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!! A Hortaliça!!
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trocadilhos tolos, compulsão ao gracejo
e conduta absurda
#057 - São Paulo, 28 de março de 2005
Véspera do dia em que de repente enlouquecerei
www.damnzine.hpg.com.br
a duck-shaped fanzine
(É só colocar na tomada e ele infla!)
O título do livro que estou escrevendo no momento é exatamente Maquinação da Máquina, Especulação do Espelho. Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que êsse meu nôvo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultâneamente por três leitores.
"I thought, 'Hey, it's rock 'n' roll. It's just a 5-foot-3 bunny.'". É isso aí, David. Mas ao entrar no avião pra ir pro próximo local da turnê, ele viu que o coelho estava a bordo.
Rapaz. :: A ESSE PROPÓSITO, UMA HISTORINHA DE
PÁSCOA
:: Ele mastigava lentamente um naco de hortaliças cruas no banco mais
alto do balcão da padaria quando começou o programa do Faustão. (E
pensar que essa primeira frase até que estava indo bem.) O sujeito
tentou se concentrar em seu prato de verão com rúcula, cenoura e cubos
sortidos, mas quando há uma TV a dois palmos do seu guaraná fica
difícil desviar a atenção. Pois bem. Era dia do Orgulho Português no
Faustão; aparentemente três crianças cantariam coisas típicas e um
cavalheiro de nome Pascal Francisco Álvares de Montoya, do Alentejo,
recitaria Quatro paredes caiadas Como se a existência do sujeito já não fosse suficientemente ruim.
ou: "Shirley Temple e o coelho gigante"
Um cheirinho de alecrim
Um cacho de uvas doiradas
Duas rosas num jardim
Ele decidiu, portanto, comer mais rápido e concluiu que as crianças
cantando eram um bocado assustadoras, além de feias. Enquanto
mastigava, lembrou da Shirley Temple sentada com aquelas pernas
pequenas demais, cercada de homens que coreografavam à sua volta e lhe
davam pirulitos enormes. Uma criança definitivamente medonha, que
remetia por algum motivo à infância do sujeito, entre quatro paredes
caiadas e um cheirinho de alecrim. Da lembrança das pernas
curtas da Shirley Temple, ele passou para a sua avó metade portuguesa,
metade marguerita, e aos poucos foi acometido
de
um pânico horrível, uma sensação que as janelas da padaria estavam
todas fechadas e ele não podia sair sem terminar o prato verão. Um guri
no outro lado do balcão tentava acertá-lo com pedaços de quibe.
Daí aconteceu o pior: as crianças foram embora da tela subitamente e
dois caras começaram
a cantar ópera no programa, um gordo e um magro, e o gordo de smoking
tinha sido o coelho da Páscoa do sujeito quando ele era menor. O Adur.
Ele assustava sempre o sujeito no domingo de Páscoa. O Adur entrava
pelo corredor da casa metido numa fantasia de coelho rosa de pelúcia
comprada em prestações no Armarinhos Fernando, gritava ro-ro-ro porque
estava (invariavelmente) bêbado, despachava os ovos de chocolate meio
moles no assoalho e saía correndo, com aquele rabo de pompom derrubando
os móveis no caminho. Ele era gordo, devia pesar uns duzentos quilos.
As meninas sempre choravam e o Adur reclamava que a fantasia de coelho
rosa gigante o deixava assado.
De maneira compreensível, o sujeito simplesmente desistiu de terminar o
prato verão. Pediu o
uísque mais caro do cardápio e bebeu de um só gole, junto com um
salgadinho de estufa. Quis sair, e afogar todos os guris do mundo na
pia do banheiro, mas
antes contou a história do Adur aos cavalheiros que tomavam refresco no
balcão. Todo mundo ouviu com atenção. Ao invés de terem pena, olharam
para o sujeito com uma expressão de orgulho extremo. Taí um cavalheiro
de alta estirpe. Coisa
fina. O coelho gigante de Páscoa dele era um barítono renomado.
Alguém sugeriu que brindassem a isso.
E o sujeito, que a essa altura já tinha devolvido a chave do banheiro,
mandou embrulhar o prato verão pra viagem, que hoje ia ter festa lá na
mãe dele.
:: A DA EMPADA ::