pessoas. Eu, pelo menos, nunca passei por uma situação dessas. Mas eu já marquei encontros e esperei no lugar errado. Não me espanto, portanto, que sejamos tão apegados a pagers, celulares, e-mails, comunicadores instântaneos, bloquinhos de anotação na geladeira... No fundo, estamos apenas esperando um único telefonema, um único e-mail e um único recado na geladeira. É muito triste morrer porque o sistema de telegramas não funcionou.
"sendo um degrau, movimentando o calcanhar, tendo cimento, executando funções vitais, segurando no corrimão, sendo um reles corrimão, batimentos-cardíacos-batimentos-cardíacos, fígado funcionando, sendo um degrau, continuando-a-ser-um-maldito-insignificante-corrimão, filtrando o sangue, oxigênio oxigenando, gás carbônico sendo expelido, sendo um corrimão".... e assim infinitamente: imagina quantas vozes teria o mundo, todas ao mesmo tempo, a gritar tresloucadamente como se fosse a última coisa que fariam no mundo, para depois prosseguir ao infinito, cada uma com sua voz, timbre, entonação, repetindo as mesmas ações, as mesmas falas, as mesmas malditas coisas... pelas minhas barbas, se eu fosse Deus tudo seria TÃO mais divertido. E o mar seria uma grande sopa.
:: O OUTRO BRASIL QUE
VEM AÍ ::
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Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil,
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil,
coragem de morrer pelo Brasil,
ânimo de viver pelo Brasil,
mãos para agir pelo Brasil,
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e
norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.
:: METÁFORA
::
por André Deak.
Coitado
(...) "Por una cabeza": é o título de uma canção de tango, bonita, mas que eu não entendi direito. Aliás, é uma boa metáfora para a forma com que enxergo a vida: bonita, mas não entendo direito.
:: SIM,
COMO HÁ GENTE ESTRANHA POR AQUI ::
:: CORRESPONDÊNCIA
::Constitucionalissimamente,Dagobaldo, supervisor de RH (?)
??? É verdade que vocês mentem, e os escritores de vocês são todos fictícios? (Pedro Le Minsque, Belo Horizonte).
>>>>
Créditos Finais
:: EXPEDIENTE ::
Este Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na
maldita hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que
nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido)
- Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. (Be afraid. Be VERY afraid.) ##
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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ps -- adivinhem quem é o moço da capa
