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!! Witzelsucht!!
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trocadilhos tolos, compulsão ao gracejo e conduta absurda
#055
- São Paulo, 2 de fevereiro de 2004
Edição especial do Dia da Marmota
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Moi j'ai une toute p'tite ligne de chance
:: HISTORINHA DE CARNAVAL ::
Na sexta à tarde eles compraram dezessete latas de atum e se trancaram no 4040 da rua Amazonas, décimo segundo andar. Grudaram caixas de ovos nas paredes e vedaram as janelas com silver tape. O plano: ficariam de barriga pra cima nos azulejos do chão da cozinha, que era mais fresquinho, até que o despertador anunciasse 23h55 da quarta-feira de cinzas. Ninguém podia se mexer em excesso, atender o telefone, botar o lixo na garagem. Aparentar alegria também não era recomendado. Os dois apenas tentariam dormir durante cinco dias, acordando a cada doze horas para mudar de lado.
Seria um carnaval memorável. Sem caras bêbados tentando encher seus sapatos de sal, sem sambas-enredo cada vez mais parecidos com os do ano que vem. Desta vez, Xica da Silva não se casaria com o Tiradentes ao som da cuíca, não haveria lantejoulas ou chapéus de frutas da época, a princesa Leopoldina não assinaria a lei áurea ou um passista se atreveria a dormir na grama do seu jardim, abraçado à Branca de Neve.
[pois sim, o problema é que eles sempre esperavam demais das datas festivas, como já observara o jardineiro da mãe do Nelson Rodrigues, que dizia: “minha senhora, o sábado é uma ilusão”.] Não, dessa vez não dividiriam o ônibus com os integrantes da Caprichosos de Pilares; não seriam obrigados a escutar “toca Raul!” numa rodinha de violão no vagão do metrô; não teriam que sambar pra frente a fim de avançar na fila do mercado. Apenas fingiriam desconhecer a existência da efeméride comemorativa, e pronto. Ao final do período, ambos sairiam às ruas com os órgãos internos intactos e a sanidade mental preservada, quando, finalmente, ninguém mais estaria feliz. Talvez até pudessem se unir aos garis e ajudar a varrer a alegria dos outros.
Se algum deles porventura acordasse (120 horas de sono é demais? Deus, como você é fraco), poderia se salvar do vazio com água e atum, palavras cruzadas, banco imobiliário e cubo mágico. A televisão já estava encapada, o computador fora doado a entidades-assistenciais-de-sua-confiança e, na sexta à tarde, os dois resolveram desligar a chave-geral.
E foi assim. Já era domingo quando ela acordou com vontade de ir ao banheiro; ele passeava de pijamas pelo corredor com uma vela de sétimo dia. O sujeito sofria de insônia e tentava compor um aforismo desde as quatro da tarde. Já tinha pintado as unhas do pé (dela) e aberto a primeira lata de atum. Agora pensava seriamente em derreter coisas, por falta de uma ocupação mais nobre.
Na segunda-feira, ela despertou parcialmente com um formigamento no dedão esquerdo. Estava cansada, mas decidiu se levantar e comer um pouco. Bem que tentou não despertar tanto, mas tropeçou no cavalheiro que estava dormindo em forma de X no meio da cozinha e acabou acordando. Jantaram de pijamas. Ele tentou engatar uma conversa sobre pescaria, mas lembrou-se que nunca havia pescado. Mostrou-lhe as esculturas de homem-palito que havia feito com os potes de sorvete e tupperware derretidos. Ela sorriu um pouco, mas bem pouco mesmo. Enquanto comia direto da lata com um instrumento de plástico que outrora tivera um gracioso formato de colher, encostou-se na parede e começou a enumerar os nomes de hortaliças que conhecia. Aipo. Abobrinha. Acelga. Almeirão. Inhame. Qual a diferença de um legume para uma hortaliça? Como identificá-los? [O inhame é o que tem bigodes.] Ele já ia sugerir uma espiada pela fechadura, só para ter certeza que o mundo ainda existia lá fora, quando ela retirou-se do recinto dizendo que o dia tinha sido longo. “Acorde-me na quarta-feira”, e foi dormir.
Lá embaixo, Mem de Sá dividia uma estrofe com Anita Garibaldi nos gritos de uma mulher de tanga que sambava como louca e dizia ser um inhame (representando a riqueza natural do país). Puseram-se todos muito contentes de uma hora pra outra, sem perguntar por quê. A alegria alheia rolava pelas ruas como montes de feno e por pouco não entrou pelo vão da janela da sala -- por isso foi quase, mas por um tiquinho que ela não cedeu ao desejo de vestir uma roupa bem estranha (o que você está fazendo?/ vestindo uma roupa estranha) e convidou-o para fazer qualquer coisa.
Mas não foi desta vez.