!! A Hortaliça!!
================================= trocadilhos tolos, compulsão ao gracejo
e conduta absurda
#059 - São Paulo, 30 de maio de 2005
Possui adaptador para todos os tipos de infláveis
[www.damnzine.hpg.com.br]
Há vinte anos não digo a
palavra que sempre espero de mim
"Hoje é muito difícil não ser
canalha.
Todas pressões trabalham para o
nosso aviltamento pessoal e coletivo."
(Nelson Rodrigues)
:: CUIDADO PARA NÃO
DAR À LUZ EM PLENO VÔO ::
Nicomancia
s.f.
Arte de adivinhar o futuro de uma criança untando-lhe as unhas com
azeite e fuligem, e observando as figuras que então se formam.
Esta
viçosa edição da Hortaliça começa com a premonição de uma berinjela de
patas, impressa a fuligem nas cutículas de uma criança qualquer, passa
por uma reportagem
da revista Viagem&Turismo ("20 dicas para
evitar a geração súbita de bebês em pleno vôo"), segue o itinerário do
701-U e acaba com um palhaço entrando no ônibus, sapatos grandes, a peruca
laranja, diante do silêncio dos outros passageiros. Apenas um
palhaço cansado, voltando do escritório.
Esta louçã Hortaliça de maio não teme a represália de carunchos, não
teme o ataque de gafanhotos, apenas crescerá fresca e abundante como os
rabanetes de Tara (que na verdade são batatas), como Gunga Din a tocar
corneta, pouco lixando para o exército enfurecido dos adoradores da
deusa Kali, enfim, uma edição que aconteceu depois que (derrotados)
levamos pra casa todos os vídeos da seção de Western, porque era a
única que faltava assistir. Uma edição de despedida que sai a cavalo em
direção ao pôr-do-sol, enquanto uma criancinha grita "Shane! Shaaaane"
durante os últimos dez ponto cinco minutos da película, sem o menor
sucesso, uma edição que extermina os índios, os amarelos, o bom, o mau
e o feio, os adoradores da deusa Kali, as grávidas, os palhaços e
depois ajeita os bigodes, com uma expressão de pouco caso.
[sobem
os créditos iniciais, música-tema do Lee Van Cleef.] Apaguem os
cigarros e tirem suas pistolas do coldre, pois doravante o Mandaqui se
tornará terra de ninguém e o Seu Farias irá saquear a escola de balé.
Sim, os bons cidadãos devem temer, pois os bravos homens (sic) desta
Hortaliça hoje mesmo partirão, destemidos como os pioneiros, para uma terra sem lei
onde correm bolas de feno e não há justiça sem sangue. Um deserto com enorme
concentração de escória e vilania, xerifes corruptos e moças de péssima
índole, para onde é preciso levar fronhas, galochas e um bote inflável
(just in case). Chutaremos a porta de inúmeros saloons com nossas botas
e atiraremos às cegas apenas para ganhar respeito. Saquearemos escolas
de balé, por que não, e esfregaremos fuligem nas unhas das crianças
arrancadas das barrigas das mães apenas porque no Leste não existem
biscoitinhos da sorte. Daremos à luz em pleno vôo, por puro despeito.
Vingaremos a morte de nossos antepassados, ou dos antepassados dos
outros, enfim, tocaremos o horror até que não sobre um mexicano em
Malakoff.
Go West, young man, disseram os pioneiros, and grow up with the
country. [sobe locução: Venha
para onde está o sabor. Venha para o mundo de Marlboro. Créditos
finais.]
:: A BIFURCAÇÃO EXCESSIVA ::
Adília Lopes
Divido a minha vida
em duas partes
uma em que tinha orelhas
e não tinha brincos
uma em que já não tinha orelhas
e toda a gente me dava brincos
para me consolar de duas coisas
de não ter orelhas
e de não ter tido brincos
quando tinha orelhas
de todos nós assim era só eu
porque orelhas tinha duas
:: ESCRITO EM AZEITE E FULIGEM :: uma colaboração de Eduardo Vasilhame
que vai bater na minha mão, como no barra-manteiga
Eu vou, ele volta. Revezamento cem metros borboleta.
Viajar sozinho é duro quando não se é boa companhia.
:: WORKSHOP ::
No
último dia 5 de maio, a Anhembi Turismo S.A. (em parceria com a ABS Consultoria e
Treinamento em Talentos Humanos S/C Ltda.) organizou a palestra "O
futuro da humanidade".
Aos ouvintes -- donas-de-casa, empresários, jovens escritores, profetas
e pedicuras -- foram distribuídas apostilas sobre metafísica aplicada,
astronomia, ecologia, bíblias em miniatura e um episode guide das
primeiras
temporadas dos Jetsons. Na ocasião, todos puderam medir seus crânios e
tirar fotos com os quatro cavaleiros do Apocalipse, um deles
[estranhamente] vestido de palhaço. O workshop teve início com uma
apresentação do dr. Jimmy Nutto, MBA e Relações Públicas da
Gessy-Lever, que fez uma breve explanação sobre a relação entre o
departamento de Brancura da companhia e a demanda por roupas mais
fofas. "A história do futuro da humanidade se confunde com a história do passado da Mesma", declarou
Nutto, citando Bias e os outros sete sábios da Grécia. "No neolítico,
já se sabia que o Homo Sapiens Sapiens seria guiado pela fofura da
indumentária", como já se podia prever pela lenda da Princesa e a
Ervilha.
Nutto foi aclamado como gênio e retirado às pressas pelo pessoal da
segurança.
Segundo os palestrantes que se seguiram (todos -- também estranhamente
-- de ombreiras), a Princesa e a Ervilha pode ser
tomada como fábula do futuro, à medida que discute a questão das dores
lombares e dos legumes enquanto metáfora para a produtividade das
empresas no século vindoiro.
No final do treinamento, fez-se uma assembléia para
discutir o que fazer caso Ele esteja mesmo a caminho ("pareça ocupado"
ganhou por cinqüenta votos a um).
Em seguida, todos usaram sprays de cabelo com gigantescas
quantidades de CFC, para apressar o colapso global.
:: PALHAÇO MAU-CARÁTER ::
Crie seu próprio arrelia do submundo
[Do persa pãdzähr, 'antídoto', pelo ár. bãdzahr, bãzahr.]
S. m. Patol.
Concreção
que pode ser encontrada no estômago ou nos intestinos do
homem ou de outros animais. Pode constituir-se de cabelo (tricobezoar),
vegetais (fitobezoar), cabelo e vegetais (tricofitobezoar), ou
fragmentos de goma-laca.
[É
como uma flunfa interna. E, não -- não sei por que alguém engoliria
fragmentos de goma-laca. Pelo menos por enquanto.]
:: HAI-KAI ::
do Antonio Prata
algo na escola ficou sem explicação:
por que comíamos cola
e colávamos macarrão?
:: A
DAY IN THE LIFE OF A MUSICIAN ::
Erik Satie, colaboração de Elton Mesquita
An
artist must regulate his life.
Here is a time-table
of my daily acts. I rise at 7.18; am inspired from
10.23 to 11.47. I lunch at 12.11 and leave the table at 12.14. A
healthy ride on horse-back round my domain follows from 1.19 pm to 2.53
pm. Another bout of inspiration from 3.12 to 4.7 pm. From 5 to 6.47 pm
various occupations (fencing, reflection, immobility, visits,
contemplation, dexterity, natation, etc.)
Dinner is served at
7.16 and finished at 7.20 pm. From 8.9 to 9.59 pm
symphonic readings (out loud). I go to bed regularly at 10.37 pm. Once
a week (on Tuesdays) I awake with a start at 3.14 am.
My only nourishment
consists of food that is white: eggs, sugar,
shredded bones, the fat of dead animals, veal, salt, coco-nuts, chicken
cooked in white water, mouldy fruit, rice, turnips, sausages in
camphor, pastry, cheese (white varieties), cotton salad, and certain
kinds of fish (without their skin). I boil my wine and drink it cold
mixed with the juice of the Fuschia. I have a good appetite but never
talk when eating for fear of strangling myself.
I breathe carefully (a
little at a time) and dance very rarely. When
walking I hold my ribs and look steadily behind me.
My expression is very
serious; when I laugh it is unintentional, and I
always apologise very politely.
I sleep with only one
eye closed, very profoundly. My bed is round with
a hole in it for my head to go through. Every hour a servant takes my
temperature and gives me another.
:: DISCOVERY KIDS :: provável slogan para a próxima edição (anotar)
Discovery Kids, o canal que reúne os grandes amigos dos mais pequenos.
O
Projeto World Jump Day se baseia numa idéia realmente feliz: se 600
milhões de pessoas no Ocidente pularem ao mesmo tempo no dia 20 de
julho de 2006, mais precisamente às 08:39:13 (horário de brasília), a
Terra sairá do eixo, passando a fazer um "percurso" maior em torno do
sol. Assim, o problema do efeito estufa estaria resolvido, os dias
seriam mais longos, sem falar do clima mais homogêneo.
Obviamente, já pensamos em algumas opções para burlar o Jump Day ao
nosso favor. A idéia é que todos os leitores da Hortaliça se
concentrem, sem mexer os braços, no centro da Praça Tito, marco zero do
Mandaqui, e pulem às 08:39:10. Ou fiquem saltitando no mesmo ritmo
desde as seis da tarde do dia anterior, numa rave pogobólica que
causaria danos terríveis à grama. A oposição está autorizada a
organizar um movimento de contrapeso e pular no ritmo errado, ou saltar
no Sri Lanka e estragar tudo, assim todos perderíamos nosso tempo (ao
mesmo tempo) e, aos que protestarem, que lhes ataque o beribéri.
::
RECEITA "GIANFRANCESCO GUARNIERI" DE DOCE DE BATATA-DOCE ::
a troco de nada, como os srs. podem perceber
Lave bem
as batatas esfregando com uma escovinha. Leve ao fogo para cozer em um pouco
d'água. Depois de cozidas, descasque e môa em máquina de
moer carne ou em passador de batatas. Com a água em que foram cozidas
as batatas faça uma calda grossa. Despeje as batatas moídas e
mexa-as com fôrça. Volte ao fogo com os pedaços de canela
para tomar ponto.
:: ÁCIDO GLICÓLICO ::
"gordas de biquini de felpo", "cabras infláveis" e "o que fazer com talos
de chicória"
Oi Vanessa,
encontrei
esta sua pg muito louca DamnZine, eih, porque vc parou de
escrever? deveria continuar, é muito legal, engraçado!!!! se bem q faz
a gente perder um tempo danado, por ex, estou trabalhando pesquisando,
ou estava até encontrar esta sua pg na busca de ác glicólico,
bem parabéns, e se um dia reativar o damnzine, mande pra mim,
abraços
Bianca
:: A QUEIMADA ::
colaboração compulsória de Fabio Fujita
[...] você
pode encontrar todas as respostas no vigoroso "O Livro Negro da Queimada –
Aurora e ribalta do maior esporte desde a marcha atlética". De forma
resumida, o autor – o antropólogo argentino Desábato –
disseca a corrupção que envolvia, desde os primórdios do
esporte, os atletas que se deixavam "queimar" – fato que ficou conhecido
como "Esquema Corvo", cujas cifras escusas alcançavam a quarta casa da
URV efeaganiana. Além disso, a maciça aceitação
do público para o esporte vindouro representou um acinte para os cartolas
dos esportes mais populares da época (pelota basca, Lig-4 e jaquempô
foram os casos mais notórios), que pagavam "laranjas" na imprensa para
falarem mal da Queimada. Logo, a população comprou a injúria
vendida pelos jornais, organizando-se naquilo que a história registraria
como Marcha pela Família com Deus pela Liberdade.
Foi isso.
:: FRASES BEM APANHADAS ::
de A Foreign Affair, Billy Wilder
- Quando você trabalha?
- Quando não estou ocupado.
:: BORGES ::
[...]
Ele
inclusive não gostava de jornais, e quando encontrava algum em
casa, jogava fora, pela janela, acertando os pedestres. A mãe, que
gostava de ler jornais, tinha que escondê-los debaixo de uma compoteira
de cristal.
:: PERGUNTA INTELIGENTE :: de uma revista de qualidade duvidosa
[repórter:] Você acha que pode prejudicar sua carreira internacional
indo morar em Vinhedo?
:: ANÃO VESTIDO DE PALHAÇO MATA OITO EM ZAGREB ::
algo com que se ocupar, enquanto a Hortaliça entra em recesso
O palhaço subiu no
701-U e apareceu no corredor com aqueles sapatões, jogou a pasta de
couro no banco dos idosos e remexeu os bolsos em busca de uns trocados. Tinha
molhado o bilhete único durante a chuva daquele dia, nas calças
apenas uma interminável fila de lenços coloridos atados pela
secretária (quanto mais ele tirava, mais descobria novos tons de azul-bebê
no espectro das cores frias).
O palhaço achou três
moedas de dez e duas de cinqüenta que sobrara do troco da cerveja depois
do trabalho, mas o cobrador apontou para Tarifa Dois Reais sem tirar o fone
do ouvido. O palhaço teve que passar por baixo, desejando ser o contorcionista,
enquanto muita gente colocava o walkman no ouvido ou fingia estar cochilando
porque (podia estar roubando podia estar matando) certamente ele começaria
a pedir. O palhaço se arrastou [contudo todavia] com a pasta de couro
através do vão da roleta, sujou os fundilhos, não olhou
para ninguém e se sentou no primeiro banco vago. Suspirou alguma coisa,
cansado, antes de encostar a cabeça na camada de pó que revestia
o encosto do banco. O dia havia sido terrível — o pessoal da
firma o culpou por um erro no software de produção, ele teve
de assinar um cheque e levar quatrocentos rolos de adesivo pra casa. Também
houve um problema financeiro: a funcionária do departamento de folhas-sulfite
foi cheirar a flor da lapela do palhaço, apesar das advertências,
encharcou-se de uísque e provocou a queda da bolsa (bem na cabeça
dele). Na saída, a chuva ainda borrou sua maquiagem, descolou levemente
a parte de trás da peruca e arruinou os quatrocentos rolos de autocolante
que ele arrastava pela rua de paralelepípedos, para dar de presente
à mulher barbada. O palhaço olhava pela janela do ônibus,
lamentando ter desperdiçado cinqüenta centavos numa cerveja tão
ruim.
Uma criança o encarava
no ônibus ao lado, grudava o nariz no vidro, dizia nomes muito feios,
mas o palhaço não deu bola, se levantou e percorreu o resto
do corredor, meio bêbado. Desceu em frente ao shopping. O palhaço
pensava naquele sujeito do trem-fantasma, que se afogara na tina dos elefantes
porque não conseguia assustar ninguém.
:: A SALADA COM MOLHO COR-DE-ROSA ::
Adília Lopes
9
O que me causou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido
>>>> Expediente
Este jornalzinho é
impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente
programados preenchem formulários, desenvolvem os textos, se emocionam,
revisam e publicam a visão neutra da coisa toda.
"Para ser lido na
maldita hora da noite em que tudo é engraçado -- logo após a hora em
que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido"
(Stephanie
"Eu tenho um cão estranho" Avari, que realmente mora na rua Paulo da
Silva
Gordo)
## Você está recebendo !!Witzelsucht!! (saúde) porque estava na lista de
mala direta dos Illuminati. Ou então, ou então! Você está recebendo o !Rododendro!
porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis,
sorteados em uma grande urna chinesa. Você e o To Fu, que ganhou
o direito de trazer um tufo de nenúfares e furar a fila (desculpe).
Caso não queira voltar a receber este jornalzinho asseado, mande um
e-mail para vmbarbara@terra.com.br,
e diga na linha de assunto: "Foi demais para Kudno Mojesic", mesmo que
você não seja -- e nem planeje ser -- Kudno Mojesic.