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!! A Hortaliça !!
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cada vez mais longe da
compreensão humana
#054
- São Paulo, 22 de dezembro de 2004
Literatura como quem cospe pedras
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Na
horta, o luar de Natal abençoava os legumes
Ao menino que "todos os anos na véspera de NatalPensa ainda em pôr seus chinelinhos atrás da porta"(Manuel Bandeira)
A
lenda começa onde termina Lençóis Paulista, entre tuias e eucaliptos, numa
cidadezinha em declive onde moram ovinos, caprinos, suínos, bubalinos, asininos
e muares, sem contar a diminuta Cecília, de 11 anos. Desde pequena, a garota
cultivava o sonho de cometer um crime bem hediondo (tipo cuspir no Papa) e ser
presa na cadeia local.
Como
todos sabem, ser preso na cidade de Pederneiras é melhor que ganhar uma bolsa de
literatura e passar dois anos num hotel-fazenda escrevendo sobre os mares do
Sul. Na cadeia de Pederneiras, as celas têm
luminárias coloridas e bibelôs de elefantinho. A
decoração interna é assinada por Lawrence Llewellen-Bowen e conta com pufes
gigantes, paredes estofadas e aquecimento central.
Lá, os ovos mexidos têm sabor de hortelã, as crianças podem passar a mão nos
patos e nos porquinhos, há uma variedade de oito sucos e vitaminas, presuntos e
pães de mel, e nos fins de semana você pode encomendar um beirute por conta da
casa.
No
entanto, segundo as famílias de boa índole, os bailes mensais organizados pelo
pessoal da Detenção sempre acabam mal, já que arruaceiros insistem em cometer
infrações das mais variadas para poder ingressar na prisão. Felizmente o
processo de seleção é rigoroso, e a maioria logo desiste.
Mas
Cecília estava obstinada a concretizar seu sonho de Natal. Como lhe parecia
difícil cuspir no Papa ou esmurrar um porquinho, resolveu fugir de casa e fazer
algo muito mau. Algo tão perverso que viraria lenda na cidade; um crime tão
malvado que acabaria perdendo o sentido e se tornaria... idiota. Quem sabe ela
ganharia perpétua. No alvorecer do dia 15 de dezembro, saiu pela porta dos
fundos levando apenas um par de sandálias. Três noites tinham se passado quando
Cecília enfim retornou à casa, trazida pelo delegado local. Após tomar uns tapas
na testa, foi para o quarto sem pronunciar uma palavra.
Outros
três dias se passaram e Cecília nada dizia. Segundo o barbeiro e o serviço de
informação das pedicuras locais, ela havia sido encontrada de barriga pra cima
nas proximidades de casa. Não dava explicações e tinha um ar circunspecto,
embora dissimulasse um sorriso de canto. Os parentes diziam que ela estava
pesada, extremamente pesada. Cecília tinha engolido um tijolo.
Pouco
podemos especular aqui sobre as razões que levariam uma garota de onze anos a
engolir um tijolo, na tentativa de reservar para si a cela número dezessete da
penitenciária local. Sabe-se apenas que ela foi condenada a quinze dias de
prisão logo que saiu o raio-X. Era um tijolo maciço de 12,5x25cm. O juiz
considerou suficientemente imbecil o esforço da pequena, que teria (sei lá) lido
um artigo do código penal de Iowa sobre a tentativa de suicídio por ingestão de
tijolos ou alguma outra lei marcial a respeito de argamassa e porquinhos. Não se
sabe. Embora ninguém conseguisse adivinhar o que teria movido a garota a cometer
tamanha estultice, Cecília conseguiu o que queria (pelo menos durante as festas
de fim de ano); foi algemada. Na delegacia, o guarda entregou-lhe o controle
remoto e as chaves da cela.
É
certo que os preparativos para o Natal daquele ano foram tensos na cadeia; o
silêncio da nova hóspede encheu as paredes estofadas de uma estranha
expectativa. Em três dias a prisão voltou a ter um ar de cárcere, com murmúrios
abafados e um certo senhor que nada fazia a não ser beber muita água, o dia
todo, na cela dezesseis.
Foi
ele o único a tomar água mineral sem gás durante a ceia open bar no pátio
da prisão, o único a perceber (e focalizar) uma fenda que se estendia do telhado
até a base da cadeia; foi ele quem continuou imóvel durante quinze minutos como
um copinho de plástico enquanto a rachadura se alargava rapidamente. Era
quase meia-noite do dia 24 quando os convidados viram as paredes da ala sul
desmoronarem, partidas ao meio pela falta de um só tijolo; ouviu-se longo e
tumultuoso estrondo, como o reboar de mil cataratas — e o último bibelô de
elefantinho foi engolido, tétrica e silenciosamente, pelos restos da cadeia de
Pederneiras, destruída por uma falha retangular de 12,5x25cm.
