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!!DAMN!! Zine
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Vejo mares tranqüilos, que
repousam,
Atrás dos olhos das meninas sérias.
Alto e longe elas olham,
mas não ousam
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.
Esta noche
me basta tu silenciosa presencia.
En mi cabeza turbada
tu poesía alumbra mejor que una lámpara
sobre mis círculos de miedo.No me distraigo.Tengo los ojos fijos en la negra ventana.
Pasan camiones con soldados,
gentes de las líneas de fuego.En mi casa resuenan las consignas violetas.
Queridos Marina e Paco
Assim é como viajam os cronópios. Um dia alguém avisa que há um pacote na alfândega. Alguém vai à alfândega e de repente as dificuldades crescem, há que se preencher formulários, declarar que não está contaminado por cólera (o pacote, mas quem é que poderia provar, se pra começar ninguém sabe o que contém o pacote?). Para provar que não há cólera nem uma bomba seria preciso abrir o pacote, mas o pacote não pode ser aberto até que se comprove que não contém micróbios de cólera ou meio quilo de dinamite. Todo mundo grita, chora, xinga, volta no dia seguinte, não volta nunca, isto não é vida. Buscam-se influências, mas Pompidou tem uma reunião no escritório e não pode ir à alfândega abrir pessoalmente o pacote, de maneira que tenho que voltar pra casa e colocar várias almofadas sobre a minha cabeça e uma bolsa de gelo por cima de tudo. Passam-se oito dias, papéis vão e vem, explique porque recebeu um pacote da Suécia / Não tenho a menor idéia / Se não tem a menor idéia, impossível entregar-lhe o pacote / Nesse caso irei às Nações Unidas e à Shell Max, isto não vai ficar assim / Pague cinco francos e preencha esta planilha.
Então Pablo Neruda me telefona para dizer que em Estocolmo o presentearam com um cronópio negro. Está tão contente, Pablo, tão feliz com seu cronópio. Começo a perguntar-me se o pacote, mas a questão da cólera continua de pé e eu não sou nem prêmio Nobel nem embaixador, de maneira que volte amanhã e traga cinco comprovantes de residência, identidade, atestado de saúde, moralidade e bons antecedentes. O comissário do distrito tem pena de mim: faremos um só comprovante com todos os dados juntos, e acrescentaremos no final: Messieurs les douaniers, assez de connerier, ouvrez d'une bonne fois le colis, nom de Dieu, merde alors. [N.T.: Senhores funcionários da alfândega, chega de bobagem, abram de uma vez o pacote, pelo amor de Deus, vão à merda]
E abriram-no, meus queridos, e o cronópio verde estava ali e se matava de rir, olhando-me, e eu o tomei em meus braços e ele imediatamente fez xixi em meu pulôver de cashmere, cronópio desgraçado, e minha amiga Ugné, que estava comigo, apaixonou-se instantaneamente pelo cronópio e ele por ela, e assim o cronópio está em sua casa, aterrorizando a todos e absolutamente feliz, e eu ainda mais.
Isto, talvez, explicará a vocês o atraso com que lhes escrevo, porque assim é como viajam os cronópios e já podem ser vistos os resultados. Obrigado, muito obrigado, dizemos ao mesmo tempo, Ugné, o cronópio e eu. O cronópio adora Paris, está absurdamente verde e muda sempre de lugar. Impossível trazer garotas jovens e bonitas, porque imediatamente ele se acomoda em seus joelhos e é um espetáculo invejável e odioso, a gente se sente totalmente substituído pelo cronópio e ele sabe, e se enrodilha no pescoço da garota e lhe sussurra coisas no ouvido e ela põe-se a ficar muito vermelha e o encontro ganha um ar que lembra os piores capítulos de Sade. Depois o cronópio se apodera do divã mais confortável e dorme de pança pra cima e com um ar de grande felicidade, posto que conseguiu destruir todos os princípios morais que sustentavam a casa.
Nem eu e nem vocês são culpados, os cronópios vivem por sua conta, não resta remédio além de resignar-se. Pra piorar, amamos o cronópio, cuidamos dele e fazemos carinho, é o cúmulo.
Acredito ser meu dever enviar-lhes este
sucinto informe. Imagino o que estará se passando na casa do Neruda, mas não
creio que me atreva a perguntá-lo.
:: (SEM FIM OU SENTIDO) ::
por Mário Quintana
O remédio é cantares cantigas
loucas e sem fim.
Sem fim e sem sentido...
Dessas que a gente inventava para enganar a solidão dos caminhos sem lua.
:: CIDADE DE ANÔNIMOS ::
por Gay Talese, Aos
Olhos da Multidão
Diariamente em Nova York 90.000 pessoas discam WE 6-1212 para saber qual o último boletim meteorológico; 70.000 discam ME 7-1212 para saber as horas e 650.000 discam 411 porque não sabem para onde mais ligar. A telefonista de informações leva cerca de quinze segundos para descobrir o número solicitado e, após procurar cerca de 130 números num período de duas horas, tem quinze minutos de intervalo para fumar e tomar café. Mesmo fora do serviço ela fala des-ta-can-do as sílabas, desejando às vezes deixar de pronunciar os números numa cadência especial. Mas não é fácil.
Se as pessoas resolvessem procurar os
números no catálogo...
Se as pessoas procurassem os números no catálogo seu
trabalho seria muito mais fácil, pensa, ao atirar fora o cigarro e voltar à mesa
telefônica para procurar números para os 4.100.000 telefones de Nova York e os
psicopatas que sofrem de fobia de catálogo, mas que precisam de números,
respostas, ou apenas sentem-se solitários e querem conversar, marcar encontro
com a telefonista e seduzi-la...
Mas não querem procurar números nos catálogos de Manhattan, que têm uma relação de 780.000 nomes, 1.830 páginas, pesa dois quilos e meio e é hoje em dia demasiado espesso para ser rasgado por Charles Atlas ou os "tigres", Vic Tanny que afirmam, aliás, estarem cansados do truque. Quem quer saber dele?
Quem precisa dos 1.795.000 catálogos de Manhattan, impressos todos os anos?
-- Um quarto dos quais perdem-se, são destruídos ou rasgados em Wall Street, atirados pelas janelas dos arranha-céus, junto com passagens de metrô e papel higiênico sobre a cabeça de dignatários a quem oferecem paradas ao longo da Broadway, até City Hall.
-- Os outros três quartos são recolhidos todos os anos por homens que os folheiam, encontrando cartas de amor esquecidas, selos, apólices de seguro, gravatas, dinheiro, e depois os colocam numa barcaça que sobe o Hudson até uma fábrica que os reencarna em papelão para as camisas que saem da lavanderia, caixas de ovos, capas para livros de bolso e outras utilidades para os nova-iorquinos que não querem procurar números.
Hei de levantar a vasta vida
que ainda agora é teu espelho:
cada manhã hei de reconstituí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me aguardavas,
palavras daquele tempo,
eu terei que quebrá-las com minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei minha alma
para que não veja tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e desapiedada?
Tua ausência me rodeia
como a corda à garganta.
O mar no qual se afunda.
:: PATINS, ÍNDIOS E O NOSSO BAR ::
por Don Viktor, Paulo Jimenez e André Deak
Sabe aqueles lugares em que o ar parece
ter um gosto de suco? Um suco que ainda não foi inventado? É algo que fica ali
suspenso, te abraça e deixa tudo mais confortável. Como se os respiros e as
conversas pudessem ser enfiadas em copos e oferecidos a você com uns cubos de
gelo.
O expediente daquela noite já tinha acabado. Num canto, perto de alguns neons
com desenhos eróticos e uma jukebox que só tocava discos de jazz, estava
um grupo de velhos. Todos com 70 pra cima. Casados, viúvos
e desquitados, eles se misturavam com as peças decorativas do bar: pôsters de
gibis raros pendurados atrás do balcão; um tablado ao centro para apresentações
de bandas doo-wops; vitrais com as caricaturas de Castro, Hitchcock,
Nicholson e Garrincha por toda a parede; e um grande índio de madeira perto
do banheiro, segurando uns charutos podres e cheios de significados - Quando
um de nós morrer, ele vai acender um desses e cuspir na cara dos outros que
forem sobrando.
Um bar que já tinha sido muita coisa antes daquela noite: um estúdio musical,
um ateliê, uma redação de jornal, um escritório de viagens. Tudo. Até salão
de barbearia, onde a opereta Barbeiro de Servilha era trilha obrigatória enquanto
atendiam os clientes.
E as conversas então? Cordialidades, problemas amorosos, dúvidas de carreira
e até mesmo estratégias para encobrir um crime, já que àquela altura ninguém
mais se lembrava qual deles havia puxado o gatilho.
Mais uma noite. Especial. Eles não estavam apenas fechando o caixa, ou sonhando
com um novo rumo para o local -Podiamos encher isso aqui com camas elásticas
e servir bebidas em pistolas d´água. Não, não, não. Não aquela noite. Era a
ultima noite que estariam todos juntos. Ao menos vivos.
Começa a chover. Envolta de uma mesa de carteado, resmungavam a demora de um
dos companheiros. - O que será que aconteceu? - Será que se apaixonou? E era
o que todos ali mais queriam: uma nova paixão. A última delas. A mais importante
de todas. O suspiro de alguém que caísse pelos encantos daqueles trapilhos,
minutos antes de pagarem ao barqueiro do rio da morte. - Você ainda se lembra
de como era? - Afe... não conseguiria saber mais se é redondo ou quadrado. -
Chutaria um triângulo.
Aguardavam nus. Era assim que costumavam jogar cartas entre eles. Se sentiam
monarcas de algum reino, prontos para decretarem algum golpe militar. - César
tomava as decisões no Senado assim: pelado. Nós também temos o nosso Senado,
e vamos cuidar dele como verdadeiros imperadores. Reis ridículos que podiam
zombar de tudo e de todos. Tinham esse direito. Qualquer um que tentasse retrucar,
estaria lidando com os melhores no auto-deboche. E pelados. Era perda de tempo.
De repente começa o fim. Ele chega. Com ela. Uma linda garota usando uma pequeníssima
tanga, com nada no busto. Cotoveleiras, joelheiras, um capacete de ciclista
e patins. Só. O suficiente. Linda. Uma poesia. Um tesão. Um sorriso de criança.
Uma bundinha de maldade. O último amigo se apressa em ficar nu, e com todo o
cuidado para não esbarrar em nada, senta junto dos outros. A platéia de pelancas
e rugas nuas de um lado, e o par de seios com rodinhas do outro. -Que vontade
de beber um suco... - Pst. Apresta atenção. - É agora?
E lá iam eles.
Um a um.
Morrendo.
Tudo o que foram ou deixaram de ser; tudo o que fizeram ou esqueceram de fazer;
tudo que sonharam dividiram e esconderam estava lá: andando de patins de um
lado para o outro, enquanto suas carnes tremiam, gelavam e abandonavam a existência,
diante dos exibicionismos daquela fada mal explicada. Vê-la brincar com gelos
nos mamilos, fez André entender que ser comunista era uma merda. -URG! Morreu.
Vê-la derramar mel pelas coxas, fez Paulo sacar que o amor era uma mentira preguiçosa
-CLARG! Morreu. Vê-la massagear os glúteos com duas almofadas, fez Viktor perceber
o quanto na verdade ele era filho da puta. -KAPLUTZ! Morreu. Vê-la chupar cogumelos
de chocolate conscientizou Edson das palavras "desculpa" e "acho que me enganei".
-GAIXIT! Morreu.
E assim acabaram.
No chão do bar deles.
Um lugar aconchegante.
Com cheiro de suco.
E as últimas duas pessoas que saíram de lá foi uma garota de top-less com patins,
e um índio atarracudo fumando uns charutos. Cuspiu. Na chuva. Mas cuspiu.
:: DEFINIÇÃO ::
porque informação científica é coisa de
desocupado
mancúspias:
s.f. Son unos animalitos peludos llenos de enfermedades contagiosas.
catalupos: s.m. Criaturinhas molengas de umbigo verde, que gostam
de passar as férias em Acapulco.
Fnord: is a little pufflike cloud you see at 5pm.
:: A MULHER
QUE MATOU OS PEIXES ::
por
Bárbara Lopes, http://b-lo.blogspot.com
A verdade é que não existe
gesto maior de confiança que pedir a alguém que tome conta do nosso aquário com
seus dois peixinhos dourados. O cuidado que eles requerem é disciplinado -
respeitando as horas de comer e sendo hábil ao trocar a água e limpar o aquário
- e incondicional - os peixes não são capazes nem de gestos de carinho, nem de
pedidos de socorro. Sem esse cuidado, dias depois seus cadaverezinhos serão
encontrados boiando e não haverá outra saída, exceto a privada como lápide e a
descarga como funeral.
Gostemos ou não de peixes (os
vivos, nesse caso, os da panela são outra história), estamos vagando pela vida
com um aquário redondo nas mãos, procurando alguém a quem possamos confiá-lo. Os
amigos cumprem um pouco esse papel, ao guardar nossos segredos, conhecer nossos
medos, partilhar nossas vergonhas. Mas também aprendemos a não exigir demais dos
amigos. E, vez por outra, encontramos aquelas pessoas diante das quais somos nós
mesmos os peixes - estúpidos, indefesos, nada podendo oferecer senão nossa
frágil e substituível existência. E é por isso que eu me considero uma garota de
sorte, pouquíssimas baixas no meu aquário.
:: ENTROU NO NARIZ SEM QUERER, SEU
GUARDA ::
tirado do Jornal da Ciência (?),
n. 486.
:: POEMA SUJO
::
por Ferreira Gullar
De noite, como
A luz é pouca,
A gente tem a impressão
de que o tempo não passa
ou pelo menos não escorre
como se escorre de dia:
como se desse uma interrupção para que o
Dr. Bacelar fizesse uma conferência
No Grêmio Literário-Recreativo Português
uma interrupção
para que os operários da fábrica Camboa
descansem um pouco
e se reproduzam nas redes
ou nas esteiras
amando-se sem muito alarde
para não despertar os filhos que dormem no mesmo quarto.
E assim o poeta parte para verificar como,
dentro do rigoroso ciclo astral, a noite muda
para quem está a vivendo pelo avesso, dentro
do caótico tempo humano:
E essa sensação
é todavia mais viva
quando se desperta tarde
se depara com tudo claro
já funcionando: pássaros
árvores, vendedores de verdurasMas também
quando se acorda cedo e fica
deitado assuntando
o processo do amanhecer: os primeiros
passos na rua,
os primeiros
ruídos na cozinha
até que de galo em galo
um galo
rente a nós
explode
(no quintal)
e a torneira do tanque
de lavar roupa
desata a jorrar manhã.
:: TOLERÂNCIA
::
por Paine (fale isso rápido, três vezes, que
ele vem)
:: CONCLUINDO RACIOCÍNIOS ::
epílogos intrigantes para introduções duvidosas
Tem gente que se
apaixona por tosses. Não falo por mim. Eu me apaixono por pálpebras.
:: CORRESPONDÊNCIA - II ::
e-mails reais, alcalinos e suspeitíssimos,
interceptados por um inocente nenúfar.
??? Reinaldo (Porto Alegre): "Noivo há dois anos, e só agora descobri que Berenice (noiva) só tem três dedos, na mão esquerda".
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ExpedienteEste Zine é impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente programados preenchem formulários, desenvolvem os textos, se emocionam, revisam e publicam a visão neutra e apolítica da coisa toda. O único responsável é a instituição "Da Redação".
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... Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado (que vem logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido) - Stephanie A.
## Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque estava na lista de indivíduos manquitolas da lista negra dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !!DAMN!! Zine porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis do mundo, sorteados em uma grande urna chinesa. Você e Li-Ching-Yang. Caso não queira voltar a receber este monte de bobagens, mande um e-mail para vmbarbara@yahoo.com, e escreva na linha de assunto: "Me deixem em paz, pelas barbas de Tutatis!". Se quiser que mais vítimas recebam o Zine, também escreva para esse e-mail mandando o endereço dos condenados e o número e senha de suas contas bancárias. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. (Fnord keeps a spare eyebrow in his pocket.)
"Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que ri cuidado para que não babe".
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