:: MANUAL DE INSTRUÇÕES ::
Sr.(a) assinante, ao receber esta edição pedimos que calce um par de
nadadeiras e não atenda o telefone -- o sr.(a) está prestes a
empreender uma jornada pelo avesso da realidade, por uma auto-estrada
de bolinhas de plástico com raias olímpicas onde passam navegando a
cento e vinte por hora um Buick
verde 1959 e navios de carga escandalosamente vazios.
Meio de transporte: Dromedários (que saibam nadar), balão, barriga,
milagres cristãos ou caravela.
Respeitar as regras de trânsito da categoria.
Modo de usar: Escolha um feijão para você, esconda alguns no bolso e
coloque na primeira casa do tabuleiro quantos mais forem necessários
para fazer um tutu.
É facultado ao jogador /entretanto/ chutar a boca das
regras e fazer como quiser. Jogar amarelinha na encosta da colina, por
exemplo, e inventar outras normas unicamente para trapaceá-las: se a
pedra rola pra direita, uma volta a menos, se pra esquerda, pode-se
pular mais longe, e se uma pequena avalanche arrasta tudo, quem chegar
primeiro em casa ganha – e mudar o mundo.
Ou estabelecer um jogo próprio em suas regras mudas e essenciais.
:: PRIMEIRA CASA ::
Cortázar, citando Jean Charcot, Autour du Pôle Sud
(uma citação que os
exploradores interpretam como um bom conselho na hora de iniciar seu
diário de viagem)
Pierre, nosso guia alpino,
que se curou de sua penosa mareação e recomeçou a escrever suas
memórias, vem me pedir que lhe empreste "a que afasta as palavras".
Demoro a compreender que se trata de uma borracha.
:: SEGUNDA CASA ::
Vaconautas da legumopista
como os viajantes interplanetários que observam de longe o
envelhecimento daqueles que continuam submetidos às leis do tempo
terrestre, o que vamos descobrir ao entrar num ritmo de feijões e
camelos depois de tantas viagens de avião e trem-bala?
:: TERCEIRA CASA ::
História trágica de Cintia Lublanski
(Para fins didáticos.)
Ato único: a referida moça no Passa ou Repassa.
Gugu: "Qual o plural de qualquer?"
Eu: "Respondo, Gugu. Qualqueres!"
Gugu: "Eles perderam tudo!"
E quando o Gugu jogou chicletes do Garfield, me joguei em cima de uma
câmera pra pegar.
:: QUARTA CASA ::
Julio Cortázar
René e eu não nos víamos há pelo menos seis anos, e nunca vou entender
por que de repente ele ficou com tanta vontade de nos encontrar na
autopista que devia percorrer em viagem para casa, no Gard. Poderíamos
ter nos encontrado cem vezes em Paris, mas os cronópios são assim mesmo
e de repente René ficou a fim de se meter em todos os parkings, um
atrás do outro, até me encontrar.
:: QUINTA ::
A well-directed imagination is the source of great deeds.
Pule aqui quantas casas quiser (contanto que seja uma quantia ímpar e
divisível) ou apenas siga em frente, deixando um rastro fosforecente
feito lesma de bigodes.
:: SEXTA ::
outra intervenção do senhor Cadu
[prólogo,
para compreensão do leitor médio: Certo dia comprei um livro num sebo
virtual e ele veio cheio de inscrições bizarras de uma certa "Maria
Solange Corrêa de Barros Oliveira". A equilibrada senhora sublinhou
TODAS as linhas do
livro e escreveu em TODAS as páginas mensagens como: "et tenho dito.
Assim seja. Amém". Fiquei até orgulhosa. Mas sempre alguém tem uma
história pior.]
A Solange Albuquerque Moreira Pinto Penteado é muito mais interessante
que a ex-dona do livro que eu comprei pela Amazon. O livro só não podia
ser considerado novo porque na primeira página havia um nome escrito
com cuidado e em letras femininas: "Jeniffer Whatever". Que gracinha,
pensei comigo, vou entrar em contato. E assim fiz, fui ao Google e
achei a moça. Mora em Nebraska e é jogadora de basquete da universidade
do estado. Fiquei ainda mais encantado. Bonitona, alta, com interesses
em economia (o livro!).
Descobri o e-mail da Jeniffer através da técnica do time. Passei três
dias lapidando meu texto de página e meia, tudo parecia perfeito.
Mandei. Um dia, nada. Dois dias, sem resposta. No terceiro dia, abri
meu e-mail e, emocionado, vi que a moça tinha respondido. Cliquei na
mensagem e li sem mover os olhos tudo o que ela tinha escrito: "that's
cool!".
A Pinto Penteado deve ser muito mais divertida.
:: SÁBADO ::
Esta casa não existe. Favor avisar as autoridades competentes.
:: SÉTIMA ::
J. C.
Observação científica: no acostamento vimos uma lesma cor de terracota
que enfiava a cabeça numa garrafa de cerveja vazia no chão. Esta noite,
depois de prudentemente estacionar Fafner num terreno livre de
impurezas, fizemos um chucrute. Logo depois notamos uma lesma, da mesma
cor, que se aproximava de nosso carro.
:: OITAVA ::
Siga até a 12 se quiser ficar nesta casa para sempre (o que, pensando
bem, é um paradoxo), e até a 13 para erguer um brunoscópio e
espiar o final.
:: NONA ::
...Cinco minutos mais tarde, toda a superfície do terreno à frente de
Fafner estava coberta de lesmas que avançavam rumo ao nosso jantar.
Relacionando o primeiro caso com a experiência de hoje, somos obrigados
a concluir que as lesmas têm origem alemã. (Procurar imagens de lesmas,
seu nome em latim etc.)
:: DÉCIMA ::
Pense no máximo de coisas que puder em cinqüenta segundos (quarenta e
nove, quarenta e oito, quarenta e sete) e chame mais feijões para a
casa seguinte.
:: ONZENTA ::
Amor em Veneza
Giustiniana estava radiosa em sua capa de brocado. Descia com muito
cálculo a escadaria do palácio do conde, e um ventilador
estrategicamente instalado na nuca do cavalheiro da frente fazia com
que suas longas madeixas ruivas balouçassem ao sabor do vento. Como
dissemos, ela descia a escada languidamente. Lá embaixo, à luz de um
portentoso lustre de pingentes, o príncipe Andrea se rejubilava com a
beleza primaveril da dama e mascava uns canapés de pato. De súbito,
ouve-se dos aposentos da rainha um grito de horror. Andrea, o príncipe,
ignora a turba de aristocratas que corre em círculos apenas para
tumultuar o palazzo e alcança a porta dos aposentos da rainha.
A porta do quarto está trancada. O rei chama Vossa Majestade e não
obtém resposta. Giustiniana está em prantos e preocupada com o rímel.
Andrea grita:
“Abrai! Abrai! Arrombarei a porta se em minutos dois não abrirdes!”
Com um vigoroso chute, ele derruba a entrada. O corpo da rainha jaz
inerte no tapete, próximo à biblioteca. Giustiniana desmaia num
gracioso rodopio. O rei não demonstra surpresa, contorna o cadáver e
decide apanhar um livro melhor (este aqui o aborrece imensamente).
:: DÉCIMA SEGUNDA ::
Espaço exclusivo para a passagem de patos.
:: DÉCIMA TERCEIRA ::

Estamos sós, meus sapatos sujos — eu e um guarda-chuva vermelho em
plena primavera atômica, a cidade estranhamente coberta de betume,
árvores respeitáveis impressas em papel carbono, os prédios com
torcicolo e muros de parque estadual escocês — olho pra baixo, tentando
adivinhar que horas são, e visto ainda uma capa de chuva tão longa que
não me deixa dançar o twist. Estamos sós e já é dia, estamos sós e paro
de andar um instante tentando encontrar o final da rua.
(Goeldi)
:: DÉCIMA QUARTA ::
Fred Astaire para Ginger Rogers, em Gay Divorce
Você é a garota mais emocionalmente desajustada que eu conheci.
:: DÉCIMA QUINTA ::
Diálogo na
autopista
- Nada, chefe.
- Que diabos você quer dizer? Nada? Ainda estão na autopista ou não?
- Sim, chefe.
- E que merda estão fazendo lá?
- Exatamente o que disseram que fariam. Estão escrevendo um livro.
- Puta que os pariu. Um livro? Na autopista? E você acha que eu vou
engolir essa?
- Bom, sabe como é.
- Sei que são uns pirados, mas tudo tem limite! Volte imediatamente e
tente saber o que estão realmente tramando.
- Chefe, sobre as latas de lixo...
:: DÉCIMA SEXTA ::
"Java", tango de Cortázar
Nos quedaremos solos y será ya de noche.
Nos quedaremos solos mi almohada y mi silencio
y estará la ventana mirando inútilmente
los barcos y los puentes que enhebran sus agujas.
Yo diré: Ya es muy tarde.
No me contestarán ni mis guantes ni el peine,
solamente tu olor, tu perfume olvidado
como una carta puesta boca abajo en la mesa.
Morderé una manzana fumaré un cigarrillo
viendo bajar los cuernos de la noche medusa
su vasto caracol forrado en terciopelo.
Y diré: Ya es de noche
y estaremos de acuerdo, oh muebles oh ceniza
con el organillero que remonta en la esquina
los tristes esqueletos de un pez y una amapola.
C'est la java de celui qui s'en va -
Es justo, corazón, la canta el que se queda,
la canta el que se queda para cuidar la casa.
:: DÉCIMA SÉTIMA ::
Diálogo de Boulevard do crime, Marcel Carné
- Por que você vem me ver?
- Tenho tédio.
- Eu te divirto?
- Fala o tempo todo. Parece teatro. Distrai e descansa.
:: DÉCIMA
OITAVA ::
Ouvi do vizinho, que conversava com um guarda aqui na rua.
(Ou então: "Ouvi do vizinho, que
conversava com um guarda-chuva")
Quem se vestiu, se vestiu.
Quem não se vestiu, fica pelado.
:: DÉCIMA NONA ::
por
Flaubert, em Madame Bovary
Seu companheiro, porém, lhe
parecia muito esquisito, pois muitas vezes Léon se estirava na cadeira,
distendendo os braços, e se queixava da vida.
- É porque não procura distrações - dizia o preceptor.
- Quais?
- Eu, no seu lugar, teria um torno.
:: VIGÉSIMA ::
Era o casal de velhinhos
mais legal da história da quarta idade. Ele morreu assim: estavam seu João e dona Francisca, como todos os
dias, caminhando tranqüilamente pelo
bairro. Domingo de manhã. Andavam em câmera lenta, quando o seu João virou para a dona Francisca e disse: "não
estou me sentindo bem". Daí sentou, tirou
o chapéu e morreu.
Ela está muito triste, a dona Francisca.
(No entanto, que jeito mais legal de morrer.)
:: VIGÉSIMA PRIMEIRA ::
fragmentos do Manual dos lobos, Carol Dunlop
Em geral
demonstra
certo talento para a cozinha, embora possa pecar por excesso de
imaginação. Se você sabe que ele tem a intenção de preparar uma torta
de maçãs, por exemplo, é melhor esconder os vidros de páprica,
alfavaca, coentro e tomilho.
(a well-directed imagination is the source of etc.)
:: VIGÉSIMA SEGUNDA ::
Faça o que bem entender nas próximas três casas, tomando cuidado
para não assustar os vizinhos.
:: VIGÉSIMA SEXTA ::
Manual dos lobos
Se você pretende brilhar numa festa
pronunciando frases tais como: “E se pegássemos o transiberiano esta
noite?”, é bom arrumar a mala com antecedência, pois nesse trem não se
vendem pasta de dente nem calcinhas.
:: VIGÉSIMA SÉTIMA ::
J. C.
O que transportam esses caminhões sempre meio sinistros, sempre
vagamente ameaçadores? Não acredito que esta estrada faça parte de um
circuito de tráfico de armas, nem que o fato de ocultar a natureza de
sua carga salve estes caminhões do controle policial ou alfandegário,
muito pelo contrário. Não se trata, então, de imaginar que vão ou vêm
da Bulgária para Paris ou de Estocolmo a Nápoles levando mísseis ou
helicópteros; excluímos, naturalmente, outras cargas explosivas, tais
como a heroína ou as raízes de ginseng, por evidentes razões de volume.
Por que então esse segredo, por que esses caminhões se parecem a certas
casas suburbanas que, sem nada que aparentemente as diferencie das
outras, dão a impressão de estarem cercadas, habitadas por seres que
não são como os das outras casas? Por que, para falar corajosamente,
nos dão tanto medo?
Carol fica imaginando carregamentos vergonhosos, que nenhuma empresa de
transportes se animaria a proclamar com letreiros como os que
alegremente levam cerveja ou porcos. Aventurou-se a dizer que alguns
podiam transportar farinha, tapioca, cremes depilatórios ou macarrão a
granel, coisas pouco anunciáveis publicamente sem corar. Concordo com
ela em que ninguém proclamaria com muito orgulho que leva um
carregamento de alfinetes de gancho ou touquinhas para bebês. Seu ponto
de vista me parece digno de atenção e respeito, e me contento em
imaginar coisas menos comerciais, mas que em certas circunstâncias e
contextos exigem ser transportadas discretamente; fico pensando que
talvez o governo de um país chuvoso tenha vendido em segredo uma nuvem
ao governo de um país seco, ou que os sócios de um clube de viciosos em
Oslo compraram um carregamento de vibradores socialistas dos iugolavos,
que dizem ser mais titilantes que os de Hamburgo ou os da rue
Saint-Denis. E não seria possível que esse segundo caminhão envolto num
encerado negro, que segue o primeiro de perto, estivesse importando uma
centena de especialistas no uso desses implementos? Você não vai
explicar isso com letras de um metro de altura.
Tenho outras hipóteses: talvez algum desses caminhões transporte um
carregamento de obesos holandeses destinados às experiências dietéticas
de um instituto de Milão, ou vice-versa; como soltar oitenta gordos ao
mesmo tempo nos parkings? Penso também numa remessa de luvas de
borracha, que sempre evocam pensamentos turvos... Mas a hipótese
extrema, com que ambos concordamos sem ânimo para acreditar muito nela,
é que todos esses caminhões estão vazios e pertencem a um excêntrico
escocês que se diverte em fazê-los ir e vir por toda parte e ao receber
informes semanais sobre a cara dos fiscais da alfândega quando os
abrem; naturalmente essa diversão deve custar uma fortuna, mas como se
trata de um escocês a suprema excentricidade está justamente aí.
:: VIGÉSIMA OITAVA ::
http://www.googoth.com/
I'm feeling depressed.
:: VIGÉSIMA NONA::
anotação em caderno
Sorte, você não passa de um repolho.
:: TRIGÉSIMA ::
O carteiro
acaba de
passar por aqui, me desejou Boa Páscoa e disse que eu precisava tomar
um sol. Enquanto eu assinava o comprovante de recebimento do talão de
cheques, ele confirmou que o meu pai se chamava Sérgio, certo? — mas
como o meu pai nunca atendeu por Sérgio, o carteiro derrubou metade da
correspondência e mostrou estar chocado com a notícia. Sérgio mora no
cento e trinta e sete, eu dizia, tentava acalmá-lo mas o senhor de
amarelo estava realmente confuso. Eu pensei que os meus olhos fossem
cair, tinha dor de cabeça e precisava de um banho, mas o Sérgio não
morava ali e a questão demandava uma verificação atabalhoada em cada um
dos telegramas, promoções de fraldas e extratos bancários ou de tomate
a um e noventa e nove no Senda’s. O carteiro já tinha afastado os
óculos escuros da augusta fronte e livrava o chão dos papéis, antes que
o cortador de grama desse cabo dos envelopes maiores. “Eu fui para Long
Beach”, exclamou com júbilo o profissional da correspondência quando
Sérgio apareceu de pijamas na porta do 137 e elogiou o
carteiro substituto do mês de agosto, que nunca
deixava molhar o guia de programação da tevê. O carteiro substituto é
calado, usa óculos, cumprimenta a todos com saudações socialmente
corretas e entrega o que é de Sérgio a Sérgio. O carteiro substituto
quita valores mensais para o convênio odontológico.
Louis, the mailman, encontrou meu talão de cheques e me deu Feliz
Páscoa, depois apostou com o cortador de grama que faria dona Ondina
sair de casa para entregar pessoalmente a correspondência trocada e
falar mal do
carteiro, não toma jeito, entrarei com uma reclamação formal, esse
grande
louco.
:: TRIGÉSIMA PRIMEIRA::
"E além
disso todo mundo pode fazer o mesmo. Basta fechar os olhos."
::
TRIGÉSIMA SEGUNDA ::
"é do outro lado da vida".
(Céline)
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Expediente
Este jornalzinho é
impessoal, objetivo e imparcial. Computadores meticulosamente
programados preenchem formulários, desenvolvem os textos, se emocionam,
editam e publicam a visão neutra da coisa toda.
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"Para ser lido na
maldita hora da noite em que tudo é engraçado -- logo após a hora em
que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido"
(Stephanie
Avari, que realmente mora na rua Paulo da
Silva
Gordo)
## Você está recebendo !!Witzelsucht!! porque estava na
mala direta. Ou então, ou então! Você está recebendo o !Rododendro!
porque foi um dos 139 mil nomes escolhidos entre todos os possíveis,
sorteados em uma grande urna chinesa. Você e o To Fu, que ganhou
o direito de trazer um tufo de nenúfares e furar a fila (desculpe).
Caso não queira voltar a receber este jornalzinho bem-apessoado, mande
um
e-mail para hortalica@gmail.com
e diga na linha de assunto: "Foi demais para Kudno Mojesic", mesmo que
você não seja -- e nem planeje ser -- Kudno Mojesic.
::: www.damnzine.hpg.com.br :::
ps. Por que existe um papel dentro da orelha da vaca (fig. 1)?
seria uma vaca-correio?